Colonialismo energético verde: o vento leva a riqueza e deixa a desigualdade

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Por Marcos PędłowskiBlog do Pedlowski

A reportagem publicada neste sábado (19/09) pelo The Guardian, assinada por Alice Lima e Marilia Gurgel , oferece uma contribuição importante para um debate que o Brasil precisa fazer com urgência: não basta substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis se a transição energética reproduzir velhas formas de apropriação dos territórios e de concentração dos benefícios econômicos.

O ponto de partida é aparentemente uma história de enorme sucesso. O Brasil possui cerca de 35 GW de capacidade eólica instalada e transformou principalmente o Nordeste em uma das grandes fronteiras mundiais dessa fonte energética. Segundo o Balanço Energético Nacional 2026, a geração eólica chegou a 116,5 TWh em 2025, enquanto a potência instalada centralizada alcançou 34.689 MW. Mas esses números escondem uma questão fundamental: quem efetivamente está se beneficiando desse sucesso?

Quando o vento sopra, mas a riqueza vai embora

Em Serra do Mel, no Rio Grande do Norte, o Guardian encontrou agricultores convivendo com restrições ao uso de suas propriedades, contratos de longa duração, perda de áreas produtivas e conflitos sobre os valores pagos pelas empresas. Um dos casos relatados é particularmente ilustrativo: embora o contrato considere aproximadamente um hectare ocupado pela infraestrutura, o agricultor Antonio de Souza afirma que, na prática, quatro hectares de sua propriedade de 50 hectares deixaram de ser produtivos.

A situação revela algo maior do que um conflito contratual. Existe uma geografia profundamente desigual da transição energética, na qual o território fornece terra e vento e recebe torres, linhas de transmissão, estradas e restrições de uso, enquanto parte significativa da eletricidade e do valor econômico produzido é transferida para outros lugares. É uma lógica bastante conhecida em outras atividades extrativas brasileiras e que, guardadas as diferenças evidentes, reaparece na expansão das energias renováveis: o recurso está territorialmente localizado, grandes empresas controlam sua transformação econômica e as comunidades que vivem nesses territórios nem sempre participam proporcionalmente da riqueza produzida.

Energia renovável não significa impacto zero

Há outro problema que frequentemente desaparece sob a expressão confortável de “energia limpa”. O próprio Ministério do Meio Ambiente reconhece que a expansão das fontes eólica e solar vem se tornando um vetor relevante de transformação do uso da terra na Caatinga, inclusive com incompatibilidades entre esses empreendimentos e usos preexistentes, como produção agrícola e manejo florestal.

Isso não significa colocar a energia eólica no mesmo patamar ambiental dos combustíveis fósseis. Significa abandonar a ideia de que uma tecnologia, por emitir pouco carbono durante a geração de eletricidade, esteja automaticamente livre de impactos sociais, ambientais e territoriais.

Essa distinção será ainda mais importante agora que o Brasil começa a avançar sobre a geração eólica offshore. A Lei 15.097/2025 criou o marco para aproveitamento energético no mar, enquanto os processos de licenciamento terão de considerar questões relacionadas à pesca artesanal, navegação, turismo, fauna marinha e ambientes recifais. O caso de Areia Branca, abordado pelo Guardian, merece por isso atenção especial, pois poderá funcionar não apenas como experiência tecnológica, mas como precedente para a maneira pela qual o Brasil tratará comunidades pesqueiras diante da expansão dessa nova fronteira energética marítima.

Produzir mais energia não resolve tudo

Existe ainda uma contradição adicional. Enquanto novos projetos continuam sendo planejados, o sistema elétrico brasileiro enfrenta dificuldades crescentes para absorver toda a geração renovável disponível. O chamado curtailment, que corresponde à redução compulsória da geração, tornou-se um problema estrutural e coloca em questão a ideia de que basta continuar instalando parques eólicos e solares para avançar na transição energética.

Se a capacidade de geração crescer mais rapidamente do que a infraestrutura de transmissão, armazenamento e consumo capaz de absorvê-la, novas usinas poderão simplesmente disputar espaço no sistema com empreendimentos renováveis já existentes. Nesse cenário, torna-se ainda mais necessária uma pergunta básica sobre para que, para quem e sob quais condições territoriais continuaremos expandindo essa infraestrutura.

Uma transição energética precisa ser também social

A reportagem do Guardian tem o mérito de desmontar uma simplificação perigosa. O Brasil precisa ampliar o uso de fontes renováveis e reduzir progressivamente sua dependência dos combustíveis fósseis, mas trocar petróleo, carvão e gás por vento e sol não resolverá automaticamente os conflitos socioambientais associados ao modelo brasileiro de desenvolvimento.

Se comunidades rurais cedem seus territórios por décadas, pescadores perdem acesso às áreas onde trabalham e a eletricidade produzida segue para grandes centros consumidores enquanto as localidades produtoras recebem apenas uma parcela dos benefícios econômicos, teremos mudado a fonte energética sem necessariamente modificar a estrutura de apropriação da riqueza.

A experiência relatada no Nordeste mostra, portanto, que uma verdadeira transição energética não pode ser medida apenas em gigawatts instalados ou toneladas de CO₂ evitadas. Ela precisa ser avaliada também pela forma como distribui renda, poder, custos e benefícios entre aqueles que cedem seus territórios para tornar essa transição possível. Afinal, o vento pode ser renovável, mas isso não significa que o modelo de exploração deva reproduzir velhas desigualdades.

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


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Fonte: Blog do Pedlowski

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