Quando fugir não funciona, este lagarto aumenta a pressão do próprio corpo até fazer os olhos sangrarem
Por Gabriel Correa — Catraca Livre
Um coiote encontra um réptil pequeno, coberto de espinhos, e aparentemente fácil de alcançar. O ataque, porém, pode terminar com sangue no focinho do caçador antes que ele consiga engolir a presa. A cena parece um ferimento acidental, mas faz parte de um repertório de defesa dos lagartos de chifres. Entender esse mecanismo exige olhar também para as outras tentativas de proteção, porque o recurso não funciona da mesma maneira contra todo predador.
Que lagarto consegue lançar sangue pela região dos olhos?
Um exemplo bem documentado é o lagarto de chifres do Texas, Phrynosoma cornutum, encontrado em áreas da América do Norte. O corpo achatado, a coloração próxima à do chão e as projeções na cabeça ajudam a reconhecer o animal. Também não se trata de uma característica que possa ser atribuída indiscriminadamente a qualquer lagarto com aparência espinhosa.
O departamento de vida silvestre do Texas descreve a importância das formigas na alimentação dessa espécie e os problemas que acompanham a perda de habitat. Ele continua dependente de locais adequados para se abrigar, regular a temperatura e encontrar alimento.
O que acontece antes de o sangue aparecer?
O animal dispõe de outras respostas, como permanecer imóvel e aproveitar a camuflagem, fugir ou assumir uma postura defensiva. O Animal Diversity Web, ligado à Universidade de Michigan, descreve diferenças conforme o tipo de ameaça. Contra um caçador que persegue, ficar parado pode ajudar em certas circunstâncias; diante de outro que ataca de surpresa, escapar pode ser mais vantajoso. Não existe uma sequência rígida obrigatória para todo encontro.
As projeções do corpo dificultam a abordagem e podem tornar a presa menos simples de engolir. Algumas respostas alteram ainda sua silhueta, aumentando a dificuldade para o agressor. O sangue entra nesse conjunto, não como primeira reação inevitável ao perceber qualquer movimento. Para acompanhar uma cena de defesa sem confundir seus componentes, vale distinguir quatro elementos:
- A camuflagem dificulta localizar o animal antes do ataque.
- A resposta de fuga ou imobilidade pode variar conforme o predador.
- As projeções corporais acrescentam obstáculos à captura e à ingestão.
- O jato de sangue depende de um mecanismo vascular e não aparece em todo encontro.
Como a pressão faz o sangue sair dos olhos?
A pressão aumenta em uma região vascular ao redor dos olhos, permitindo que o sangue encontre passagem e seja expelido. A descrição reunida pela Universidade de Michigan associa o fenômeno ao aumento de pressão no seio orbital, uma estrutura de circulação nessa área. Portanto, o jato não é uma lágrima vermelha produzida por uma glândula. É sangue do próprio animal, mobilizado por um mecanismo anatômico específico.
não é necessário imaginar o globo ocular inteiro se rompendo. O processo envolve vasos e estruturas ao redor do olho. A aparência impressionante do jato não informa, sozinha, como o mecanismo se desenvolve nem permite comparar sua intensidade entre todas as espécies.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube ANIMAL TV, que fala sobre a defesa de lagartos que conseguem expelir sangue pela região dos olhos:
Por que essa defesa é especialmente interessante contra cães e coiotes?
Porque a reação de diferentes predadores pode mudar o resultado. A literatura sobre lagartos de chifres descreve o jato como uma defesa importante diante de canídeos, grupo que inclui cães e coiotes. O contato com o sangue pode provocar rejeição e interromper a tentativa de captura. Isso ajuda a explicar por que uma resposta aparentemente arriscada para a presa pode abrir a oportunidade de escapar do ataque.
Um vídeo de um coiote recuando, contudo, não demonstra que todas as aves ou serpentes teriam a mesma reação. Predadores localizam, capturam e processam alimento de formas distintas. Também não significa que o lagarto queira ferir alguém ou escolher conscientemente um truque teatral. Estamos observando uma resposta biológica em determinado contexto. A eficácia precisa ser entendida pela relação entre aquela presa, o agressor e as condições do encontro.
O que esse recurso revela sobre a sobrevivência do animal?
Revela que uma defesa pode combinar aparência, comportamento e funcionamento do corpo. O lagarto primeiro precisa lidar com ser encontrado; depois, com ser alcançado e engolido. Cada proteção atua em uma parte desse risco, sem tornar as demais dispensáveis. Outros mecanismos de defesa dos animais também mostram que sobreviver nem sempre significa vencer uma disputa de força. Muitas vezes, basta fazer o ataque deixar de ser vantajoso naquele momento.
Por isso, a curiosidade deve terminar na observação, não numa tentativa de provocar o fenômeno. Perseguir ou apertar um animal para obter uma demonstração cria estresse e pode machucá-lo. O encontro com o predador já impõe um custo real ao lagarto. Seu recurso mais surpreendente merece ser compreendido junto do habitat e dos limites, não transformado em uma apresentação que o bicho precisa repetir para uma câmera.
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Fonte: Catraca Livre