Calor extremo avança sobre Amazônia e acende alerta global
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Uma área de mais de 700 mil quilômetros quadrados no centro-norte da Amazônia, extensão equivalente ao território do Chile, registrou aumento de pelo menos 3,2 °C nas temperaturas extremas da estação seca desde 1981. A elevação, de no mínimo 0,75 °C por década, avança em um ritmo superior à média histórica da floresta tropical. Os dados integram um estudo publicado na revista Communications Earth & Environment por um grupo de 53 cientistas, que aponta o agravamento do déficit hídrico na porção do bioma mais distante do arco do desmatamento.
O fenômeno indica que o clima da floresta não muda de maneira uniforme. Enquanto o sul da Amazônia apresenta aquecimento médio acelerado, impulsionado pela perda florestal, é no centro-norte preservado que os extremos climáticos crescem com maior velocidade. Para os pesquisadores, essa dinâmica mostra que a alteração do bioma não pode ser atribuída apenas ao desmatamento local, evidenciando a influência direta das mudanças climáticas globais sobre ecossistemas considerados resilientes.
Para mapear o cenário, os cientistas dividiram a Amazônia em quadrantes de 11 quilômetros e aplicaram uma nova métrica de déficit hídrico, capaz de calcular o impacto do calor na perda de água da vegetação ao longo de quatro décadas. O estudo priorizou não apenas a média histórica, mas os picos de temperatura e estiagem. Segundo o pesquisador Jos Barlow, da Universidade de Lancaster e autor principal do artigo, o objetivo é entender o comportamento do ambiente quando as condições atingem seus níveis mais críticos, momento em que os danos são mais severos.
Impactos na biodiversidade e cenários futuros
O aumento das temperaturas altera a dinâmica da floresta e atinge a biodiversidade. Pesquisas anteriores demonstram que a estação seca amazônica, que durava em média quatro meses, já se prolonga por até um semestre em algumas regiões. O reflexo desse déficit hídrico foi registrado entre 2023 e 2024, quando a combinação de seca e ondas de calor resultou na morte de mamíferos e em um aumento de 19% nos alertas de degradação florestal por fogo. Liana Anderson, pesquisadora do Inpe e coautora do estudo, destaca que a deterioração ambiental afeta também os sistemas de produção de alimentos, a saúde pública e a economia.
A vulnerabilidade se concentra em uma região que abriga trechos de florestas nativas, savanas e territórios indígenas, como Yanomami, Waimiri-Atroari, Coatá-Laranjal e Trombetas-Mapuera. Luiz Aragão, também pesquisador do Inpe, ressalta que a área central e norte da Amazônia sofre poucos distúrbios causados pela ação humana, como as queimadas. A ocorrência de eventos climáticos extremos nessa localidade indica que as estratégias de adaptação e as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa precisam considerar esse novo padrão.
O cenário exige monitoramento diante da expectativa de que o atual fenômeno El Niño possa ser o mais intenso já registrado, com potencial para provocar novas secas na região. Com a confirmação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) de que o aquecimento global deve ultrapassar o limite de 1,5 °C nesta década, a pesquisa reforça a necessidade de o Brasil implementar de forma imediata suas políticas ambientais, focando tanto na redução do desmatamento quanto na execução de planos de transição energética limpa.
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Fonte: umsoplaneta