Coloquei Aline Bei na mesa de minha filha, porque a poesia está tanto nos amores como nos chinelos
Por Rodrigo Martins — Carta Capital
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Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.
‘Pai, isso é poesia, certo?’, perguntou. ‘É, também’, eu disse. ‘E é prosa. Na verdade, é aquilo que você achar que deve ser’
Tentava chegar ao estande da minha editora na Bienal de São Paulo quando uma multidão surgiu em minha frente, avançava em minha direção, aos gritos, braços erguidos, passos firmes. Protegi meu frágil corpo cinquentenário encostando-me em uma parede, congelado enquanto a aglomeração fluía. É a linda juventude correndo atrás de seus livros de fantasia, disse um colega escritor.
Minha filha, quatorze anos, chegou um tempo depois, tinha vários livros para comprar, especialmente alguns de “romantasia”, e eu, confesso, não havia escutado a palavra romantasia na vida. Vá aos seus livros, disse a ela, mas não corra pelos corredores, não atropele inocentes. No final do dia, coube a mim carregar as sacolas recheadas por pesadíssimas sagas sagazes até o carro.
Gosto de pensar, e ver, que existe uma multidão jovem que gasta parte de seu tempo lendo. Fantasias, romantasias, quem sabe para, posteriormente, passar aos romances mais adultos, às poesias. Nenhuma vida é linear, mas toda existência com livros fica mais interessante. A literatura pode estar nos castelos, nos dragões, nos salões de magia. Assim como a poesia está em tudo, tanto nos amores como nos chinelos, com as bençãos de Manuel Bandeira.
Aqui em casa, fiz um trato com minha filha. Ela lê um livro indicado pelas amigas, pelas redes sociais, depois lê um indicado pelos pais. Assim, em nosso clube do livro particular, ela devorou a série do Trono de Vidro e Vamos Comprar um Poeta , novela genial do Afonso Cruz. Empolgou-se com Percy Jackson e chorou com O Menino do Pijama Listrado . Existem debates acalorados e imperdíveis durante nossos jantares.
Na volta da Bienal, todos os livros novos foram arrumados na estante, eles esperarão, porque quem está na mesa ao lado da cama da minha filha agora é a Aline Bei e seu O Peso do Pássaro Morto .
Pai, isso é poesia, certo? É, também, eu disse, e é prosa, na verdade é aquilo que você achar que deve ser, filha. O título é tão bonito e triste, pai. Tudo é bonito e triste aí dentro, você vai ver, cada vez que você lê um livro assim, uma porta é aberta em sua vida.
Minha filha fechou os olhos, suspirou, confessou: adoro os livros de fantasia, mas quando terminei O Menino do Pijama Listrado , fiquei em choque, porque aquilo aconteceu de verdade, coisas como aquela, crianças como aquelas. Não era um mundo de ficção.
Nenhum mundo é de ficção. Nem este em que multidões gritam e erguem os braços para garantir seus novos exemplares da saga da vez. Nem aquele em que leitores mais adultos se acotovelam para ouvir as experiências de Aline Bei ou Afonso Cruz ou Socorro Acioli ou Valter Hugo Mãe ou Mariana Salomão Carrara ou Emmanuel Carrère ou Conceição Evaristo.
Ou, ou, ou, ou: está errado, a literatura nunca é conjunção alternativa. E, e, e, e: quem lê ganha um mundo em aditivo, empilha chances de se tornar mais humano. Toda vida deveria ser prosa e poesia, como os livros da Aline Bei. Prosa e poesia, como os livros do Afonso Cruz. Saga, romantasia. A nenhuma vida deveriam faltar todas as letras.
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Ricardo Pieralini
Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.
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Fonte: Carta Capital