“Dominado aqui”: repasses do Master para filho de Nunes Marques coincidem com decisão do ministro
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Novas mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro associam o contato de Kevin Marques, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques, a conversas sobre pagamentos envolvendo a Consult Inteligência Tributária. A empresa recebeu R$ 6,632 milhões do Banco Master entre agosto de 2024 e julho de 2025 e, no mesmo período, transferiu R$ 282 mil ao advogado. As informações constam de reportagem assinada por Breno Pires publicada nesta sexta-feira (18) pela revista Piauí.
Os diálogos acrescentam novos elementos às relações financeiras já conhecidas entre o Master, a Consult e Kevin Marques e também mostram uma mensagem enviada após um julgamento no STF que interessava ao banco. Nunes Marques e seu filho negam irregularidades e rejeitam qualquer relação entre os pagamentos e decisões tomadas pelo ministro.
Em 8 de agosto de 2025, Luiz Rennó, advogado de confiança de Vorcaro e então assessor jurídico do Banco Master, escreveu ao banqueiro: “Dos pagamentos essenciais está faltando a consult”. Logo depois, Rennó compartilhou o cartão de contato de Kevin Marques e escreveu: “Aqui.” Vorcaro respondeu: “Oi”. Rennó prosseguiu: “Esse aí.” E acrescentou: “Único ‘meu’ que faltou.”
Cerca de meia hora depois, Rennó voltou à conversa para informar: “Foi pago.”
Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), segundo a Piauí, identificou 14 transferências do Banco Master para a Consult entre agosto de 2024 e julho de 2025, totalizando R$ 6,632 milhões. Nesse mesmo intervalo, a Consult transferiu R$ 282 mil a Kevin Marques em 11 operações.
Kevin afirma que os recursos recebidos da Consult correspondem à remuneração por “serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa”. Ele também sustenta que “não prestou serviço ao banco Master nem recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro” e que seu trabalho para a Consult “não tem qualquer relação com o Supremo Tribunal Federal”.
“500 mil mês”: mensagens associam contato de Kevin a pagamentos
Outro diálogo, datado de 4 de julho de 2025, contém uma referência a um pagamento mensal de R$ 500 mil.
Rennó perguntou a Vorcaro: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”. Segundo a Piauí, a mensagem marcava novamente o cartão de contato de Kevin Marques. Na sequência, Rennó escreveu “Kkkkkkkkk” e acrescentou: “Então esse aqui já era né”. Vorcaro respondeu: “Kkkk”.
As 14 transferências do Master à Consult correspondem a uma média de cerca de R$ 474 mil por operação, valor próximo dos R$ 500 mil citados no diálogo. Não há, porém, elementos que permitam afirmar que a referência nas mensagens corresponda às transferências identificadas pelo Coaf.
Voto de Nunes Marques decidiu julgamento por 3 a 2
Outro ponto destacado pela reportagem é a coincidência temporal entre as transferências do Banco Master para a Consult e a tramitação, na Segunda Turma do STF, de um processo envolvendo a Destilaria Alcídia.
A empresa cobrava da União reparação por prejuízos ocorridos na década de 1980. Segundo a Piauí, o resultado poderia produzir efeitos sobre uma carteira de precatórios do setor sucroalcooleiro registrada no balanço do Master, estimada pela Polícia Federal em mais de R$ 10 bilhões.
Nunes Marques inicialmente não participou do julgamento. Na sessão virtual realizada entre 9 e 20 de fevereiro de 2024, a certidão do Supremo registrou: “Impedido o ministro Nunes Marques.” O ministro havia participado de julgamento relacionado ao caso quando integrava o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
No mês seguinte, porém, Nunes Marques reviu sua posição. Em despacho, afirmou que seu impedimento havia sido registrado “por equívoco da assessoria do gabinete” e sustentou que o recurso analisado anteriormente pelo TRF-1 não interferia no julgamento que seria realizado pelo Supremo.
“Afasto o impedimento lançado no sistema, declarando-me habilitado a votar”, escreveu.
Naquele momento, o julgamento estava empatado por 2 a 2. Edson Fachin e Dias Toffoli haviam votado a favor da Destilaria Alcídia, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça divergiram.
Depois de o processo retornar à pauta, Nunes Marques pediu vista. Em 1º de outubro de 2024, devolveu o caso à Segunda Turma e apresentou seu voto.
“Acompanho o Ministro Relator, pedindo vênia aos que divergem de Sua Excelência”, afirmou.
O voto de Nunes Marques definiu o placar de 3 a 2 em favor da Alcídia.
Após resultado no STF, advogado escreveu “Dominado aqui”
As mensagens do celular de Vorcaro mostram que Rennó acompanhou o resultado do julgamento.
Às 16h58 daquele 1º de outubro, ele escreveu ao banqueiro: “Ganhamos alcidia”. Na sequência, enviou o placar: “3 (Fachin/Tofoli/Cassio) x 2 (Gilmar e André)”.
Vorcaro respondeu com um emoji de aprovação. Quatro minutos depois, Rennó voltou à conversa. Segundo a reportagem, ele marcou novamente o cartão de contato de Kevin Marques e escreveu: “Dominado aqui.”
A sequência das mensagens não demonstra, isoladamente, que tenha existido interferência indevida no julgamento ou contrapartida envolvendo o voto de Nunes Marques. O ministro rejeita essa associação.
Questionado pela Piauí, Nunes Marques afirmou, por meio de sua assessoria, que “compreendeu que tecnicamente não estava impedido, por se tratar de tese ampla” e que “votou diversas vezes no mesmo sentido enquanto estava no TRF-1”.
O ministro classificou como “ilação maldosa” relacionar o julgamento aos repasses envolvendo a Consult. Segundo sua versão, “o recurso julgado não era do Master e o serviço prestado pelo filho do ministro foi efetivo e devidamente declarado, tendo ele recebido 10 parcelas de cerca de R$ 28 mil cada”.
Sobre a comemoração registrada nas mensagens, a assessoria afirmou que “embora na mensagem eles estivessem comemorando o resultado, não se tratava de ação sobre o Master, era uma tese que se aplicaria a diversas empresas. O ministro nunca votou a favor do Banco Master, e o filho nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro.”
Relações empresariais da Consult
A Consult Inteligência Tributária foi criada em março de 2022 por Francisco Craveiro, contador apontado pela Piauí como amigo de longa data de Kassio Nunes Marques.
Em maio de 2024, depois de o ministro se declarar apto a participar do julgamento do caso Alcídia e antes de seu voto, o capital social da Consult passou de R$ 10 mil para R$ 500 mil. Em 30 de julho daquele ano, Craveiro tornou-se o único proprietário da companhia e, no mês seguinte, começaram as transferências identificadas pelo Coaf.
Ao longo de aproximadamente um ano, a Consult recebeu R$ 11,38 milhões da JBS e R$ 6,62 milhões do Banco Master, segundo a Piauí. O faturamento mensal declarado pela companhia era de R$ 25.555,56.
Em novembro de 2024, Kevin e Gabriel Campelo de Carvalho, filho de Francisco Craveiro, constituíram o Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPGT). Kevin ficou com 70% das cotas e Gabriel, com 30%. Craveiro foi escolhido como contador.
Viagem e jato aparecem em outras mensagens
A investigação da Polícia Federal encontrou ainda uma conversa de dezembro de 2024 entre Vorcaro e o empresário e agente de viagens Leo Serrano Giunchetti.
O agente enviou ao banqueiro uma captura de tela de uma mensagem atribuída a um usuário identificado pelo nome e número de Nunes Marques. No texto, era solicitado auxílio para organizar uma viagem de aproximadamente dez dias para cinco pessoas, com possibilidades de roteiro pela Europa ou pelo Peru.
Giunchetti perguntou a Vorcaro se deveria atender o pedido de forma independente ou faturar os custos para o banqueiro. Os trechos divulgados não permitem determinar se Vorcaro respondeu nem se a viagem ocorreu.
Nunes Marques afirmou que “apenas cotou preços e nunca utilizou os serviços da agência mencionada”. Giunchetti também declarou, por meio de seu advogado, que a viagem não se concretizou.
Outro episódio envolve um voo realizado em novembro de 2025. Em 12 de novembro, seis dias antes da prisão de Vorcaro, o banqueiro enviou à advogada Camilla Ewerton Ramos, que atuava para o Master em processos relacionados à recuperação de créditos do setor de álcool, o contato de uma profissional de aviação executiva.
Naquela noite, mensagens tratavam de um voo em um jato Legacy, sem identificar os passageiros. Dois dias depois, Nunes Marques e sua mulher embarcaram em um Legacy 650 de Brasília para Maceió, onde participaram da festa de aniversário de Camilla. A aeronave era operada pela Prime Aviation, empresa da qual Vorcaro havia sido sócio até setembro de 2025.
O gabinete do ministro confirmou que Camilla “ficou responsável pelo voo e detalhes da viagem”. A advogada afirmou ter contratado pessoalmente a aeronave.
CPI do Master aguarda despacho de Nunes Marques
Outro processo relacionado ao caso Master está sob a relatoria de Nunes Marques desde 26 de março.
Trata-se de um mandado de segurança que pede ao STF que obrigue o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a instalar uma CPI destinada a investigar o Banco Master. O requerimento reuniu 53 assinaturas de senadores.
Segundo a Piauí, até a publicação da reportagem, quase seis meses após assumir a relatoria, Nunes Marques ainda não havia proferido despacho no processo. Nesse intervalo, porém, votou pela manutenção da prisão preventiva de Vorcaro e de outros investigados.
Na terça-feira (15), durante sessão extraordinária do Supremo, Nunes Marques usou a palavra para reagir publicamente às mensagens que vinham sendo divulgadas.
“Em relação a mensagens que circulam de ontem, de hoje e que sempre vão rondar autoridade no Brasil, eu nunca julguei nenhum processo relacionado ao Master”, afirmou.
O ministro também defendeu a atuação do filho, disse possuir “absoluta isenção” nos processos que julgou e negou ter trocado mensagens diretamente com Vorcaro.
Fonte: Brasil 247