Gleisi denuncia Deltan Dallagnol e Filipe Barros por violência política de gênero
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – A candidata ao Senado pelo Paraná Gleisi Hoffmann (PT) apresentou ao Ministério Público Eleitoral uma notícia-crime contra os candidatos Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL), que também disputam uma vaga no Senado, e contra Jeffrey Chiquini (Novo), candidato a deputado federal. A petista acusa os três de violência política contra a mulher e pede a abertura de investigação.
O documento, protocolado na Procuradoria Regional Eleitoral do Paraná e obtido pela reportagem, fundamenta a acusação no artigo 326-B do Código Eleitoral, que criminaliza atos de assédio, constrangimento, humilhação, perseguição ou ameaça contra candidatas e detentoras de mandato quando praticados com menosprezo ou discriminação à condição de mulher e com a finalidade de dificultar a campanha ou o exercício do cargo.
A representação reúne publicações feitas entre março e setembro de 2026 e sustenta que houve uma sequência de ataques envolvendo referências à sexualidade de Gleisi, comentários sobre sua aparência, imagens produzidas por inteligência artificial e uma gravação em que uma provocação de conotação sexual é dirigida nominalmente à candidata.
Segundo os advogados de Gleisi, o conjunto dos episódios deve ser analisado também pela seletividade dos ataques. A petição argumenta que Deltan e Filipe Barros têm diversos adversários homens na corrida ao Senado, mas concentraram na candidata petista parcela relevante de sua comunicação negativa. O documento apresenta uma cronologia das publicações e de processos eleitorais relacionados a elas.
Vídeo de Deltan é citado na denúncia
Um dos episódios atribuídos a Deltan Dallagnol ocorreu em 22 de abril. De acordo com a notícia-crime, o candidato publicou um vídeo no Instagram em que fez referência aos codinomes atribuídos a Gleisi em planilhas da Odebrecht e recorreu a uma música de Marília Mendonça.
No vídeo reproduzido na representação, Deltan afirma:
“Tem uma música da Marília Mendonça que me lembra dos codinomes da Gleisi Hoffmann na planilha da Odebrecht. A música diz: ‘Ninguém me respeita nessa cidade, amante não tem lar’.”
Na sequência, ele também diz que Gleisi teria os apelidos de “amante” e “narizinho” e acrescenta: “Eu acho até que tinha que mudar o apelido ali de narizinho para narigão, né? Tipo Pinóquio.”
Os representantes da petista sustentam que a publicação busca ridicularizá-la mediante referências à sexualidade e à aparência física. A notícia-crime afirma que a forma escolhida para explorar os supostos codinomes, acompanhada de música e comentários sobre o corpo da candidata, configuraria menosprezo à condição de mulher. Essa é a interpretação jurídica apresentada pela defesa de Gleisi, que ainda precisará ser analisada pelo Ministério Público e, eventualmente, pela Justiça Eleitoral.
Filipe Barros é acusado por vídeos e imagens de inteligência artificial
A denúncia também reúne episódios envolvendo Filipe Barros. Um deles remonta a 23 de março, após discurso de Gleisi na Câmara dos Deputados sobre os atos de 8 de janeiro.
Segundo o documento, Barros respondeu em um vídeo divulgado no TikTok afirmando que a parlamentar deveria “lavar a boca antes de falar” em seu nome e mencionando os termos “amante” e “coxa”, atribuídos a Gleisi em registros relacionados à Odebrecht.
Outro caso apontado ocorreu em 22 de agosto, já durante a campanha eleitoral. Filipe Barros publicou um vídeo em resposta ao uso de uma onça como símbolo da campanha de Gleisi. Na gravação, ele compara a candidata a animais como raposa, cobra, bicho-preguiça e escorpião e encerra com pedido explícito de voto.
A petição afirma ainda que o conteúdo utilizou imagens geradas por inteligência artificial para representar Gleisi de forma animalizada. O material é reproduzido nas páginas 11 e 12 da denúncia e aparece acompanhado de antigas manchetes sobre investigações envolvendo a petista.
Os advogados afirmam que parte dessas acusações se refere a investigações que tiveram desfecho favorável a Gleisi. O documento cita, entre outros episódios, a absolvição da parlamentar pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal na Ação Penal 1003, em 2018, e afirma que ela não foi denunciada no caso da Operação Custo Brasil mencionado no conteúdo.
“Chupa, Gleisi” também integra notícia-crime
A acusação inclui ainda uma gravação publicada em 9 de setembro no perfil de Jeffrey Chiquini. O vídeo foi registrado após o encerramento de um julgamento no TRE-PR relacionado à candidatura de Deltan Dallagnol.
Segundo a petição, aparecem na gravação Chiquini, Deltan, o candidato a deputado federal Guilherme Kilter e outros homens. O grupo comemora a decisão aos gritos de “Senador”. Ao fim do vídeo, um dos presentes grita “CHUPA, GLEISI!”, e Deltan olha para a câmera e repete: “CHUPA!”.
Para a defesa de Gleisi, o episódio possui conotação sexual e deve ser enquadrado como instrumento de humilhação da candidata. Os advogados pedem que sejam identificados todos os participantes do vídeo e apurada eventual atuação conjunta dos envolvidos.
Defesa aponta padrão de ataques durante a campanha
A notícia-crime sustenta que quatro fatores reforçariam a tese de violência política de gênero: a concentração das publicações contra Gleisi, a utilização de referências à sexualidade e à aparência, o vínculo explícito dos conteúdos com a disputa eleitoral e a continuidade das postagens mesmo depois de decisões judiciais em processos anteriores.
Entre os exemplos listados pelo documento estão expressões relacionadas a “amante”, “coxa”, “narizinho”, “narigão”, “lavar a boca” e “chupa”, além da referência ao “sapo barbudo”.
A petição também registra que nem todas as ações eleitorais anteriores de Gleisi contra conteúdos divulgados por adversários foram acolhidas pela Justiça. Em um dos casos citados, o TRE-PR considerou lícito um vídeo publicado por Filipe Barros em agosto, decisão que, segundo o documento, foi objeto de recurso. Em outro processo, o tribunal manteve multa de R$ 15 mil relacionada ao impulsionamento de conteúdo negativo contra a candidata.
A disputa pelo Senado no Paraná reúne Gleisi, Deltan e Filipe Barros entre os candidatos mais bem colocados nas pesquisas recentes. Levantamento da Paraná Pesquisas divulgado nesta sexta-feira (18) mostrou Deltan com 31,6%, Filipe Barros com 26,3% e Gleisi com 25,9%; o estudo ouviu 1.280 eleitores entre 15 e 17 de setembro e tem margem de erro de 2,8 pontos percentuais.
Gleisi pede investigação da Polícia Federal
Entre as providências solicitadas ao Ministério Público Eleitoral estão o registro da notícia-crime, a requisição de abertura de inquérito pela Polícia Federal e a preservação dos conteúdos, metadados e registros de acesso das publicações feitas no Instagram, Facebook e TikTok.
Os advogados também pedem a identificação e o depoimento das pessoas que aparecem no vídeo de 9 de setembro, perícia para tentar identificar o autor do primeiro grito de “CHUPA, GLEISI!” e análise das imagens produzidas por inteligência artificial.
Ao final das diligências, a representação solicita que o Ministério Público avalie o oferecimento de denúncia pelo crime de violência política contra a mulher. Subsidiariamente, os advogados apontam a possível incidência dos crimes eleitorais de divulgação de fatos sabidamente inverídicos, calúnia, difamação e injúria.
Fonte: Brasil 247