Gente exausta vota menos? Pesquisa relaciona vínculos sociais, esperança e participação eleitoral

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Por NINJAMídia NINJA

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Estudo Avaaz/Datafolha ouviu 2.002 internautas e encontrou menor participação eleitoral entre pessoas com menos vínculo social e esperança

Por Vinicius Francisco

Pessoas que relataram menos conexão com outras pessoas, com a vida em sociedade e com a natureza também apresentaram menos esperança no futuro e menor participação eleitoral no Termômetro do Bem Viver, pesquisa do Projeto Desapocalíptica em parceria com o Datafolha.

O levantamento ouviu 2.002 internautas brasileiros com mais de 18 anos, entre 11 e 21 de novembro de 2025. As entrevistas foram feitas online, e a pesquisa representa a população adulta brasileira que tem acesso à internet, e não todos os brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais para o total da amostra, com nível de confiança de 95%.

O questionário abordou as relações sociais, hábitos, uso do tempo livre, contato com a natureza, esperança no futuro e participação na vida em sociedade. Os entrevistados deram notas de zero a dez para diferentes afirmações que foram apresentadas. Em uma pergunta sobre lazer, por exemplo, a nota zero representava passar a maior parte do tempo livre na internet ou assistindo TV. No outro extremo, a nota dez correspondia a passar esse tempo ao ar livre ou presencialmente com pessoas próximas.

As respostas formaram um índice inspirado no Bem Viver, conceito de matriz indígena que relaciona qualidade de vida à forma como as pessoas se conectam umas com as outras, com a comunidade e com a natureza. No estudo, também foram incluídos aspectos como participar da vida em sociedade, pensar no bem-estar coletivo e acreditar que as próprias ações podem contribuir para melhorar o futuro.

A partir da média das respostas, 6,6% foram classificados como “desvinculados”, 64% como “relativamente vinculados” e 29,4% como “vinculados”. Os termos não indicam renda, classe social, quantidade de amigos ou se alguém mora sozinho. Eles mostram o quanto as respostas de cada participante se aproximam dos princípios de Bem Viver usados pela pesquisa.

Nana Queiroz, diretora do Projeto Desapocalíptica, define os vinculados como “pessoas que se sentem parte de um todo”. Esse “todo”, explica, envolve a relação com as pessoas ao redor, com a sociedade da qual fazem parte e com o ambiente em que vivem.

“A intenção das categorias não é rotular as pessoas, mas ajudar a classificar o quanto elas estão próximas dos princípios do Bem Viver”, afirma.

As diferenças aparecem também quando o assunto é eleição. Entre os vinculados, 94% deram notas de seis a dez para a afirmação “eu votei nas últimas eleições”. Entre os desvinculados, 46% ficaram entre zero e quatro e 27% marcaram zero. Nana explica que a pergunta se referia às eleições municipais de 2024. A nota zero indica que a pessoa não votou naquele pleito, mas não permite afirmar que tenha abandonado as urnas de forma permanente.

Os jovens (entre 18 e 34 anos) são 44% das pessoas classificadas como desvinculadas. Isso não significa que 44% de todos os jovens pesquisados sejam desvinculados. O número mostra, na verdade, que grande parte dos desvinculados é jovem. A falta de esperança também aparece nesse grupo. Entre os desvinculados, 71% deram notas de zero a quatro quando perguntados se acreditavam que o futuro seria melhor que o presente.

Outro termo usado no estudo é “participação cívica”. Na prática, significa participar da vida em sociedade, e não apenas votar. O questionário cita exemplos como assinar uma petição, fazer trabalho voluntário, doar para causas sociais, participar de reunião sindical ou integrar um movimento local. Os resultados mostram uma associação entre menor pontuação no índice, menos esperança e menor participação eleitoral.

Para entender se havia uma relação de causa e consequência, ou seja, se a desesperança e a solidão faziam de fato alguém deixar de votar, os pesquisadores fizeram uma outra etapa do estudo, com entrevistas em profundidade com cada grupo.

Depois das 2.002 entrevistas, a Avaaz realizou quatro grupos focais com integrantes de sua própria base, com o mesmo perfil de respondentes da pesquisa do Datafolha, para aprofundar o que aparecia nos números. Os grupos reuniram de cinco a nove pessoas. Nessas conversas, surgiram relatos de fadiga com a política, ansiedade e uso da TV e das redes sociais como uma espécie de “anestesia” para o tédio e o cansaço do dia a dia. Essas falas ajudam a compreender experiências e percepções da fase quantitativa, mas não podem ser generalizadas para toda a população.

Segundo Nana, a fadiga política apareceu entre pessoas com diferentes níveis de vínculo, mas, entre os vinculados, havia mais expectativa de que o voto pudesse produzir alguma mudança.

“Se a política não resgatar nossa esperança de que pode mudar as coisas, as pessoas perdem o desejo de sequer votar”, afirma.

Nos grupos focais também apareceu a ideia do voto como “redução de danos”: pessoas que continuam indo às urnas mais para evitar um resultado considerado pior do que por acreditar em uma grande transformação. Para Nana, resumir a abstenção a “desinteresse por política” deixa de fora a sensação de pertencimento e a confiança de que participar pode fazer diferença.

“O brasileiro não cansou da democracia, cansou de ser esquecido pelo Congresso”, diz.

O Projeto Desapocalíptica defende, entre outras medidas, o fim da escala 6×1, a regulação das redes sociais e maior acesso a áreas verdes. Essas propostas fazem parte da agenda da organização. A pesquisa não testou se a adoção delas aumentaria o comparecimento às urnas. O que o levantamento identificou foi uma associação entre menor pontuação no índice de Bem Viver, menos esperança no futuro e menor participação eleitoral.

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Fonte: Mídia NINJA

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