Ex-ministro vê disputa entre democracia e autoritarismo

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Por Hiroshi BogéaOpinião em Pauta

Ao analisar a última pesquisa Datafolha, que aponta que a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) não alterou a avaliação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-ministro Tarso Genro fez uma leitura mais ampla do cenário eleitoral. Para ele, o principal embate da disputa presidencial não está na comparação entre os governos Lula e Jair Bolsonaro, mas na escolha entre democracia e autoritarismo.

Segundo Genro, há uma “guerra” política em curso entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que deverá disputar a Presidência da República.

“A guerra que se trava no nosso processo eleitoral, neste momento, é entre quem defende a democracia liberal e o republicanismo, de um lado, e quem admite o fascismo e a ditadura”, afirmou o ex-governador do Rio Grande do Sul.

Na avaliação de Genro, o que estará em jogo nas eleições não será propriamente uma comparação entre as administrações Lula e Bolsonaro. Ele considera que essa estratégia teria sido adotada de forma equivocada pela coordenação da campanha governista e, possivelmente, pelo próprio presidente.

“No curso desse ambiente de ‘guerra híbrida’ — patrocinada por aquele protecionismo dos países ricos — não é a oposição entre modelos econômicos e a comparação qualitativa entre governos que desloca votos, ‘para lá ou para cá’”, escreveu.

Para o ex-ministro, as escolhas eleitorais são fortemente influenciadas pelas preocupações imediatas da população.

“Em processos eleitorais, a História é o cotidiano em estado puro. Tudo se escoa no ralo da memória pela fibrilação do presente. E nesse cotidiano as pessoas querem saber o que vai ser do seu futuro imediato e se a democracia que aí está pode lhes indicar um caminho de paz, justiça, trabalho, segurança e empreendedorismo para viverem em comunidade”, afirmou.

Genro argumenta ainda que, diante da percepção de insegurança e de incerteza, parte da população pode se aproximar de propostas autoritárias que prometam respostas rápidas para problemas complexos.

“Se a democracia não oferece uma perspectiva segura dentro desse contexto, uma boa parte do povo — das classes médias para baixo — adere tranquilamente a um regime autoritário que lhes promete fazer tudo em poucos dias: segurança pública, matar bandidos; dívida pública, cortar gastos sociais; relações internacionais, aceitar o protetorado norte-americano; corrupção, condenar todo mundo, mesmo que sem respeitar as formas legais”, escreveu.

Comparação com a ascensão do nazismo

Ao estabelecer um paralelo histórico com a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha, Genro afirma que os próximos dias serão decisivos para a definição dos rumos da disputa eleitoral.

Na avaliação do ex-governador, a partir da próxima segunda-feira (21), quando faltarem 15 dias para a eleição, o debate deverá se concentrar menos em quem será o próximo presidente e mais na possibilidade de a disputa ser encerrada ainda no primeiro turno.

Genro também citou a experiência do nazismo para sustentar seu argumento sobre a força política das respostas imediatistas.

“No nazismo, todo esse imediatismo foi concentrado numa só tarefa estatal: a eliminação ‘saneadora’ de um povo inteiro, o povo judeu”, afirmou.

Para ele, a campanha de Lula precisaria apresentar uma perspectiva de futuro capaz de se contrapor ao discurso da extrema direita.

“Falar sobre o futuro com grandeza épica, de quem já fez — como Lula — pode derrotar o ‘partido’ do crime organizado, de quem só fez o mal, como os Bolsonaros”, escreveu.

“Penso que este é o quadro político que vai se desenhar a partir da próxima segunda-feira e que vai decidir, na verdade, não quem vai ser o próximo presidente, mas se já o teremos no primeiro turno”, acrescentou.

Crise no STF

Sobre a repercussão da crise envolvendo o STF, Genro afirma que os números do Datafolha indicam que o episódio não produziu impacto negativo sobre Lula.

Na leitura do ex-ministro, o presidente enfrenta uma disputa em condições desfavoráveis diante de Flávio Bolsonaro, a quem Genro atribui o apoio de diferentes setores, incluindo parte da mídia, do mercado financeiro e a influência do governo de Donald Trump nas relações com o Brasil. Ele também menciona a atuação do ministro André Mendonça no caso Master.

“Os números da Folha demonstram, na verdade, que a ‘crise’ do STF não prejudicou nem ajudou a campanha de Lula. E, se não prejudicou, concretamente ‘ajudou’ quem defende a democracia e o republicanismo, porque a situação permaneceu a mesma num ambiente competitivo desigual”, avaliou.

Genro ampliou a análise para o cenário internacional e afirmou que a democracia representativa enfrenta dificuldades em diferentes países.

Segundo ele, esse processo estaria sendo pressionado por dois fenômenos: “o imediatismo manipulador do fascismo, que adota as técnicas do ‘golpe continuado’, ainda em curso no país”, e “a violência do trumpismo militarista, protecionista dos ricos, eficaz para intimidar não só aqui no Brasil, mas em todo o mundo”.

A análise do ex-ministro, portanto, coloca a eleição menos como uma disputa convencional entre governos e mais como um confronto político sobre os rumos institucionais do país, a preservação da democracia e a capacidade de oferecer respostas concretas às preocupações cotidianas da população. (Foto: Reprodução)

Por Opinião em Pauta com informações da FolhaPress

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Fonte: Opinião em Pauta

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