O vinho e a guerra
Por João Victor Sampaio — Carta Capital
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A história da família Drouhin mostra a resistência de produtores de vinho ao nazismo
Eram pouco antes das seis da manhã de 7 de junho de 1944, quando batidas fortes na porta de uma casa de Beaune fizeram todos os moradores acordarem. A família Drouhin não tinha dúvidas de que do lado de fora estavam oficiais nazistas. Os Drouhins tinham ouvido a possibilidade de uma prisão iminente, por terem descoberto que Maurice Drouhin estava envolvido na Resistência.
Durante o período entre as guerras, como reservista do exército francês, Maurice tinha sido incumbido pelo governo francês de acompanhar delegações militares a Washington, com o intuito de persuadir os Estados Unidos a abandonar sua política de isolamento. Durante a Segunda Guerra Mundial, realizava missões especiais periódicas e mantinha contato com amigos do exército norte-americano. Nunca revelou a natureza exata dessas missões aos filhos, mas encontrava-se frequentemente com o General Douglas MacArthur, principal comandante das forças dos Aliados na região do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.
Esse histórico já havia custado caro. Em agosto de 1941, Maurice fora detido e levado para uma prisão nos arredores de Paris, onde permaneceria por seis meses até sua libertação, em 13 de fevereiro de 1942. O pretexto oficial das autoridades de ocupação fora a descoberta de um velho revólver enferrujado da Primeira Guerra Mundial esquecido em uma gaveta. A razão real, contudo, era o monitoramento ostensivo do serviço secreto alemão, convencido de suas atividades contra o governo de Adolf Hitler.
Foi justamente atrás das grades que a história da Borgonha quase tomou outro rumo. Durante uma das visitas da esposa, Pauline, à prisão em 1941, ela o informou de que metade (50%) do lendário Domaine de la Romanée-Conti fora colocada à venda. Sendo a Maison Joseph Drouhin a maior distribuidora dos vinhos daquela propriedade à época, abria-se a oportunidade histórica de adquiri-la. Maurice, contudo, temia que a compra de um ativo tão vistoso em plena ocupação atraísse ainda mais a atenção e o confisco por parte dos Weinvorsteher (os “barões do vinho” encarregados pelo Terceiro Reich de saquear as adegas francesas). Preferiu declinar, reconta Christophe Thomas, diretor de exportação dos vinhos da família Drouhin na Borgonha, presente em São Paulo nesta semana em uma degustação dos vinhos, importados pela Mistral.
Quando a Gestapo voltou à sua porta naquela manhã de junho de 1944, Maurice sabia que não haveria uma segunda chance na prisão. Agora a ordem era executá-lo. Sem hesitar, Maurice enfiou a mão debaixo da cama e agarrou uma maleta com roupas e objetos pessoais. Ele mantinha essa bolsa pronta havia dois anos — desde sua libertação em 1942, depois da primeira e até então única prisão. Achava que os alemães tentariam prendê-lo novamente devido às suas atividades na Resistência. Sem tempo, apenas murmurou “eu te amo” para Pauline. Desceu silenciosamente a escada em direção à adega de vinho. Parte das cenas está descrita ainda mais em detalhes no livro Vinho e Guerra, de Don e Petie Kladstrup, Cia das Letras, e em uma entrevista do filho Robert ao podcast I’ll Drink to That, de Levi Dalton.
Para ganhar tempo para o marido, Pauline abriu a janela. Viu vários oficiais da Gestapo acompanhados de soldados armados. Eles tinham descoberto que Maurice passava segredos para os aliados. Uma sentença de morte tinha sido expedida. Quando os oficiais ordenaram que abrisse a porta para falarem com Maurice, Pauline disse que o marido não estava mais ali, tinha ido para Paris a negócios. Não acreditaram. Ordenaram a abertura da porta. Vasculharam todos os cômodos, abrindo armários, revirando roupas, a cozinha, banheiros, os quartos e espiando debaixo das camas.
Enquanto os soldados vasculhavam a casa, guiado pela chama de uma vela, Maurice conseguiu escapar de seu quarto para as adegas da família Drouhin, um labirinto de quilômetros de passagens do século XIII. Movido pelo pavor de ser executado caso capturado, procurou freneticamente por uma portinha secreta de madeira escondida. Ao encontrar, girou a maçaneta e saiu para outra rua de Beaune, no coração da Borgonha. Sem nenhum alemão à vista, desapareceu.
Viveu escondido por quatro meses nos edifícios dos Hospices de Beaune até a libertação da cidade pelas tropas americanas em setembro de 1944, segundo recordou sua neta, Véronique Drouhin, em entrevista à revista inglesa Decanter. Naquela época, o Hospices de Beaune ainda funcionava como um hospital de caridade gerido por freiras católicas (a madre superiora não apenas concordou em abrigar Maurice, como também levava mensagens entre ele e sua esposa, Pauline.) A ajuda delas fez com que, depois da guerra, Maurice doasse dois hectares de seus melhores vinhedos de Beaune ao Hospices, em agradecimento pelas freiras terem salvado sua vida.
A guerra está presente na vida dos Drouhins por outro episódio, diz o diretor de exportação da vinícola, Christophe Thomas. Na Primeira Guerra Mundial, em uma trincheira, Maurice conheceu o Marquês de Laguiche, proprietário de um dos mais cobiçados e caros vinhedos do planeta: Montrachet, o mesmo que a personagem de Grace Kelly oferece ao fotógrafo interpretado por James Stewart em Janela Indiscreta.
Ficaram amigos e anos depois selaram, com um aperto de mãos, um acordo que faz os Drouhins terem o vinhedo para vinificarem um dos mais famosos brancos do mundo. O acordo de mão durou décadas. Virou formal há cinco anos. “Ouvimos que um grupo de luxo ia almoçar com eles e então resolvemos formalizar”, afirma Thomas.
Os grupos de luxo, aliás, estão mudando a região, que desde o filme Sideways está no topo da lista entre enófilos do mundo. Recentemente, o grupo que detém a famosa champagne Louis Roederer, cujo rótulo mais famoso é a Cristal, acertou a compra da vinícola familiar Pierre Damoy, em uma transação avaliada por algumas revistas especializadas em 300 milhões de euros. “Os preços das terras na Borgonha estão nas alturas, não temos condições de comprar mais nenhum grand cru”, diz Thomas.
Nem só o dinheiro tem mudado a região. As mudanças climáticas também. Em 2024, chuva, geada, tempo nublado fizeram a vinícola ter perdas de 90% de seus rótulos, uma perda maior que a média da região, de 75%. “Nós estamos há anos em agricultura biodinâmica e isso é um norte, as raízes ficam mais profundas e permitem que tenhamos videiras mais sadias”, diz. O grupo foi um dos pioneiros ao investir na área no fim dos anos 1980, depois de um dos membros da família, que gostava de pescar, ter notado que havia poucas minhocas no solo de um dos vinhedos mais famosos da vinícola. A dificuldade em encontrar iscas para uma pescaria levou a investigar mais a fundo o que estava acontecendo, um pulo para iniciar estudos. “No início, alguns ficaram reticentes, mas depois se viu que era o futuro.”
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Fonte: Carta Capital