Por Murillo Ferreira PintoCarta Capital

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A saga literária que deu origem a Slow Horses, na sexta temporada na Apple TV, começa a ser publicada no Brasil

A sexta temporada de Slow Horses estreou na quarta-feira 16, na Apple TV+, e será disponibilizada semanalmente até 21 de outubro. A série de espionagem estrelada por Gary Oldman é um dos títulos mais premiados no serviço de streaming – recebeu troféus no Emmy e no BAFTA – e teve uma ótima recepção crítica ao longo das cinco temporadas anteriores.

Menos conhecida no Brasil, no entanto, é a obra que deu origem a tudo isso: a série de romances Slough House, do escritor britânico Mick Herron. Iniciada em 2010, a saga soma desde então nove romances, cinco novelas curtas e uma coletânea de contos. Os livros começaram a ganhar versões em português este ano, pela Editora Intrínseca, que lançou os dois primeiros títulos, Slow Horses e Leões Adormecidos.

Nos livros, a slough house, algo como casa pantanosa ou atoleiro, é uma subdivisão do MI-5 para onde são enviados agentes secretos que cometeram erros graves o bastante para justificar sua demissão, mas não graves o suficiente para que respondam judicialmente por eles.

Batizados informalmente de slow ­horses, ou pangarés em bom português, esses espiões fracassados e desacreditados ocupam um prédio caindo aos pedaços em Londres, isolado da sede reluzente do serviço oficial, em Regent’s Park. A rotina é deliberadamente humilhante: transcrever gravações telefônicas, digitalizar arquivos antigos, preencher relatórios que ninguém lerá, vasculhar o lixo de jornalistas decadentes.

Enquanto muitos autores britânicos do gênero trabalharam para o Serviço Secreto, Herron tirou tudo da própria imaginação

A ideia por trás do órgão é fazer com que os próprios agentes peçam demissão por tédio e evitem o desgaste político de uma dispensa formal da Inteligência. Cada personagem chega na Slough House por um motivo diferente – erro de vigilância, bebedeira em serviço, relatório sabotado por rivalidade interna, documentos secretos esquecidos num ônibus. Mas o destino de todos é o mesmo: viver à margem da carreira com a qual um dia sonharam.

À frente do grupo está Jackson Lamb, ex-agente de campo na Guerra Fria que hoje comanda a Slough House. Ele é grosseiro, sedentário e tem hábitos de higiene questionáveis. Trata os subordinados com desprezo e cinismo, mas, como bom personagem que é, carrega grandes contradições.

Lamb é a um só tempo o contraponto cômico e o centro moral da série: ele enxerga, sob a fachada do desastre, algum resquício de utilidade em seus pangarés. Por isso, volta e meia, entra em choque com Diana Taverner, vice-diretora da Inteligência, que prefere esquecer aquele antro de agentes supostamente incapacitados.

Diferentemente de outros autores britânicos dedicados à literatura de espionagem, como Graham Greene, Ian Fleming e John le Carré, que trabalharam, em algum momento de suas vidas, para a Inteligência britânica, Mick Herron nunca trabalhou para o Serviço Secreto.

Slow Horses. Mick Herron. Tradução: Camila von Holdefer. Intrínseca.

No prefácio de Slow Horses ele escreve sobre o retrato de agentes secretos feito a partir apenas da imaginação: “O fato de serem espiões significava que poderia inventar quantos detalhes quisesse, pois quase ninguém, tampouco eu, conhece a rotina de um espião”.

Por mais intrincadas que sejam suas histórias, Herron tem aquela capacidade dos bons escritores de entretenimento: prender o leitor como um hipnotista sem que, para isso, precise cair em qualquer tipo de oportunismo.

No que diz respeito à trama, a escrita do britânico funciona na chave superficial. Seu olhar para a geopolítica europeia é, no entanto, profundo e sarcástico. “Não sei de onde as ideias vêm ou como os enredos são construídos. Sei que a intuição pesa mais do que o planejamento”, diz, no prefácio.

Leões Adormecidos. Mick Herron. Tradução: Rita Paschoalin. Intrínseca.

Quando começou a escrever Slow ­Horses, em 2008, Herron era subeditor de uma publicação especializada em legislação trabalhista. Na volta do emprego, à noite, tirava pelo menos uma hora para escrever ficção.

Aquele era um momento no qual todos os britânicos estavam ainda impactados pelo clima político que tomou o país após os atentados no metrô de Londres. Em 2005, extremistas islâmicos coordenaram ataques ao transporte público, deixando um saldo de 52 pessoas mortas e mais de 700 feridas.

Herron se sentiu impelido a bolar uma trama de espionagem a partir do ponto de vista dos fracassados. Slow ­Horses chegou às livrarias em 2010. As vendas ficaram abaixo do esperado e a editora, a Constable, disse que não publicaria um segundo volume. Herron, no entanto, não se conformou com a negativa e foi bater em outras portas.

Foi por meio da editora norte-americana Soho Press que ele conseguiu emplacar a sequência, Leões Adormecidos, em 2013. O livro teve ótima repercussão: além de ter vendido bem, venceu o Gold Dagger, o mais famoso reconhecimento da ­Crime Writers’ Association, no Reino Unido.

A partir de 2015, já no embalo do terceiro volume, Real Tigers, os livros de Herron voltaram a ser publicados em seu país natal.

Depois do primeiro volume, a editora se recusou a publicar o segundo. Herron foi bater em outras portas e conseguiu publicar o segundo livro nos EUA. Hoje, são nove romances

Na altura da publicação do oitavo volume, Bad Actors, em 2022, estreou na Apple TV+ a série Slow Horses, desenvolvida pelo roteirista inglês Will ­Smith (não confundir com o ator estadunidense de mesmo nome) e com a dupla Gary ­Oldman e Kristin Scott Thomas garantindo o prestígio em meio a um elenco mais jovem igualmente notável.

Na adaptação, as peripécias dos pangarés são tão hipnotizantes quanto nos livros. É difícil desviar a atenção dos diá­logos afiados, das sequências de mistério e suspense e do humor espirituoso.

Há, porém, algumas diferenças importantes. Na série do streaming os agentes exilados são um tantinho menos desastrados. No roteiro, situações e personagens também têm seu protagonismo acentuado ou minimizado.

Herron já disse, em entrevistas, não ver problemas nesses ajustes. Ele entende que o espectador busca um tipo de identificação um pouco diferente daquela vivenciada pelo leitor e que alguns elementos do enredo precisam mesmo ser alterados em nome de uma estrutura mais fluida e circular.

O autor começou a criar a sua trama nas horas vagas, sob o impacto dos atentados ao metrô de Londres, em 2005 – Imagem: Jack Guez/AFP

Assim, ao longo das temporadas de Slow Horses, o espectador recebe mais informações imediatas do que o leitor. Alguns segredos trabalhados ao longo de vários livros surgem em cena já na primeira temporada. Nada disso impede a imersão nesse universo a um só tempo delirante e realista, abordado a partir de uma comicidade ácida.

O que se revela também um elemento central para o sucesso da adaptação é a presença do britânico Gary Oldman, ganhador do Oscar. Ele consegue tornar o personagem Jackson Lamb tão fascinante quanto desprezível. Ao mesmo tempo que maltrata seus pangarés, ele reconhece neles algum valor.

Um dia antes de disponibilizar a sexta temporada da série, a Apple TV – que já havia confirmado a sétima temporada – anunciou a oitava, que terá seis episódios e é uma adaptação de Clown Town, o nono romance da série de Mick Herron. •

Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pangarés e espiões’


Marcelo Miranda

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Fonte: Carta Capital

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