Vozes femininas — Eurídice Natal e Silva: uma profissão de fé e de sororidade

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Por RedaçãoJornal Opção

Vozes femininas — Eurídice Natal e Silva: uma profissão de fé e de sororidade

Elizabeth Abreu Caldeira Brito

Eurídice Natal e Silva nasceu na Cidade de Goiás (GO), em 23 de novembro de 1883. Filha de Ângela Bulhões Natal e Joaquim Xavier Guimarães Natal. Aprendeu a ler e escrever em família, com seu pai. Aos 19 anos, incentivada por ele fundou, em 12 de outubro de1904, juntamente com intelectuais da época, a primeira Academia de Letras de Goiás. Ela foi aclamada sua presidente.

A aludida fundação teve a participação de nomes de destaque da literatura, da política e da cultura goianas: o anfitrião, Guimarães Natal, Joaquim Bonifácio, Augusto Rios, Godofredo de Bulhões, Leopoldo de Souza e Acrísio Gama e Silva. Os nomes foram mencionados em reportagem do semanário “O Goyaz”, de 13 de agosto de 1904, citado pela escritora Rosarita Fleury em seu discurso de posse na Academia Goiana de Letras, em que homenageou sua patrona, Eurídice Natal.

Elizabeth Abreu Caldeira Brito foto da capa de Dicionário Crítico das Vozes Femininas da Literatura em Goiás ok2

Os nomes de Marcelo Silva, Luís do Couto e Francisco Ferreira dos Santos Azevedo constam da pesquisa apresentada pelo historiador Bento Fleury em ensaio publicado no jornal “Diário da Manhã” de 22 de novembro de 2017.

Bento Fleury diz que a literatura de Eurídice Natal é centrada nas impressões pessoais e na observação da vida cotidiana de seu tempo. Nada de digressões psicológicas ou atavios de perquirição intimista, e sim textos em que narra de forma simples o cotidiano de seu tempo e suas impressões de mundo

Sobre a Academia, anos mais tarde, seu filho, Colemar Natal e Silva, um dos grandes incentivadores do desenvolvimento educacional, cultural e intelectual goiano, registrou: “O certo é que Eurídice cultivou sempre as letras. Basta reler, hoje, o discurso de posse da presidência da Academia de Letras, a 1ª que Goiás possuiu, ainda nos idos de 1904, na antiga Cidade de Goiás; foi uma peça de profissão de fé intelectualista”.

Eurídice foi membro fundadora da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag). É a patrona da Cadeira 11. Casou-se aos 22 anos com Marcelo Francisco da Silva, deputado federal por várias legislaturas. Faleceu em 3 de agosto de 1970, em Goiânia.

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O jornal “Diário da Manhã”, de 22 de novembro de 2017, apresentou o ensaio “A narrativa feminina e telúrica em Goiás”, no qual o crítico literário Bento Fleury discorre sobre o surgimento no século XIX das primeiras publicações femininas em Goiás “pelo arrojo e destemor de um pugilo de mulheres, dotadas de coragem e perseverança, no pensamento de expandir o conhecimento e indagar a posição no mundo muito limitado e hostil ao florescer do talento do chamado ‘sexo frágil’”.

Rosarita Fleury enfatiza que a escritora acompanhou, de perto, a vida política de seu pai, trazendo a público em Traços biográficos de Guimarães Natal, não só passagens curiosas da intimidade do lar, mas especialmente fatos de sua vida como homem público, determinantes, nascidos de um caráter íntegro

Bento Fleury, professor-doutor, no seu rol de estudos, apresenta a obra “Notas de uma Viagem ao Araguaia”, de Eurídice Natal, publicado em 1904, juntamente com o conto “Elcide e republicado em 1939. Assegura que sua “linguagem simples aproximando-se do coloquial […]”, como em um “diário de viagem, discorre sobre os acontecimentos, as pessoas, os fatos triviais”. Atenta para apresentar “uma amostragem completa do cenário e dos seus tipos”. Acrescenta que “sua literatura centrada nas impressões pessoais e na observação da vida cotidiana de seu tempo. Nada de digressões psicológicas ou atavios de perquirição intimista, e sim textos em que narra de forma simples o cotidiano de seu tempo e suas impressões de mundo”.

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Eurídice Natal e Silva | Foto: Acervo da família

Em seu discurso de posse, na Academia Goiana de Letras (AGL), em 30 de novembro de 1977, a escritora Rosarita Fleury homenageia a patrona de sua Cadeira nº 31, Eurídice Natal (também grafado Eurydice). Enfatiza que a escritora “acompanhou, de perto, a vida política de seu pai, trazendo a público em “Traços biográficos de Guimarães Natal”, não só passagens curiosas da intimidade do lar, mas especialmente fatos de sua vida como homem público, determinantes, nascidos de um caráter íntegro…”.

Rosarita destaca que Eurídice Natal, ao iniciar o seu discurso de instalação da entidade e de posse da diretoria, no dia 12 de outubro de 1904 em “solenidade nobre” na “sala austera” do Palácio Conde dos Arcos, na Cidade de Goiás, a presidente empossada, cumprimenta todos: “Senhoras, senhoritas, senhores, prezados confrades…”.

Assim, no ato de sororidade precoce, desvalorização das mulheres presentes e de revelação da feminista em embrião que trazia em si, e que começava a desabrochar. Ao fazer o chamamento das pessoas para quem iria discursar, utilizando de uma sororidade precursora, mencionou, em primeiro lugar, as senhoras e senhoritas, quando até a presente data, ao se fazer um discurso, são sempre mencionadas em primeiro lugar, as pessoas do sexo masculino. Ela fez o contrário, dando destaque maior às mulheres (Fleury, 1977).

Publicações de Eurídice Natal e Silva

1

“Traços biográficos de Guimarães Natal”. Cidade de Goiás: Popular, 1934;

2

“Um idílio na savana” (tradução do romance de Herick Siewicz). 1937;

3

“Notas de viagem ao Araguaia”. Goiânia: Popular, 1939;

4

“Coletânea”. Goiânia, 1975 — Compilado que reúne registros de sua produção literária e musical organizada por sua filha Eurydice Silva Juliano.

Elizabeth Abreu Caldeira Brito, psicóloga e escritora, é mestra em Letras e Críticas Literárias. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), ex-presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag) e filiada à União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. É colaboradora do Jornal Opção.

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Fonte: Jornal Opção

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