Contra ‘espuma’ do STF, Lula tem de falar do futuro e focar nos indecisos, diz José Genoino

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Por Leonardo MiazzoCarta Capital

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Para o ex-presidente do PT, é necessário ‘radicalizar a campanha’ e mostrar os escândalos de Flávio Bolsonaro — das rachadinhas ao Caso Master

A 16 dias da eleição, o presidente Lula (PT) precisa falar do futuro, expor os escândalos do senador Flávio Bolsonaro (PL) e focar na tentativa de convencer os eleitores indecisos, afirmou a CartaCapital o ex-presidente do PT e ex-deputado federal José Genoino.

Pesquisas de intenção de voto indicam uma disputa acirrada. De acordo com a mais recente sondagem do Datafolha, divulgada nesta quinta-feira 17, Lula lidera o primeiro turno com 39% das intenções de voto, contra 36% de Flávio. Na projeção de segundo turno, o candidato do PT marca 46%, ante 44% do postulante do PL — empate técnico.

“Temos de fazer aquilo que foi necessário ao longo da história do PT: o corpo a corpo. Não nego o papel das redes sociais, mas é importante fazer uma campanha de reta final” , avalia Genoino. “Um dia vale uma semana, uma semana vale um mês, e esse tempo que falta vale o infinito.”

Para o ex-presidente do PT, a crise no Supremo Tribunal Federal virou uma “espuma” na campanha presidencial, embora não seja de responsabilidade do governo Lula. Segundo Genoino, o caminho é reforçar o discurso de transparência e defender uma reforma no sistema de Justiça.

“A maneira de discutir essa questão é colocar que Lula, eleito para o quarto mandato, indicará ministros a partir dos 60 anos”, recomendou. Neste caso, os magistrados ficariam no STF por no máximo 15 anos, uma vez que têm de aposentar aos 75.

Leia os destaques da entrevista:

O impacto da crise no STF sobre a campanha presidencial

“Essa é parte de uma crise das instituições políticas que se arrasta desde o golpe de 2016. No caso do Judiciário vem de antes, com a criminalização da política no episódio do ‘mensalão’ e com a Lava Jato. O próprio sistema de Justiça não fez uma reforma democrática mais ampla e profunda, tirando as lições das contradições do modelo de Justiça em que se aplica para cada caso um tipo de decisão. É necessária uma reforma profunda.

“Essa crise do Judiciário, centrada no STF, revela parte da crise da relação dos poderes. Ela se relaciona na maneira como o Congresso Nacional se comporta com o STF e vice-versa, e também se relaciona com as tentativas de esvaziar a Presidência da República, particularmente com o orçamento secreto e com emendas impositivas.

“Isso vale para a mídia corporativa e para setores do Judiciário que esticaram a corda, na medida em que o alvo era criminalizar a esquerda, o PT e a política, para que as decisões políticas passassem por outro caminho — no caso, Banco Central independente, agências regulamentadoras…

“Este é um episódio de uma crise que se arrasta e chegou ao ápice na medida em que, a partir da ação do STF de punir golpistas diante dos episódios do 8 de Janeiro. Eles vêm para um revide, uma vingança contra a parte do Supremo que teve um papel importante na punição dos golpistas.

“Ao mesmo tempo, é claro que as relações do STF com interesses privados têm de ser profundamente reformuladas. A transparência é fundamental. Tudo tem de ser colocado às claras, e quem cometeu erros tem de ser punido. Não existe ninguém acima da lei.

“Essa crise não pode interferir no processo eleitoral. O processo eleitoral tem de discutir a pauta do futuro, dos direitos, do avanço da democracia, da soberania, do meio ambiente, da segurança pública, da defesa nacional, de melhorar a vida das pessoas.

“Essa crise é usada pela extrema-direita e pela mídia corporativa para tirar do centro a pauta da disputa eleitoral, faltando algumas semanas para a eleição. Portanto, temos de estar muito atentos a isso. Temos de responder como o Lula tem feito: tudo tem de ser transparente, tudo tem de ser divulgado, não se pode usar do expediente de vazamentos seletivos. Quem cometeu erros tem de ser punido.

“O PT foi vítima dessas instituições e nós temos de deixar clara a nossa proposta de reforma do sistema de Justiça, a começar pelo STF e pelos conselhos de controle público. E a maneira de discutir essa questão é colocar que o presidente Lula, eleito para o quarto mandato, indicará ministros a partir dos 60 anos. Se você indica a idade de acesso ao STF em 60 anos, ele sai com 15, caindo na compulsória de 75 anos. E ter quarentena para a relação de ministros com escritório de advocacia, com interesses privados.

“Defendo ser necessária uma reforma política radical — as instituições estão apodrecendo e produzem crise institucional. E a extrema-direita aposta no caos, na morte, na destruição de direitos, no ressentimento, no ódio, em uma vinculação submissa ao imperialismo norte-americano.

“Temos de fazer um combate radical, politizado, desconstituindo a extrema direita fascista representada, principalmente, pela candidatura do filho do inominável Bolsonaro, o ‘Flávio Tarifaço’”.

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Fotos: Mauro Pimentel e Evaristo Sá/AFP

O que falta na campanha de Lula

“Duas coisas podem ser implementadas. A primeira é falar do que vamos realizar, falar do futuro, falar de quais as medidas e as políticas que vamos implementar na pauta dos direitos do povo, da soberania nacional, na pauta democrática, da segurança pública, da defesa do meio ambiente, da defesa de uma inserção soberana do Brasil no mundo. Portanto, temos de falar do futuro. E acho que a campanha, ao falar de uma certa maneira da prestação de contas, tem de ligar isso com a perspectiva de futuro.

“Alguns podem dizer: ‘Ah, mas vocês governavam…’ Mas não tivemos condições de realizar todas as políticas porque não tínhamos maioria no Congresso e tínhamos minoria de governadores. Por isso, temos de eleger mais deputados federais, mais senadores e mais governadores. É uma eleição geral, não se pode disputar só para presidente da República. Temos de falar do futuro, da esperança. Precisamos encantar corações e mentes para uma subjetividade transformadora, radicalmente democrática, radicalmente popular.

“Ao mesmo tempo, temos de ter uma política ofensiva para desconstituir o adversário principal: mostrar quem é quem, mostrar a história dele, que vem das histórias da rachadinha no Rio de Janeiro, que vem da relação com milícias, com o sistema financeiro (como o BRB na compra daquela residência) e as várias relações com esse mundo obscuro do Banco Master.

“A extrema-direita, representada por essa candidatura, apresenta-se como antissistema, mas não é verdade. Eles são a fina flor do sistema. Eles falam uma coisa e fazem outra. Temos de desconstituir isso no enfrentamento desse discurso, um enfrentamento democrático.

Falta “rua”?

“O PT e os partidos de esquerda têm de ir para as ruas com panfleto, com cartaz, com carreata, corredor de ônibus, metrô, estação, praça pública, feiras. Temos de fazer aquilo que foi necessário ao longo da história do PT: o corpo a corpo. É claro que eu não nego o papel das redes sociais, mas é importante fazer uma campanha de reta final.

“Um dia vale uma semana, uma semana vale um mês, e esse tempo que falta vale o infinito. Porque se essa extrema-direita ganhar a eleição, vai destruir o País, os direitos sociais, o crescimento econômico. Vão associar de maneira vassala o Brasil ao imperialismo, destruir a segurança pública para fazer chacina, destruir as vinculações constitucionais do salário mínimo, da saúde e da educação, e fazer a selvagem privatização do Banco do Brasil, da Caixa Econômica. É só ver as opiniões da principal assessora econômica do “Flávio Tarifaço” e do próprio coordenador de campanha.

“Portanto, temos de radicalizar a campanha no sentido de mostrar quem é quem e fazer as comparações sobre o programa do futuro. São dois programas em confronto: um programa democrático, popular e antineoliberal, e um programa da submissão, da vassalagem, da destruição de direitos, do autoritarismo. O Brasil está cindido entre o autoritarismo totalitário da extrema-direita e uma concepção democrática e popular que deve representar a unidade em torno da candidatura do Lula”.

A disputa por votos no segundo turno

“Temos de centrar, para diminuir essa preocupação, no eleitorado indeciso, no eleitorado que está definindo abstenção, no eleitorado que não quer participar do processo eleitoral. Nesta campanha se usa a grande espuma da crise do Supremo, e a crise do Supremo não é de responsabilidade do nosso governo.

“O governo Lula estourou a corrupção e a combateu no INSS, restituiu os direitos aposentados. Foi no governo Lula que prendemos Vorcaro e que o Banco Central decretou a liquidação (do Master). Portanto, temos de fazer uma campanha ofensiva para trazer o eleitorado indeciso e aquele que está se abstendo. A campanha precisa fazer um ajuste no discurso, no horário eleitoral, com a militância fazendo o corpo a corpo. E esse ajuste é ser protagonista de reformas radicais para o futuro: salário mínimo, segurança pública, melhorar o SUS, melhorar a educação, melhorar as políticas de prevenção diante das catástrofes ambientais, melhorar os direitos da população trabalhadora em aplicativos.

“Ter políticas públicas para economia solidária, agricultura familiar, reforma agrária popular. Temos de discutir o que eu chamo de pauta dos direitos do povo. E aí, evidentemente, temos de intensificar esse discurso para atrair o eleitorado que está indeciso ou se abstendo, porque essa crise tenta negar a política e temos de nos contrapor a isso.

“Na verdade, a grande mídia corporativa e monopolista tenta deslegitimar a política para que ela seja feita pelos formadores de opinião, pelas agências, pelos órgãos privados que tentam tentar fazer a cabeça do povo.

Lula fora dos debates

“Lula tem acertado (ao não comparecer aos debates) porque ele vai enfrentar quatro ou cinco candidatos da extrema-direita cujo objetivo é atacá-lo — alguns candidatos sem representação, porque o critério que a mídia usa para os debates não é um critério democrático e deixa de fora várias candidaturas alternativas no campo da esquerda.

“Segundo: Lula tem de priorizar o grande debate do segundo turno para enfrentar o ‘Tariflávio’. Temos de politizar e esclarecer essa polarização política, para ganhar corações e mentes para um projeto democrático, popular, soberano. São os três eixos que devem nortear o debate.

“Lula deve ter algumas aparições públicas bem centradas nos principais colégios eleitorais, inclusive carreatas, comícios, grandes plenárias.

“O importante da campanha não é simplesmente participar dos debates, é ir para o enfrentamento político, falando do futuro. O que fizemos nos autoriza a defender um futuro civilizado para o País. E, neste sentido, a aparição de Lula tem de ser contundente nas entrevistas, nos comícios, nas suas falações públicas”.


Leonardo Miazzo

Editor de CartaCapital

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Fonte: Carta Capital

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