Petrobras em disputa: entre o retorno aos acionistas e o interesse público

0

Por Rodrigo MartinsCarta Capital

Menu

Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis

Reorientação da estatal desde 2023 elevou investimentos e diversificou negócios, sem abandonar a busca por resultados financeiros

Por Francismar Ferreira, Mahatma Ramos dos Santos e Ticiana de Oliveira Alvares*

A governança corporativa da Petrobras passou por uma profunda transformação na última década, que alterou as relações de poder entre o Estado e os acionistas minoritários em relação aos objetivos estratégicos da companhia. Tal processo evidenciou duas posições antagônicas, que balizam a disputa sobre a empresa ainda hoje.  De um lado, uma visão financista e guiada por interesses de curto prazo, com metas de  geração de valor, rentabilidade e maximização do retorno aos acionistas. De outro, uma perspectiva  orientada pelo interesse público, também comprometida com resultados positivos e remuneração de acionistas, mas que os combina com investimentos operacionais estratégicos para segurança energética e desenvolvimento nacional soberano.

A Lei das Estatais (Lei 13.306/2016) estabeleceu novas regras de governança para as empresas públicas, incluindo critérios para indicação de administradores e estruturas de integridade e controle. Na prática, sob a nova gestão instalada após o golpe de 2016, a nova legislação contribuiu para reduzir a capacidade de orientação estratégica do Estado e ampliar a influência dos acionistas privados, subordinando progressivamente a função pública da Petrobras à lógica de valorização financeira.

A partir de então, sua gestão reorientou sua estratégia, abandonando o objetivo de transformar a Petrobras em empresa integrada de energia no longo prazo e substituindo-o por uma estratégia de curto prazo ancorada na geração e distribuição de valor no curto prazo, materializada em seus  planos de negócios.

O impacto da redução dos investimentos

O custo dessa reorientação foi elevado. Entre 2013 e 2022, os investimentos da estatal caíram 79,5%, de US$ 48 bilhões para US$ 9,8 bilhões . Quadro agravado pelos efeitos da operação Lava Jato, que levou, entre outras coisas, à desestruturação da cadeia nacional de fornecedores e a perda de milhões de empregos no país.

Entre 2016 e 2023, mais de 260 ativos foram vendidos, resultando na desnacionalização, fragilização operacional e desmonte da integração vertical da companhia. Somou-se a isso uma política de preços baseada na paridade de importação que elevou a inflação e penalizou os consumidores.

Durante o governo Bolsonaro, a lógica financeira prevaleceu e a distribuição de dividendos foi 1,87 vezes superior aos investimentos realizados. No período, a Petrobras distribuiu R$ 332,5 bilhões em dividendos, 4,8 vezes o montante pago no acumulado dos 12 anos anteriores. Em 2022, foram R$ 209,5 bilhões, valor superior ao lucro líquido anual. 

Novos rumos no governo Lula

Desde 2023, há uma tentativa de reequilíbrio, mas a estatal segue em disputa. O governo Lula estancou as privatizações, ampliou investimentos, e diversificou o portfólio estratégico da companhia, retornando ao setor de fertilizantes e incorporando a transição energética. 

Entre 2023 e 2025, os investimentos saltaram de R$ 60,32 bilhões para R$ 108,71 bilhões . No entanto, ainda permanece como norte da companhia a disciplina de capital. Em 2025, a companhia distribuiu R$41,23 bilhões em dividendos, equivalente a 37,44% do lucro líquido.

Em um cenário de incertezas geopolíticas e disputas internas entre interesses de curto e longo prazo na gestão estratégica da Petrobras, o Ineep e a FUP defendem a reforma de sua governança corporativa e Estatuto Social, além da ampliação do controle acionário estatal sob a companhia, de forma recolocar o interesse público no centro de sua  gestão.A governança da estatal deve assegurar que a riqueza gerada por suas atividades seja convertida em investimentos estratégicos, inovação, segurança energética e na promoção de desenvolvimento nacional soberano e sustentável. 

*Ticiana Alvares Oliveira é mestre e doutora em Economia Política Internacional pela UFRJ e diretora técnica do Ineep. Mahatma Ramos dos Santos é mestre e doutor em em Sociologia pela UFRJ, diretor técnico do Ineep e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável (CDESS). Francismar Ferreira é doutor em Geografia pela UFES, coordenador de pesquisas do Ineep e pesquisador do Instituto na área de Exploração e Produção.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Ineep

Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.


Desenvolvido por OKN Technology Agency

Fonte: Carta Capital

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *