Por Sinésio DioliveiraJornal Opção

O triste fim da borboleta amarela

Uma vez que é possível encontrarmos um caminho no meio da pedra que atravanca nossa passagem para tantos destinos da vida, podemos também encontrar um túnel no fim da luz. A primeira alternativa é animadora; a segunda não. Mas ambas podem servir de metáfora para as muitas armadilhas que a vida, essa senhora de imaginação fértil e muitas vezes cruel, costuma espalhar pelo nosso caminho. E podem acontecer até com borboletas. E até com outros bichos.

Foi a segunda que aconteceu à borboleta amarela que prot(agoniza) esta fábula, ou parábola, ou seja lá o que este texto venha a ser. Se peco na classificação do gênero, que me perdoem os escribas puristas: esses zelosos apontadores de pulgas em leões alheios. Longe de mim a pretensão de me considerar leão. Sou apenas um escriba de palavras miúdas. Queria ficar calado, mas escrever, para mim, é como ter a boca cheia de palavras e assim tenho necessidade de cuspi-las. Não consigo engoli-las.

Naquele dia, a noite chegou mais cedo. Por volta das cinco da tarde, o céu já estava escuro e carregado. São Pedro não teve dó de chuva. O vento vergou árvores, arrancou folhas, espalhou galhos. As trovoadas faziam a mata estremecer, os raios iluminavam por um segundo a paisagem numa fotografia instantânea. Poucas flores resistiram. A borboleta amarela, porém, estava com fome.

Refugiada na fresta de um angico frondoso, ela recebeu o conselho de uma joaninha vermelha de bolinhas pretas, que ali também se abrigou. “Não saia”, disse a joaninha. “O vento está forte demais para suas asas. E está escuro demais para que você encontre as flores”. Era um conselho sensato. Mas, como bem sabe você, altaneiro leitor, os conselhos sensatos raramente seduzem quem tem pressa. Afinal, quem tem pressa quer tudo para ontem.

A borboleta esperou a chuva diminuir. Quando o temporal finalmente findou, achou que a noite também tivesse ido embora. Não foi. Então ela viu algumas luzinhas ao longe e teve aquela sensação perigosa que às vezes acomete homens, mulheres e borboletas e outros bichos: a de que toda luz foi feita para nos salvar. Ruflou as asas, sacudiu as últimas gotas de chuva e partiu.

Imagem: Reprodução

As luzes vinham de um casebre no meio da mata. Eram velas acesas em dois cômodos. Para quem conhecesse o perigo, eram apenas chamas. Para quem estava perdido no escuro, pareciam uma promessa de vida. A borboleta se aproximou, encontrou uma fresta na janela. Entrou. Deu uma volta em torno da primeira vela. Depois outra. E mais outra. A chama parecia chamá-la para mais perto, como se tivesse alguma coisa a lhe dizer. Talvez fosse apenas o instinto. Talvez fosse a fome. Talvez fosse aquela velha e perigosa crença de que aquilo que brilha merece ser seguido. Aproximou-se ainda mais. Até sentir o calor de modo intenso. Suas asas queimaram. Sem forças para continuar o voo, caiu sobre a cera quente. E ali terminou sua pequena aventura de vida.

A tempestade não a matou. A escuridão também não. Foi a luz. Ou melhor: foi a luz que ela tomou por caminho. Talvez seja essa a parte mais incômoda da história. Há luzes que iluminam e há luzes que atraem. Há claridades que mostram a saída e outras que apenas nos convidam a chegar mais perto. Nem toda luz é farol. Algumas são armadilhas perigosas, letais até.

Faltou prudência à borboleta no sentido de permanecer algum tempo no escuro, até que dia amanhecesse. Sua imprudência não lhe deixou saber que existem momentos em que esperar pelo sol é muito mais sábio do que correr atrás de uma chama.

Talvez tenha ficado, sobre a mata silenciosa, a lição que a borboleta não teve tempo de aprender: nem toda luz que se oferece no escuro é um caminho. Por isso, diante de certas luzes, convém não perguntar apenas para onde elas nos levam. É preciso perguntar também o que poderá acontecer conosco se chegarmos perto demais.

Nem toda luz é farol, algumas são armadilhas. Cabe, inclusive, dizer que os discursos “iluminados” dos políticos que andam prometendo ao povo uma Canaã com leite e mel em abundância são como a luz da vela que queimou as asas da borboleta e a fez morrer na cera quente.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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Fonte: Jornal Opção

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