Por Emerson Barros de AguiarBrasil 247

Mano Brown criticando Lula. Sério mesmo? Criticar Lula é direito de qualquer cidadão, inclusive de quem já o apoiou. O problema não é esse. O problema é o momento.

O Brasil entra na reta decisiva de uma eleição que pode definir não apenas quem ocupará o Palácio do Planalto, mas que projeto de país prevalecerá nos próximos anos. A disputa está apertada: pesquisas recentes mostram Lula e Flávio Bolsonaro separados por margens estreitas, com levantamentos registrando empate técnico e até vantagem numérica de Flávio dentro da margem de erro.

É nesse cenário que a pergunta precisa ser feita sem delicadeza excessiva: Mano Brown está servindo a quem? Ao povo brasileiro? À periferia? Aos trabalhadores? Ou sua crítica a Lula, independentemente da intenção, termina fortalecendo o campo político que pode levar Flávio Bolsonaro à Presidência? Não estou dizendo que Mano Brown queira eleger Flávio. Não tenho como saber disso e seria intelectualmente desonesto atribuir-lhe uma intenção que ele não declarou. Estou perguntando outra coisa: quem se beneficia politicamente daquilo que Mano Brown está dizendo?

E isso importa porque a disputa não é apenas entre dois homens. Há projetos diferentes de política externa, de soberania e de relação com as grandes potências. Flávio Bolsonaro já tomou iniciativas diretamente relacionadas à política americana e chegou a enviar a Donald Trump um ofício pedindo que as tarifas contra produtos brasileiros fossem adiadas até depois das eleições. Também declarou que, se eleito, pretende estabelecer parcerias estratégicas de longo prazo com os Estados Unidos na área de terras raras e minerais críticos. São fatos. O resto é interpretação política, e cada brasileiro terá de fazer a sua.

Mas é justamente aí que a coisa fica séria. Porque soberania não é uma palavra bonita para ser pronunciada em palanque e esquecida quando aparece um cheque estrangeiro. O Brasil possui riquezas estratégicas, mercado interno, território, água, energia, alimentos, biodiversidade e minerais críticos que interessam às grandes potências. O governo Lula acaba de sancionar uma política nacional para minerais críticos e estratégicos que cria mecanismos para que o Estado tenha maior participação na análise de operações e parcerias internacionais nesse setor. Pode-se criticar essa política, evidentemente. Mas a disputa sobre quem controla e quem agrega valor a essas riquezas é concreta. Não estamos discutindo ficção científica.

Por isso, quando se fala em entregar o Brasil a Washington, é preciso separar a denúncia política do fato comprovado. Não há hoje fundamento para afirmar, como fato, que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro transformaria o Brasil formalmente em um protetorado dos Estados Unidos. Mas há elementos suficientes para discutir qual seria o grau de alinhamento de um eventual governo Flávio com Washington, especialmente diante de suas próprias declarações e iniciativas. E é precisamente aí que a palavra de figuras com enorme influência cultural, como Mano Brown, ganha peso.

Porque Mano Brown não é um comentarista qualquer. Ele construiu sua voz falando da periferia, da desigualdade, da violência, da exclusão, do racismo, da pobreza e das relações entre poder e dinheiro. Durante décadas, sua obra ensinou uma geração a desconfiar de quem aparece oferecendo salvação enquanto carrega a conta no bolso. Pois bem: que tal aplicar agora a mesma desconfiança ao próprio momento político?

Mano Brown é mano. Mas de quem? Essa não é uma pergunta sobre amizade pessoal. É uma pergunta política. É a pergunta que ele próprio deveria fazer diante do espelho: a quem serve minha palavra quando o país está diante de uma eleição dessa magnitude? Porque é possível criticar Lula, denunciar erros do governo, cobrar políticas sociais mais eficientes, questionar o PT e continuar sendo de esquerda. Tudo isso é legítimo. O que não parece razoável é fingir que o contexto eleitoral não existe e que toda crítica produz exatamente o efeito que seu autor imagina.

Política não funciona assim. Às vezes o sujeito dispara contra um adversário e acerta o caminho do inimigo. Às vezes pensa estar derrubando o governo e está apenas retirando uma pedra da estrada de quem pretende substituí-lo. E, na política, intenção não absolve consequência. O homem pode não querer entregar a casa ao comprador, mas, se passa o dia inteiro destruindo as paredes enquanto o comprador espera do lado de fora, alguém tem o direito de perguntar o que, afinal, está acontecendo.

É por isso que considero necessário perguntar se existe, nesse comportamento, uma espécie de entreguismo político involuntário. Não estou afirmando que Mano Brown seja entreguista por convicção. Estou dizendo que, se sua crítica ajuda a fortalecer uma candidatura que defende maior aproximação com Washington em temas estratégicos, então ele deveria, por coerência com a própria trajetória, perguntar se não está colaborando para um resultado contrário aos interesses que sempre afirmou defender.

E aqui aparece a palavra mais desagradável: pusilanimidade. Não no sentido de falta de coragem para criticar Lula, mas no sentido inverso: a coragem de atacar um governo não pode ser maior que a coragem de olhar para o projeto que está do outro lado. É muito fácil ser valente contra o poder que está diante de nós. Mais difícil é enfrentar o poder que pode vir depois. Mais difícil ainda é perguntar se a própria indignação não está sendo aproveitada por forças que o indignado talvez não reconheça como suas.

Mano Brown passou a vida perguntando quem manda. Pois então que faça a pergunta completa: quem manda depois? Quem controla as riquezas brasileiras? Quem define nossas alianças estratégicas? Quem decide o destino dos minerais críticos? Quem ganha e quem perde quando Washington aumenta sua pressão sobre Brasília? Quem paga a conta quando a soberania vira moeda de troca? E, principalmente, quem será beneficiado se a crítica a Lula contribuir para levar Flávio Bolsonaro ao Planalto?

Não estou pedindo que Mano Brown vote em Lula. Estou pedindo, retoricamente, que se pergunte o que sua posição produz. Há uma diferença entre independência e irresponsabilidade política. A primeira exige coragem para contrariar o próprio campo. A segunda pode nascer justamente quando alguém se recusa a enxergar as consequências do próprio discurso.

Porque esta eleição não é um concurso para saber quem consegue produzir a crítica mais elegante ao governo. É uma disputa concreta sobre o futuro do Brasil. E as pesquisas mostram que ela está longe de estar decidida. Se alguém acredita que Lula precisa ser derrotado, que diga claramente por quê e diga também que projeto pretende colocar no lugar. O eleitor brasileiro merece saber o pacote inteiro, não apenas a parte conveniente.

E se a resposta for Flávio Bolsonaro, então que se diga também o que isso significa em matéria de soberania, política externa e relação com os Estados Unidos. Flávio já deixou claro que pretende aprofundar parcerias com os americanos em áreas estratégicas. Isso pode ser apresentado por seus defensores como pragmatismo, integração econômica ou interesse nacional. Seus críticos podem interpretar de maneira completamente diferente. O que não se pode fazer é fingir que o tema não existe.

É justamente por isso que a pergunta a Mano Brown não é “você gosta de Lula?”. Isso é infantil. A pergunta é: qual Brasil você quer ajudar a construir? Um Brasil que negocia com as grandes potências preservando margem de autonomia ou um Brasil cuja política externa se aproxima ainda mais de Washington? Um Brasil que tenta agregar valor às próprias riquezas ou um Brasil que amplia a participação estrangeira em setores estratégicos? Um Brasil que pode ser criticado por seus defeitos ou um Brasil governado por um projeto que você conhece e considera melhor?

Mano Brown tem todo o direito de responder. Mas também temos o direito de perguntar. E a pergunta, por enquanto, continua sem resposta: Mano Brown é mano de quem?

Do povo brasileiro?
Da periferia?
Dos trabalhadores?
Ou, neste momento, sem perceber, está sendo mano de Flávio?

Eu realmente não sei. E talvez seja justamente esse o problema. Quando um homem constrói sua autoridade denunciando os poderosos, chega um momento em que ele também precisa perguntar a si próprio para onde está levando a multidão que aprendeu a ouvi-lo.

Mano Brown é mano. Mas de quem mesmo?

Fonte: Brasil 247

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