Separatistas no Mali recorrem à Turquia para solução da crise política
Por Leonardo Sobreira — Brasil 247
247 – A Frente de Libertação de Azawad (FLA), grupo separatista tuaregue do Mali, revelou manter contatos diretos com o “Africa Corps”, um destacamento militar da Rússia, e manifestou o desejo de estabelecer um diálogo com a Turquia para buscar uma solução política para a crise no país. Em entrevista ao Middle East Eye, o porta-voz da FLA, Mohamed Elmaouloud Ramadane, destacou que o grupo almeja a interlocução com Ancara devido à crescente influência turca no Mali, que a transformou em um ator central na região.
Atualmente, a FLA atua em uma ofensiva contra o governo malinês coordenada com o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), uma aliança de grupos armados alinhada ao grupo terrorista Al-Qaeda. Juntas, essas facções têm tomado cidades e bases militares, além de imporem um bloqueio a Bamaco e terem matado, em abril, o ministro da Defesa, Sadio Camara.
Apesar das operações conjuntas, os objetivos divergem: enquanto o JNIM pretende derrubar o governo central, a FLA luta pela criação de um Estado tuaregue autônomo no nordeste do Mali.
O atual cenário no Mali reflete uma drástica transição nas alianças internacionais do governo de Assimi Goïta, que substituiu as antigas alianças com países ocidentais por uma estreita parceria com Moscou. A ofensiva liderada pela FLA e pelo JNIM em abril expôs as vulnerabilidades dessa nova presença russa no norte do país, resultando na retirada dos integrantes do Africa Corps da estratégica cidade de Kidal antes que a FLA a tomasse.
Diante desse quadro bélico, Ramadane advertiu que a região nordeste do Mali, reivindicada pelos separatistas para a fundação do Estado de Azawad, não deve se converter em um palco de guerra por procuração entre potências estrangeiras.
O porta-voz garantiu que a FLA não abdicará de buscar o diálogo com a Turquia, mesmo ciente de que Ancara aprofundou seus laços diplomáticos, econômicos e militares com Bamaco na última década. Ramadane apontou as consequências letais desse alinhamento:
“Observamos que a Turquia desenvolveu consideravelmente suas relações com a junta criminosa em Bamaco, particularmente na venda de drones”, alegando que as aeronaves têm provocado mortes de civis em Azawad.
No entanto, ele estabeleceu uma distinção clara entre a atual relação bilateral turca com Bamaco e o papel pacificador que o país pode desempenhar em um acordo político.
“Não pedimos à Turquia que rompa suas relações com a junta militar. Pedimos que ela observe a realidade do Mali em toda a sua complexidade e que não considere a questão de Azawad apenas pelo prisma das autoridades de Bamaco”, concluiu.
Ramadane afirmou que os apelos da FLA a Erdogan não representam uma tentativa de buscar outro patrocinador estrangeiro.
“Não pedimos à Turquia que tome partido militarmente ao lado da FLA. Pedimos, antes de tudo, que escute e compreenda”, afirmou.
Fonte: Brasil 247