O par de botinas vendido pelo turco Salim a Zé Custódio

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Por RedaçãoJornal Opção

O par de botinas vendido pelo turco Salim a Zé Custódio

Fernando Cupertino

Naqueles tempos em que nas vendas de secos e molhados em cidade pequena se vendia de tudo — de querosene a rapadura, de fumo de rolo a botina —, o turco Salim mantinha seu comércio na rua principal de uma pequena cidade do interior de Goiás.

Turco, diga-se logo, era como o povo chamava qualquer árabe que aparecesse por aquelas bandas. Salim era libanês, mas já tinha desistido de explicar a diferença.

Numa tarde de calor de rachar mamona, entrou na venda o Zé Custódio, sujeito conhecido por pechinchar até em velório. Por isso mesmo ganhara o apelido de Zé Custoso.

— Boa tarde, seu Salim.

— Boa tarde, Zé Custódio! Que você querer hoje?

— Tô precisano duma botina.

Salim abriu um sorriso.

— Botina? Tenho um maravilha! Couro legítimo! Muito bonita! Muito forte! Você vai morrer com ela no pé!

Zé Custódio logo desconfiou.

— Uai, num quero morrê agora não. Quero uma que dure bastante.

— É isso! Dura muito! Botina muito excelente. Olha aqui.

Salim colocou sobre o balcão um par de botinas marrons, lustrosas como tonsura em cabeça de padre.

Zé Custódio pegou uma, apertou, virou, bateu com o dedo na sola.

— Quanto?

— Para você, amigo antigo, preço especial. Cem mil-réis.

Zé Custódio arregalou os olhos.

Salim bateu a mão no balcão. — Não tem fiado! Zé Custódio, porém, não desistiu. — Façamo um negócio. — Que negócio? — Eu levo a botina hoje. No fim do mês eu pago. — Qual mês? — Qualquer um. — Não! — Então no fim do ano

— Cem mil-réis? Tá achano que eu sou dono de fazenda?

— Não, não. Você é amigo. Preço de amigo.

— E se eu fosse inimigo?

Salim pensou um instante.

— Duzentos mil-réis.

— Então vamo continuá amigo.

Salim riu.

— Você gosta de brincar, Zé Custódio. Quanto você quer pagar?

— Cinquenta.

— Cinquenta? Não dá! Só o couro custa isso!

— Então vende o couro e me dá a botina de presente.

Salim coçou a cabeça.

— Você é muito sabido.

— Num é sabido, não. É que eu sou pobre.

Salim pegou a botina novamente.

— Olha qualidade! Costura forte. Sola boa. Essa botina não entra água.

Zé Custódio olhou desconfiado.

— E se eu entrá nela?

— Entra também! Muito espaço!

— Tô vendo que o senhor tá vendendo até espaço agora.

— Você experimentar. Calça.

Zé Custódio tirou o sapato velho, colocou a botina e deu três passos pela venda.

— Apertou?

— Apertô nada.

— Então tá boa!

— Tá boa demais. Tô sentindo até vontade de comprá.

— Então compra!

— Só que tem um problema.

E o dinheiro? Zé arregalou os olhos, como se tivesse acabado de ouvir uma grande ofensa. — Uai, seu Salim! O senhor quer desfazer o negócio agora? — Desfazer? Eu quer receber! — Mas o senhor disse que era preço final

Qual?

— Eu num tenho dinheiro.

Salim ficou sério.

— Ah, Zé Custódio… como eu pode fazer negócio assim?

— Mas tenho uma proposta.

— Qual?

— O senhor me vende fiado.

— Fiado? Não!

— Por quê?

— Porque você nunca paga!

— Isso é mentira.

— Quando você pagou última vez?

Zé Custódio pensou.

— Não lembro.

— Eu lembra! Foi na época que ainda tinha imperador!

— Pois então tá vendo? Já faz tempo demais. O senhor tá precisano atualizá a contabilidade.

Salim bateu a mão no balcão.

— Não tem fiado!

Zé Custódio, porém, não desistiu.

— Façamo um negócio.

— Que negócio?

— Eu levo a botina hoje. No fim do mês eu pago.

— Qual mês?

— Qualquer um.

— Não!

— Então no fim do ano.

— Não!

— No próximo ano.

— Também não!

— Então o senhor me diz quando é que quer recebê.

Salim olhou para ele.

— Nunca!

Zé Custódio sorriu.

— Pronto! Agora chegamo num acordo.

Salim quase caiu sentado.

— Você é pior que advogado!

— Advogado cobra consulta. Eu só tô conversano.

O comerciante respirou fundo e resolveu mudar de estratégia.

— Zé Custódio, eu vai fazer preço bom. Setenta mil-réis. Último preço.

— Sessenta.

— Não!

— Sessenta e cinco.

— Não!

— Sessenta e oito.

— Não!

— Sessenta e nove?

Salim hesitou.

— Está bem. Sessenta e nove.

Zé Custódio sorriu, satisfeito.

— Fechado.

Salim embrulhou as botinas.

— Agora paga.

Zé Custódio ficou parado.

— Pagar o quê?

— As botinas! Sessenta e nove mil-réis!

— Mas nós num combinamo sessenta e nove?

— Sim!

— Então tá combinado.

— E o dinheiro?

Zé Custódio arregalou os olhos, como se tivesse acabado de ouvir uma grande ofensa.

— Uai, seu Salim! O senhor quer desfazer o negócio agora?

— Desfazer? Eu quer receber!

— Mas o senhor disse que era preço final.

— E é!

— Então pronto. O preço final é sessenta e nove.

— Eu sei! Sessenta e nove mil-réis!

— Isso mesmo.

— Então me dê o dinheiro!

— Eu?!

— Uai! O senhor é que tá vendendo a botina. Eu tô só comprando.

Salim bateu a mão na testa.

— Zé Custódio! Você tem que pagar!

— Ahhh… agora eu entendi!

— Finalmente!

Zé Custódio meteu a mão no bolso, remexeu, remexeu e tirou um lenço, dois botões, um pedaço de fumo e uma moeda de tostão.

— Só tenho isso.

Salim ficou vermelho.

— Você não tem dinheiro?

— Dinheiro, não.

— Então por que veio comprar botina?

Zé Custódio calçou novamente o par, deu dois passos e abriu um sorriso.

— Porque eu tava precisano mesmo.

— E como você vai pagar?

O matuto apontou para os pés.

— O senhor falou que a botina era boa e que durava muito.

— Sim!

— Então o senhor pode esperá. Quando eu tivé dinheiro, eu pago.

— Quando?

Zé Custódio abriu a porta da venda.

— Quando a botina acabar.

— E quando vai acabar?

O matuto olhou para as botinas novas, deu uma risadinha e respondeu:

— Pelo jeito que o senhor falou bem dela, acho que vai durar bastante.

E saiu andando.

Salim correu até a porta:

— Zé Custódio, volta aqui! Você não pagou!

O matuto, já no meio da rua, virou-se e gritou:

— Uai, seu Salim! O senhor num disse que era negócio bom? Agora aguenta!

Salim ficou parado na porta, olhando o freguês desaparecer.

Depois voltou para dentro, pegou o livro-caixa e escreveu:

“Zé Custódio— 69 mil-réis — venda fiada.”

Pensou um pouco, riscou e escreveu embaixo:

“Mercadoria perdida.”

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

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Fonte: Jornal Opção

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