SUS é referência internacional e cultura midiática ajuda a compreender importância do sistema
Por Lucas Wilker — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
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Um ferimento na cabeça, uma ambulância, exames de imagem, seis pontos e uma conta de R$ 0. A experiência do jornalista norte-americano Terrence McCoy em um hospital público de Paraty (RJ), em junho de 2025, chamou atenção nas redes sociais e colocou o Sistema Único de Saúde (SUS) no centro de uma discussão que costuma aparecer de forma diferente fora do Brasil. O que significa ter acesso à saúde sem que o atendimento esteja condicionado à capacidade de pagamento?
Correspondente do The Washington Post no Brasil, McCoy estava de férias com a família quando foi atingido pela porta traseira do carro enquanto colocava as malas no porta-malas. Sangrando, ele recebeu atendimento do Samu e foi levado ao Hospital Municipal Hugo Miranda. Passou cerca de seis horas no serviço, fez raio-X e tomografia, recebeu medicação e levou pontos. Nada foi cobrado da família.
A experiência chamou atenção justamente porque McCoy é estadounidense. Nos Estados Unidos, o acesso à saúde é organizado de maneira diferente, com forte participação de seguros privados e programas públicos voltados a grupos específicos. O contraste apareceu no próprio relato do jornalista, que comparou a experiência em Paraty com o que poderia enfrentar em seu país de origem.
“Qual a principal diferença entre os Estados Unidos e o Brasil? O SUS”, afirmou, à época.
Esse contraste também aparece na cultura midiática. Na série médica The Pitt, sucesso da HBO Max, os espectadores acompanham a rotina de um pronto-socorro sobrecarregado em Pittsburgh.
A produção não é um retrato documental do sistema de saúde dos Estados Unidos, mas utiliza histórias de pacientes para abordar problemas concretos relacionados ao acesso, aos seguros e aos custos do atendimento. Na segunda temporada, por exemplo, uma das tramas acompanha um trabalhador que chega ao hospital com uma condição grave depois de perder o seguro de saúde e começar a racionar a própria insulina. Ele já acumulava uma dívida médica de US$ 100 mil e hesita em permanecer internado por causa do custo do tratamento.
Enquanto seguro, dívidas e capacidade de pagamento interferem no percurso dos pacientes pelo sistema norte-americano, o SUS parte de um princípio diferente, em que a saúde é um direito universal e o atendimento público deve ser oferecido independentemente da capacidade individual de pagamento.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a cobertura universal de saúde justamente como a garantia de que todas as pessoas possam acessar os serviços necessários sem sofrer dificuldades financeiras em razão do atendimento.
Essa característica faz com que o SUS seja estudado fora do Brasil como um caso bem sucedido de política pública. O Commonwealth Fund, organização norte-americana que compara sistemas de saúde de diferentes países, descreve o SUS como um sistema de cobertura universal financiado por impostos, com uma ampla gama de serviços oferecidos gratuitamente.
A instituição também registra avanços nos indicadores de saúde brasileiros desde a criação do SUS. A mortalidade infantil, por exemplo, caiu de 52,5 mortes por mil nascidos vivos em 1990 para 12,5 em 2023, segundo os dados reunidos pelo Commonwealth Fund.
Em estudo publicado pelo Banco Mundial sobre os primeiros 20 anos do sistema, a instituição afirmou que o Brasil se tornou uma referência internacional em saúde pública e uma experiência relevante para países que buscavam sistemas mais igualitários.
O estudo destacou a expansão do acesso, a descentralização e o aumento do financiamento público, mas também apontou desafios relacionados a recursos, gestão, qualidade e coordenação do cuidado.
A atenção primária é outro aspecto do SUS que desperta interesse internacional. Em estudos publicados em 2024, a OMS utilizou o Brasil como um dos exemplos para analisar diferentes caminhos de construção da cobertura universal de saúde. A organização destaca a criação do SUS em 1990, a descentralização da gestão e do financiamento, a participação comunitária e, principalmente, a Estratégia Saúde da Família, criada em 1994.
Em outro capítulo da mesma publicação, a OMS destaca o papel dos agentes comunitários de saúde (ACS) na integração entre as equipes de Saúde da Família e as comunidades. O modelo permite que profissionais acompanhem mais de perto as necessidades das populações e articulem ações de cuidado individual e de saúde pública.
Em 2019, a Bolívia implementou seu próprio Sistema Único de Saúde (SUS), com o objetivo de ampliar a cobertura universal e gratuita para milhões de pessoas que estavam fora de mecanismos formais de seguro.
Segundo a OMS, a reforma boliviana buscou proteger aproximadamente cinco milhões de pessoas sem cobertura e ampliar o financiamento público da atenção primária. A organização também registrou redução da participação dos gastos diretos das famílias no financiamento de hospitais terciários após a implementação do sistema.
No caso boliviano, o modelo foi criado dentro de uma estrutura de saúde que já contava com diferentes redes de seguridade social e buscava ampliar a cobertura para parcelas que permaneciam desassistidas.
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Fonte: Brasil de Fato