Por Murillo Ferreira PintoCarta Capital

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Amparar as mulheres com políticas estruturadas é a condição para garantir a proteção da infância

Enquanto o País discute o fim da escala 6×1, as mulheres seguem numa jornada mais árdua. Quando se somam trabalho pago e cuidado não remunerado, elas chegam a 58,1 horas semanais, ante 50,3 dos homens, segundo o Made-USP, o Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades. A diferença está no que não é pago: 21,3 dessas horas são de cuidado sem remuneração, quase o triplo das 8,8 horas dedicadas pelos homens. Uma jornada de sete dias, sem folga.

A economia do cuidado sustenta a economia como um todo, ainda que não apareça em uma linha do Produto Interno Bruto. O FGV-Ibre calculou, em 2023, que o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado equivaleria a 13% do PIB se entrasse na conta, mais que a agropecuária (6,1% em 2025). Cerca de dois terços são feitos por mulheres. É uma das maiores atividades econômicas do País, mas segue sem carteira assinada, sem férias e sem aposentadoria.

Existe ainda um Brasil de mães solo crescendo dentro do País. Entre 2012 e 2022, os lares chefiados por mães sem cônjuge aumentaram 17,8% e passaram de 9,6 milhões para 11,3 milhões, mais de um quarto das famílias brasileiras. Dessas mulheres, 72,4% moram só com os filhos. E os dados revelam profundas desigualdades raciais. Quase todo o crescimento do grupo na última década (90%) deu-se entre mães negras.

A mesma estrutura que empurra a mulher negra para a maternidade sem rede de apoio é aquela que antes lhe deu menos tempo de estudo. Entre as mães solo negras, só 8,9% chegaram ao ensino superior, ante 21,4% das brancas. Menos estudo significa piores empregos e salários, e a maternidade sem amparo reproduz a desigualdade de uma geração à outra.

Essa sobrecarga começa cedo. O estudo Escolhas Reais, Vidas Reais, da Plan ­International (2024), mostra que os padrões de cuidado são internalizados desde a infância: mais de 94% das meninas dedicam perto de cinco horas diárias a tarefas como cozinhar, limpar e cuidar de irmãos, enquanto meninos da mesma idade têm mais tempo livre. O custo aparece no abandono escolar. Pela Pnad Contínua Educação 2024, medida pelo IBGE, entre jovens de 14 a 29 anos que deixaram a escola, 23,4% citaram a gravidez e 9%, os afazeres domésticos. Somados, os dois motivos superam qualquer outro entre as adolescentes, ante apenas 0,8% entre os homens.

O artigo 227 da Constituição não deixa margem: assegurar a crianças e adolescentes, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à educação e ao desenvolvimento é dever do Estado, da família e da sociedade. Ainda assim, o Estado falha em garantir políticas integradas para as crianças e seus cuidadores, em especial às mulheres negras, pobres e mães de crianças com deficiência.

Em ano de eleição, é preciso perguntar a candidatos e candidatas o que oferecem às mães que proporcionam sozinhas o primeiro requisito para o desenvolvimento de uma criança: o cuidado

A creche é exemplo claro. Direitos da criança e apoio ao trabalho de cuidado chegaram a apenas 41,3% das crianças de zero a 3 anos em 2025, segundo o ­Anuário Brasileiro da Educação Básica, dez pontos abaixo da meta do PNE. Há um detalhe que diz muito: quando o cuidador tem emprego formal, a criança tem 32% mais chance de conseguir vaga. A creche que poderia apoiar a mãe em busca de trabalho fica menos acessível justamente a quem mais precisa.

Há avanços a reconhecer. As transferências de renda foram ampliadas para famílias com crianças e adolescentes, e veio a Política Nacional de Cuidados, com 25 bilhões de reais previstos até 2027. Falta o mais difícil: repassar dinheiro alivia o mês, mas é preciso integrar educação, saúde e assistência social para mexer na estrutura que gera vulnerabilidades.

Além disso, é urgente que estados e municípios, com apoio da União, também priorizem políticas de cultura, esporte e lazer para crianças e adolescentes, hoje deixadas de lado, desafogando parte do peso que recai sobre as famílias e as escolas.

Esse esforço de proteção anda ao lado de um movimento contrário. Ganham espaço propostas que tiram direitos em vez de garanti-los: reduzir a maioridade penal, militarizar a escola, proibir que se discuta gênero em sala de aula, baixar a idade mínima para o trabalho. Nenhuma divide o peso que hoje recai sobre uma mulher só, todas pesam sobre os mesmos meninos e meninas negros e pobres que essas mães criam sem rede de apoio.

Por isso, a quem quer governar o País e os estados, é preciso perguntar qual o compromisso concreto com a economia do cuidado. A resposta não pode ser mais cobrança das mulheres, mas política pública estruturada e com orçamento. A Agenda 227 apresenta propostas concretas: ampliar vagas de creche onde a vulnerabilidade é maior, com meta de 60% de cobertura para crianças negras de zero a 3 anos até 2028, vincular orçamento à primeira infância no PPA, assegurar avaliação biopsicossocial unificada para crianças com deficiência, e estruturar políticas integradas de renda, saúde e assistência social.

Cuidar de quem cuida é a condição para que a prioridade absoluta da criança saia do papel e vire política de Estado. •

*Paula Alegria é assessora em Advocacy e Direitos Sexuais e Reprodutivos e integrante da Agenda 227; Thalita de Oliveira é assessora política do Inesc e integrante do GT Fome, Pobreza e Desigualdades da Agenda 227.

Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Cuidar de quem cuida’


Paula Alegria


Thalita de Oliveira

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Fonte: Carta Capital

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