Pepe Escobar: “O Iêmen colocou a Arábia Saudita contra a parede”

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Por Dafne AshtonBrasil 247

247 – O avanço das forças do Ansar Allah pela costa ocidental do Iêmen mudou a correlação de forças entre o movimento sediado em Sana e a Arábia Saudita, segundo análise do jornalista Pepe Escobar. Em seu canal no YouTube, Pepe Café, ele afirmou que o controle de posições próximas ao estreito de Bab al-Mandeb passou a dar aos iemenitas capacidade de pressionar diretamente uma das principais rotas de circulação de petróleo e mercadorias do mundo.

A ofensiva ocorreu ao longo da costa do Mar Vermelho e levou o Ansar Allah ao controle de Mokha e de posições e ilhas próximas ao Bab al-Mandeb. O avanço foi confirmado por diferentes fontes internacionais. Em 10 de setembro, o enviado especial da ONU para o Iêmen, Hans Grundberg, informou ao Conselho de Segurança que o grupo havia assumido Mokha, a cerca de 75 quilômetros do estreito. Nos dias seguintes, o movimento ampliou suas posições e chegou à ilha de Mai Yun, também conhecida como Perim, situada no próprio Bab al-Mandeb.

Para Escobar, a importância dessa movimentação não pode ser compreendida apenas a partir da disputa territorial dentro do Iêmen. O ponto central de sua análise é a capacidade adquirida pelo Ansar Allah de interferir no cálculo estratégico saudita. O Bab al-Mandeb conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e constitui uma passagem para embarcações que circulam entre o Oceano Índico, o Canal de Suez e o Mediterrâneo.

“Ansar Allah está controlando todas as bordas do Iêmen com o Mar Vermelho até a ilha de Mai Yun”, afirmou Escobar. Na avaliação do jornalista, a ofensiva permitiu ao movimento combinar a recuperação de territórios no oeste iemenita com uma posição militar capaz de afetar as rotas utilizadas pela Arábia Saudita.

A dimensão energética dessa mudança ganhou peso depois dos ataques contra o oleoduto Leste-Oeste saudita, conhecido como Petroline. A estrutura de aproximadamente 1.200 quilômetros liga Abqaiq, no leste do país, ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Sua capacidade máxima chega a 7 milhões de barris por dia, embora os volumes efetivamente transportados sejam menores. A função estratégica do sistema é permitir que parte do petróleo saudita alcance o Mar Vermelho sem atravessar o Estreito de Ormuz.

O governo saudita confirmou que ataques com drones atingiram instalações do oleoduto nas regiões de Riad e Medina e suspendeu seu funcionamento enquanto equipes técnicas avaliam os danos. Riad afirmou que os drones partiram do território iraquiano. A Arábia Saudita decidiu inicialmente não realizar uma retaliação, após pedido do governo do Iraque para investigar os ataques.

Escobar associa a paralisação do oleoduto à mudança provocada pelo avanço iemenita no Mar Vermelho. Na leitura apresentada no Pepe Café, a Arábia Saudita passou a enfrentar limitações nas duas direções utilizadas para escoar sua produção: a saída pelo Golfo Pérsico, condicionada pela situação no Estreito de Ormuz, e a alternativa terrestre até Yanbu, que depende do funcionamento do Petroline e da segurança da navegação pelo Mar Vermelho.

O jornalista afirmou que o oleoduto transportava “entre 4 e 5 milhões de barris de petróleo por dia” e sustentou que sua interrupção retira temporariamente esse volume da rota habitual de exportação. Dados publicados pela Al Jazeera, com base em informações do setor, apontam capacidade máxima de 7 milhões de barris diários e fluxo recente variável, enquanto estimativas sobre o período necessário para os reparos também divergem.

A autoria do ataque ao oleoduto exige uma distinção em relação à ofensiva do Ansar Allah. Escobar apresentou diferentes hipóteses, entre elas drones lançados do Iraque, mísseis provenientes do Iêmen ou uma ação combinada. Ele próprio ressaltou que não havia confirmação para atribuir a operação aos iemenitas. As autoridades sauditas, por sua vez, disseram ter rastreado os drones até a província de Maynas, no sudeste do Iraque.

A coincidência temporal entre os ataques à infraestrutura saudita e o avanço do Ansar Allah, no entanto, constitui o centro da interpretação de Escobar. Para ele, mesmo sem uma estrutura formal de comando conjunto, a movimentação iemenita ocorre paralelamente à pressão exercida pelo Irã sobre o tráfego no Estreito de Ormuz. “A sincronicidade do que o Irã está fazendo no Golfo Pérsico, no Estreito de Ormuz, e o que os iemenitas estão fazendo no Mar Vermelho e no Bab al-Mandeb é total”, disse.

No caso do Iêmen, Escobar rejeita a interpretação segundo a qual o Ansar Allah atuaria simplesmente como uma extensão das decisões de Teerã. Ele afirmou ter conversado com integrantes da direção política do movimento durante uma viagem ao país e sustenta que as decisões iemenitas são tomadas de forma autônoma, ainda que exista cooperação e intercâmbio de informações com o Irã.

A ofensiva também representa uma mudança no conflito interno iemenita. O Ansar Allah rompeu linhas que permaneciam relativamente estabilizadas desde a trégua de 2022 e conquistou posições que ampliaram sua presença sobre a costa. Análises recentes apontam que o grupo passou a ter capacidade maior de influenciar o tráfego pelo Bab al-Mandeb, ao mesmo tempo em que sua expansão aumenta o risco de novos confrontos com forças apoiadas pela Arábia Saudita.

Segundo Escobar, essa mudança ajuda a explicar a posição em que Riad se encontra. A Arábia Saudita liderou, a partir de 2015, a intervenção militar contra o Ansar Allah e apoiou forças que disputam com o movimento o controle territorial do Iêmen. Mais de uma década depois, a expansão das forças sediadas em Sana alcançou justamente a área que permite influenciar a circulação marítima saudita pelo Mar Vermelho.

“Basicamente, o que Ansar Allah e as Forças Armadas do Iêmen estão fazendo é liberar terras do Iêmen de volta aos iemenitas”, afirmou Escobar, sintetizando sua interpretação política da ofensiva. Essa caracterização corresponde à leitura do jornalista e do próprio movimento. O governo iemenita reconhecido internacionalmente e seus aliados classificam o avanço de maneira distinta e disputam a legitimidade do controle exercido pelo Ansar Allah.

Para Escobar, porém, o elemento decisivo não está apenas no território conquistado, mas na transformação desse território em capacidade de negociação. O controle da costa até as proximidades do Bab al-Mandeb oferece ao movimento um instrumento de pressão sobre Riad num momento em que a infraestrutura utilizada pela Arábia Saudita para contornar Ormuz também enfrenta interrupções.

É nesse cruzamento entre território, petróleo e navegação que Escobar identifica a principal mudança produzida pela ofensiva. Depois de anos em que a Arábia Saudita tentou determinar militarmente os rumos do conflito iemenita, o avanço sobre a costa do Mar Vermelho colocou Sana em posição de interferir diretamente em decisões que ultrapassam as fronteiras do Iêmen e atingem uma das principais rotas energéticas sauditas.

Fonte: Brasil 247

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