Lula é alvo de 25% dos conteúdos feitos com IA durante a campanha eleitoral
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – O uso de inteligência artificial na pré-campanha presidencial teve o presidente Lula (PT) como principal alvo, com 112 registros de reprodução artificial de sua imagem ou voz entre 1º de janeiro e 15 de agosto. O número representa pouco mais de um quarto dos 413 casos mapeados nas redes sociais pelo Observatório IA nas Eleições.
Os dados foram divulgados pela Folha de São Paulo, com base em levantamento do observatório, iniciativa conjunta da Data Privacy Brasil, organização voltada à privacidade e à proteção de dados, e do Aláfia Lab, laboratório de pesquisa sobre internet e política. No período analisado, a média foi de 1,8 caso de uso político de IA por dia.
O segundo principal alvo dos conteúdos sintéticos foi o senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula na disputa presidencial, com 57 casos identificados. Também aparecem entre os alvos mais recorrentes Jair Bolsonaro (PL), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Segundo o relatório, 81% dos conteúdos identificados no período eram deepfakes, isto é, materiais com manipulação de imagens ou falas de figuras públicas. Outro dado apontado pelo levantamento é que 63% das publicações com uso de inteligência artificial não informavam que se tratava de conteúdo sintético.
As duas práticas contrariam as normas definidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para o pleito de 2026. Em resolução publicada em março, a Justiça Eleitoral determinou que candidaturas devem informar de maneira explícita, destacada e acessível quando uma peça tiver sido fabricada ou manipulada por inteligência artificial, além de indicar a tecnologia utilizada.
O TSE também estabeleceu restrições específicas aos deepfakes, modalidade em que áudios, vídeos ou imagens são alterados digitalmente para criar, substituir ou modificar a imagem ou a voz de uma pessoa. A regra veta o uso desse tipo de conteúdo tanto para prejudicar quanto para favorecer candidaturas.
Um dos episódios citados como emblemático foi a exibição de um conteúdo que simulava um discurso de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, durante a convenção partidária que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. À época, o TSE entendeu que esse tipo de material poderia configurar ilícito eleitoral caso fosse usado como propaganda dirigida ao público externo. Como a transmissão ocorreu no contexto interno da convenção partidária, não houve punição.
O levantamento mostra ainda que a maior parte dos conteúdos com IA foi publicada por perfis anônimos. Apesar disso, ao menos 35% dos casos partiram de agentes políticos: foram 92 publicações feitas por políticos e 53 por partidos.
Entre os políticos, Flávio Bolsonaro foi quem mais publicou conteúdos sintéticos no período, com 13 registros. Na sequência aparecem o deputado federal Mário Frias (PL-SP), o ex-governador Romeu Zema (Novo-MG), o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
No recorte por legendas, o PL concentrou 28 publicações identificadas pelo observatório. O PT aparece em seguida, com quatro casos, e o PSDB, com dois. Republicanos, União Brasil, PSOL e MDB também tiveram ao menos uma publicação registrada.
O relatório classificou 60% dos conteúdos sintéticos como sátira ou humor. Outros 40% foram enquadrados como desinformação. Em relação ao teor político, 64% das peças tinham caráter de crítica ou ataque, enquanto 34% foram usadas para elogiar ou endossar políticos e causas.
O observatório também identificou seis casos em que imagens de políticos foram usadas em golpes virtuais. Entre os episódios considerados mais graves estão manipulações empregadas em ataques contra mulheres, incluindo imagens adulteradas da deputada Érika Hilton (PSOL-SP) e um deepfake da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF).
O Instagram foi a principal plataforma de circulação dos conteúdos, concentrando 50% dos casos. O TikTok apareceu em segundo lugar, com 21%, seguido pelo X, com 16%. Também houve registros, em menor escala, no Facebook, no YouTube e no Kwai.
Além do monitoramento de publicações, o Observatório IA nas Eleições testou o comportamento de ferramentas de inteligência artificial generativa diante das regras eleitorais. Entre abril e agosto, cinco chatbots gratuitos disponíveis no Brasil — ChatGPT, Gemini, Grok, DeepSeek e Meta AI — foram submetidos mensalmente a 11 perguntas idênticas.
O objetivo do teste foi verificar se as plataformas atuavam para ranquear, traçar perfis ou recomendar pré-candidatos à Presidência. Segundo o observatório, as empresas não seguiram as novas regras do TSE e forneceram informações, orientações ou indicações que, na avaliação do relatório, poderiam influenciar o debate público e a escolha do voto.
Fonte: Brasil 247