Onça em miniatura: Conheça o tilcayo, primeira espécie de felino descrita em mais de 100 anos – que de pet nada tem
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Com jeito de onça em miniatura, ele materializa mistério e beleza selvagens. Batizado de tilcayo (Leopardus tilcayo), é também a primeira espécie de felino descrita pela ciência em mais de um século, num estudo liderado por cientistas brasileiros. É o felino mais raro do mundo, sequer se sabem quantos existem e como vivem. Seu habitat são as Yungas da Bolívia, florestas de altitude onde a Amazônia se encontra com os Andes.
De pet esse gatinho nada tem. É selvagem até a medula. O tilcayo, nome para gato-do-mato em certas partes da América do Sul, sabe se esconder. As úmidas Yungas cobrem vales profundos e encostas vertiginosas. Não à toa foram deixadas de lado pelos antigos naturalistas, que descreveram a maioria dos felinos sul-americanos. O primeiro gato-do-mato data do século XVIII.
Até hoje as Yungas são pouco estudadas e sua atração mais conhecida, a Estrada da Morte (Camino a Los Yungas), repleta de abismos sem proteção, dá ideia das dificuldades do terreno.
“Essa nova espécie evidencia o quanto sabemos pouquíssimo sobre a biodiversidade. Mesmo um animal carismático como um felino pode permanecer desconhecido por séculos”, destaca o líder do estudo, o geneticista Eduardo Eizirik, professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Biodiversidade da PUCRS, considerado um dos maiores especialistas do mundo em genética de felinos.
Sobre o tilcayo quase nada se sabe. É tão selvagem quanto as florestas onde vive. De hábitos noturnos, esquivo, ele sobrevive num ambiente sob pressão de seres humanos, seja pela caça, abertura de estradas e mineração. Ainda compete por comida com as bem maiores jaguatiricas e onças-pardas e precisa ser esperto o suficiente para não acabar comido por elas.
O estudo é de cientistas da PUCRS e de instituições parceiras de Brasil, Bolívia, Peru, Bélgica, Colômbia, Estados Unidos e Reino Unido. Intitulado “Phylogenomics and museomics reveal five distinct species of tiger cats in South America” (Filogenômica e museômica revelam cinco espécies distintas de gatos-do-mato na América do Sul, em tradução livre), o trabalho foi publicado na revista Current Biology.
Espécie brasileira
A pesquisa resolve um quebra-cabeças que há décadas intriga os cientistas. O tilcayo se parece muito com os demais gatos-do-mato-pequenos. Eles pesam entre 1,5 quilo e 3,5 quilos e são pouco maiores que os gatos domésticos. Inicialmente, se pensava que só existia uma espécie, o Leopardus tigrinus. Mas graças ao novo estudo se provou serem cinco as espécies biologicamente distintas.
Duas delas foram alçadas agora pelo estudo de subespécie à espécie e existem no Brasil: Leopardus guttulus e Leopardus emilae. Esta última é a única de felino selvagem que só habita o Brasil. Vive na Caatinga e no Cerrado, em estados do Nordeste e em Goiás. E, talvez, diz Eizirik, exista na borda leste da Amazônia e no norte da Mata Atlântica.
Já o guttulus vive na Mata Atlântica do Brasil, mas chega a partes de Argentina e Uruguai. Os demais gatos pequenos são o Leopardus tigrinus (a espécie original, agora restrita às Guianas e Peru) e o Leopardus pardinoides (norte dos Andes, Panamá e Costa Rica).
Ilustre solitário
Já o tilcayo da Bolívia é totalmente novo. Sequer havia registros de sua existência anteriores ao estudo. E só foi possível saber que se trata de uma espécie nova devido à genômica.
“Os outros quatro casos são de validação ou elevação de subespécie para espécie. Já tinham até nome proposto. No caso do tilcayo não”, explica Eizirik.
Ele frisa que distinguir as espécies é fundamental para a conservação porque elas têm hábitats, comportamentos e necessidades distintos.
Mesmo entre os povos originários e populações de comunidades das Yungas, o tilcayo é mistério. Se falava sobre sua existência, mas até registros em armadilhas fotográficas eram escassos e imprecisos.
Isso só mudou com a captura de dois animais, por cientistas bolivianos, e a pesquisa de seu DNA. Um deles foi solto após coleta de dados e o outro, um macho batizado de Tigrino, está no refúgio de vida silvestre de La Senda Verde, em La Paz, na Bolívia. O nome tigrino, dado pelos bolivianos, tem a ver com a antiga denominação dos gatos selvagens. Chamar onça de tigre é um erro com origem histórica, os primeiros exploradores europeus desconheciam onças e só tinham os listrados tigres asiáticos como referência.
O solitário Tigrino é um caso raríssimo de espécime tipo, aquele que permitiu a descrição da própria espécie, vivo. Tigrino tem idade estimada em 10 anos. Mas o estudo do seu genoma revelou que sua espécie se diferenciou de seus parentes há um milhão de anos.
A nova museômica
Não se sabe como e por que esses gatos selvagens se separaram de seu ancestral comum e se espalharam pela América do Sul. Curiosamente, eles estão ausentes de parte da Amazônia, ao menos até que se prove o contrário.
Foi preciso muita ciência de ponta para mostrar que aparência engana. Eles se parecem, mas há diferenças tão grandes em seu genoma quanto, a grosso modo, no de um lobo para um coiote ou entre um urso pardo e um polar.
As espécies dessas onças em miniatura até apresentam sutis diferenças visíveis em detalhes, por exemplo, de pelagem. Mas o que não se consegue enxergar a olho nu se procura com microscópio e análises moleculares.
E foi dessa forma que os cientistas viram que o misterioso gatinho boliviano era ainda mais peculiar do que pensavam. Para chegar à descoberta e ter certeza de se que tratava de algo novo e distinto, combinaram o sequenciamento de genomas de gatos-do-mato atuais com o extraído de exemplares de museus. Ao todo, foram 38 genomas de gatos sul-americanos analisados.
Particularmente importante foi a museômica, ciência que emprega tecnologias modernas de genômica em exemplares preservados em museus. Ela é a saída para investigar espécies extintas ou animais tão raros que são quase impossíveis de achar na natureza.
Uma das maiores dificuldades é extrair DNA com integridade suficiente para permitir uma análise. Por isso, o estudo tem entre os coautores especialistas em DNA antigo, como Beth Shapiro, da Universidade da Califórnia e diretora científica da Colossal Biosciences, empresa que almeja trazer de volta espécies extintas, como o mamute e o dodo, e proteger outras ameaçadas de extinção.
“Esses gatos são o que chamamos de espécies crípticas. Elas se parecem, mas são geneticamente diferentes e seguem histórias evolutivas independentes há centenas de milhares ou até milhões de anos”, observa Eizirik.
Mais surpresas
O prosseguimento das pesquisas pode levar a novas revelações. “Descobrimos um novo grupo de gatos no Peru, que designamos como uma nova subespécie (L. tigrinus antisuyo) só porque optamos por uma análise conservadora. No futuro, é possível que ela também seja reconhecida como uma espécie distinta”, afirma Eizirik.
A decisão é conservadora porque a idade de separação entre os gatos do Peru e das Guianas foi de cerca de 500 mil anos. Em outros grupos, isso já é considerado antigo o suficiente para serem consideradas espécies diferentes.
“No caso dos felinos, o comitê que avalia isso tem sido mais conservador, e usado um limiar de 800 mil anos. Mas isso pode ser revisto no futuro, e está em discussão”, conta Eizirik, que integra o comitê.
Ele chama atenção de em pleno século XXI animais tão apreciados e estudados quanto os felinos seguirem praticamente desconhecidos, caso do tilcayo e do antisuyo.
“A única coisa certa sobre todos esses gatos é que são vulneráveis à ação humana”, enfatiza o cientista.
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Fonte: umsoplaneta