Gustavo Rocha, vice de Celina, leva governo Ibaneis para chapa de governadora

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Por Giovanna CamposJornal Opção

Gustavo Rocha, vice de Celina, leva governo Ibaneis para chapa de governadora

Gustavo Rocha, candidato a vice-governador na chapa de Celina Leão (PP) no Distrito Federal, chega à disputa eleitoral com uma trajetória diretamente ligada ao governo de Ibaneis Rocha (MDB). Ele comandou a Casa Civil do DF de junho de 2020 a abril de 2026 e, durante parte desse período, o escritório de advocacia que mantinha com a mulher, Marcela Passamani, foi administrado pelo advogado Engels Augusto Muniz. Entre 2023 e 2026, a sociedade individual de advocacia de Engels emitiu 193 notas fiscais que somam R$ 56,4 milhões para duas empresas contratadas pelo governo do Distrito Federal.

Do total, R$ 43,4 milhões foram pagos pela Auto Viação Marechal, operadora do transporte coletivo, em 121 notas fiscais. Outros R$ 13 milhões foram faturados da Sustentare Saneamento, responsável pela coleta de lixo em parte do DF, em 72 documentos. As notas descrevem os serviços de forma genérica, como “serviços jurídicos”, “serviços advocatícios” ou simplesmente “advocacia”.

A relação que conecta os pagamentos ao entorno político de Ibaneis passa por Engels. O advogado administrou, entre março de 2020 e junho de 2026, o escritório Vale Rocha e Passamani Advogados, que tinha Gustavo Rocha e Marcela Passamani como sócios. Marcela também integrou o governo de Ibaneis durante seis anos, tendo deixado a Secretaria de Justiça e Cidadania em março deste ano.

R$ 43,4 milhões da Marechal

A maior parte dos valores levantados está relacionada à Auto Viação Marechal. Segundo os documentos obtidos pelo UOL, foram 121 notas fiscais, totalizando R$ 43,4 milhões, desde 2023.

As cinco maiores notas somam R$ 19,7 milhões. Uma delas, emitida em 14 de fevereiro de 2025, chegou a R$ 6,3 milhões. No mesmo dia, outra nota foi emitida no valor de R$ 3,8 milhões.

Durante o período em que Engels administrava o escritório de Gustavo Rocha e Marcela Passamani, o governo do Distrito Federal também prorrogou por mais dez anos o contrato da Marechal para operar o transporte coletivo.

Em junho deste ano, porém, o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) proibiu uma nova postergação dos prazos para renovação da frota e determinou que a Secretaria de Transporte aplicasse as sanções previstas no contrato caso a empresa não cumprisse as obrigações. Dados apresentados no processo indicavam que parte dos ônibus da empresa estava acima do limite de idade permitido.

O governo afirmou ao UOL que outras três empresas tiveram contratos renovados no mesmo período e que esses processos não passaram pela Casa Civil. A licitação original da Marechal, por sua vez, havia sido realizada antes do início do governo Ibaneis.

Mais R$ 13 milhões da empresa de limpeza

A segunda empresa envolvida é a Sustentare Saneamento, contratada pelo Serviço de Limpeza Urbana (SLU). Desde 2023, o escritório individual de Engels emitiu 72 notas fiscais para a empresa, no valor total de R$ 13 milhões.

Em janeiro de 2024, enquanto Engels ainda administrava o escritório ligado a Gustavo Rocha e Marcela Passamani, ele representou a Sustentare em uma ação no TCDF. Uma decisão cautelar suspendeu um procedimento de glosa relacionado a valores que o SLU considerava terem sido pagos a mais.

Relação de Gustavo com Engels

A ligação entre Gustavo Rocha e Engels Muniz não começou no governo Ibaneis. Os dois trabalharam juntos durante o governo Michel Temer. Em 2016, quando Rocha assumiu a Subchefia para Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência, Engels foi nomeado chefe de gabinete. Em 2018, quando Rocha assumiu o Ministério dos Direitos Humanos, Engels passou a secretário-executivo da pasta.

A relação continuou no Distrito Federal. Engels passou a administrar o escritório de Gustavo Rocha e Marcela Passamani em 2020, justamente no período em que Rocha assumiu a Casa Civil de Ibaneis.

Rocha deixou o cargo em 2 de abril de 2026 para disputar as eleições. Pouco depois, foi confirmado como candidato a vice-governador na chapa de Celina Leão. Engels deixou a administração do escritório em 8 de junho, cerca de dois meses após a saída de Rocha do governo.

Segundo Rocha, Engels foi colocado na administração porque ele estava impedido de exercer a advocacia enquanto ocupava cargo público. O candidato afirma que o escritório estava inativo e que a medida tinha como objetivo preservar o CNPJ. Engels também afirma que nunca foi sócio de Rocha e que administrou o escritório sem receber remuneração.

Contratos e relação com o governo

Os valores recebidos por Engels não significam, por si só, que Gustavo Rocha tenha recebido os recursos ou que exista irregularidade nos contratos. As empresas afirmam que os pagamentos correspondem a serviços jurídicos efetivamente prestados.

Engels disse ao UOL que seu escritório atuou em mais de 300 processos judiciais para a Marechal e a Sustentare, incluindo ações no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), no Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (TRT-10) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Segundo ele, contratos, procurações e atos processuais comprovam os serviços realizados.

A Marechal afirmou que mantém relação profissional com o escritório desde 2023 e que os pagamentos correspondem a serviços prestados. A empresa informou ter sido representada em mais de 307 processos e disse que a contratação ocorreu por meio de seleção conduzida por empresa especializada, sem influência de terceiros.

A Sustentare também declarou que mantém relação profissional com Engels e que o escritório atua em ações estratégicas, inclusive em tribunais superiores e processos trabalhistas. Segundo a empresa, os pagamentos foram feitos por serviços efetivamente prestados e contabilizados.

Outro capítulo: Banco Master

A relação de Engels com Gustavo Rocha já havia entrado no debate eleitoral por outro motivo. Reportagens anteriores apontaram pagamentos feitos ao advogado pelo Banco Master, pelo empresário Daniel Vorcaro e por fundos relacionados ao caso.

Segundo levantamento publicado pelo Jornal Opção, Banco Master e Reag pagaram R$ 7,3 milhões a Engels entre 2024 e 2025. Parte dos pagamentos ocorreu quando ele ocupava cargos no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e no conglomerado BRB.

A Folha também informou que Engels recebeu R$ 3 milhões do Banco Master e de Daniel Vorcaro, enquanto administrava o escritório de Gustavo Rocha.

Gustavo Rocha afirma que não prestou serviços ao Banco Master ou a Vorcaro e nega que Engels tenha sido seu sócio. Em setembro, o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal determinou a retirada de uma publicação de José Roberto Arruda que atribuía diretamente a Gustavo Rocha o recebimento de R$ 6,3 milhões de Vorcaro. A decisão destacou que a quantia foi destinada à sociedade individual de Engels, e não ao escritório de Gustavo Rocha.

A campanha de Celina Leão e Gustavo Rocha afirmou que a escolha do candidato a vice ocorreu por critérios políticos e administrativos e que a indicação foi acolhida pela governadora após decisão da coligação formada por 11 partidos.

O caso coloca no centro da campanha do Distrito Federal a trajetória de Gustavo Rocha no governo Ibaneis, sua relação profissional com Engels Muniz e os contratos mantidos pelo advogado com empresas que prestam serviços ao próprio governo. Os documentos mostram os pagamentos e as relações profissionais; não estabelecem, por si só, que Gustavo Rocha tenha participado das contratações ou recebido os valores.

Leia também: Deputado pede impeachment de Celina Leão e cita casos envolvendo BRB e contratos do GDF

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Fonte: Jornal Opção

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