Sergio Moro e o paradoxo de uma candidatura antissistema que precisa da máquina pública

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Por Rodrigo MartinsCarta Capital

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Iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, da UFMG e do IEPI. Monitora grandes questões e elementos relativos às eleições e aos processos eleitorais. Contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros no financiamento e na divulgação

O ex-juiz tenta se associar ao governador Ratinho Jr., enquanto o PL e o Novo sustentam uma campanha que rejeita a ‘velha política’

Por Karolina Roeder*

No sábado 12, a Justiça Eleitoral do Paraná proibiu Sergio Moro de dizer, em propaganda eleitoral, que é aliado do governador Ratinho Junior desde 2018. A decisão atendeu a um pedido do próprio governador, irritado com uma peça em que Moro o agradecia como “nosso aliado em 2018 e 2022” e prometia dar continuidade às “grandes parcerias em obras nos 399 municípios do estado”.

Em outubro de 2018, Moro ainda era juiz federal titular da 13ª Vara Criminal de Curitiba, e uma aliança política feita por ele naquele momento era, nas palavras da juíza que proferiu a decisão, “juridicamente e constitucionalmente impossível”. Nessa, sou obrigada a concordar com Moro. Apesar da vedação legal, ele realmente fazia política enquanto ocupava a cadeira de juiz da Lava Jato, em outubro de 2018 e antes disso. 

Esse episódio, por menor que pareça, não é só uma estratégia de campanha ou um ato falho. É a expressão mais recente de um padrão que atravessa toda a trajetória pública de Moro. Ele nega ser político como estratégia eleitoral, mas exerce a política há mais de uma década, e essa negação é seletiva. 

Ele ataca a política feita pelos outros – o PT, a “velha política”, o que chama de “Centrão”, o PSD de Ratinho Jr. –, mas protege sua própria rede do mesmo escrutínio que aplica aos adversários. O cacoete de juiz ainda está presente, e quase ninguém escapa de seu julgamento moral. Ele parece esquecer que, agora, tem telhado de vidro.

Um dos slogans de campanha de Moro ao Senado pelo Paraná em 2022 era “ele não é político, mas quer mudar a política”. Ele exerce o cargo de senador pelo PR desde então, e o discurso antissistema permanece o mesmo, agora mirando a “velha política” na disputa pelo governo do Paraná, ao criticar o próprio Ratinho Jr., o mesmo governador a quem, em outros momentos, tenta se vincular. 

Mais do que retórica de campanha, isso reflete o modo como ele pensa a política. Profissionais que trabalharam diretamente com o ex-juiz descrevem um padrão de comportamento que vai ao encontro dessa negação pública: alguém que se comporta como se estivesse acima do jogo político, avesso a parcerias e ao diálogo. 

Em agosto, Moro e Deltan Dallagnol publicaram uma foto de camisetas estampadas com as frases “Curitiba prendeu, Brasília soltou” e “Eu prendi o Lula, o STF soltou”, com legenda na primeira pessoa do plural, reivindicando a prisão de Lula como um feito conjunto do então juiz e do então procurador da Lava Jato.

O “nós” confirma publicamente, sem nenhum constrangimento, o que as mensagens da “Vaza Jato” já haviam documentado e o que o próprio STF reconheceu ao declarar Moro suspeito no caso do triplex de Lula: que acusação e julgamento operaram como uma mesma equipe, com um mesmo objetivo. O alvo declarado sempre foi o PT, e não a corrupção.

Essa seletividade fica ainda mais evidente quando se olha para o próprio palanque de Moro. O imbróglio mais recente de Flávio Bolsonaro, a quem o candidato dá apoio declarado no Paraná, é que ele negociou por mensagens a transferência de US$ 24 milhões com o banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar um filme biográfico sobre o pai, chegando a receber ao menos R$ 61 milhões em repasses antes da prisão de Vorcaro.

Antes de as mensagens vazarem, Flávio negou publicamente qualquer contato com o banqueiro, chegando a chamar de mentiroso o jornalista que levantou o tema, para só depois confirmar a negociação. O senador, no entanto, escapa ileso ao julgamento do ex-juiz.

A contradição de Moro não é estar dentro do sistema, algo do qual ele nunca escapou, já que o Judiciário de onde veio é tão ou mais opaco que a política. Mas sim tratar a atividade política como crime quando é dos outros, e como virtude quando é sua. Como se ele falasse por todo o estado, e a discordância, natural em qualquer democracia, fosse tratada como delito. Ele discordar dos outros é democracia; os outros discordarem dele é crime.

A mesma seletividade aparece quando o assunto é o próprio bolso. Em uma entrevista recente, Moro foi questionado por ter recebido, durante anos como juiz, o auxílio-moradia mesmo tendo casa própria e residindo em Curitiba. Alegou que era prática comum entre magistrados, que tratavam o benefício como parte do salário, uma forma de driblar o teto constitucional que, em diversos meses, ele mesmo ultrapassou. 

Em outro momento, questionado por ter sido o senador que mais gastou no Paraná, mais de quatro vezes o valor gasto por um colega de bancada, cerca de R$ 1,6 milhão, alegou que estava viajando pelo estado, ouvindo os paranaenses e construindo o futuro plano de governo. Gastava dinheiro público para fazer campanha antecipada?

Essas contradições pessoais refletem um padrão maior na candidatura. Ela se apresenta como estranha ao sistema, mas depende dele inclusive para se sustentar. Sem aliados e sem compromisso com o que Moro chama de “Centrão”, a campanha precisa, ainda assim, emprestar a popularidade do governador mais aprovado do País. Foi esse mesmo oportunismo, disposto a se vincular a qualquer coisa que sirva de alavanca eleitoral, seja o bolsonarismo, seja Ratinho Jr., que o levou a tentar forjar a aliança que a Justiça Eleitoral acabou de proibir. 

A trajetória até aqui é uma sequência de vaivéns. Em 2022, Moro se lançou pré-candidato à Presidência pelo Podemos, mas nunca saiu da casa de 6% a 9% nas pesquisas, muito atrás de Bolsonaro e Lula. Trocou o Podemos pelo União Brasil sem avisar a própria presidente do partido, Renata Abreu, que soube pela imprensa e classificou a atitude como ingenuidade política. 

O novo partido não o queria, porém, como candidato à Presidência, e sim à Câmara pelo estado de São Paulo, condição que Moro aceitou antes de tentar, sem sucesso, migrar o domicílio eleitoral para lá. Acabou restando o Senado pelo Paraná. A vaga em São Paulo ficou com Rosângela Moro, eleita deputada federal pelo estado em 2022.

Em 2026, tentou de novo a via partidária, buscando o apoio da federação entre União Brasil e PP, batizada União Progressista. Mas o PP paranaense já estava fechado com Ratinho Jr., e o União Brasil não moveu forças para reverter o quadro. A candidatura só destravou quando o próprio Ratinho Jr. cometeu um erro de cálculo, lançando-se pré-candidato à Presidência e alarmando Flávio Bolsonaro, que contava com o governador para lhe garantir palanque no Paraná. 

Diante disso, o PL, via senador Rogério Marinho, convidou Moro para se filiar e disputar o governo do estado, convite que o ex-juiz aceitou sem pestanejar. Ratinho Jr. recuou da candidatura presidencial semanas depois, em meio a especulações sobre os repasses do Banco Master ao Grupo Massa, mas a essa altura Moro já havia trocado de partido e se tornado, ironicamente, um obstáculo à própria sucessão que o governador tentava construir. 

Foi assim que Moro se filiou ao PL por indicação de Flávio Bolsonaro, montou coligação com o Novo de Deltan Dallagnol e reuniu a família Francischini, hoje um dos clãs mais influentes da direita paranaense. E também foi assim, sem conseguir aproximar-se naturalmente do eleitorado governista, que tentou simplesmente inventar um vínculo com o governador que não o apoiou.

A eleição ao Palácio Iguaçu ajuda a entender se a gramática antissistema que elegeu Bolsonaro em 2018 ainda funciona quando seu adversário histórico, o PT, sai de cena. Pela primeira vez desde a redemocratização, o partido abriu mão de candidatura própria ao governo do estado e está apoiando Requião Filho, do PDT. 

Diferente do Rio Grande do Sul, o PT não indicou o vice e mantém um apoio discreto, já que o antipetismo é expressivo no estado e o apoio não ajuda muito o candidato. Sem petista na disputa nem como vice, a corrida ficou reduzida a duas direitas: a de Moro, personalista e construída sobre o capital simbólico da Lava Jato, e a da sucessão de Ratinho Jr., que joga suas fichas em Sandro Alex, deputado federal e ex-secretário de Infraestrutura pouco conhecido do grande público. 

Essa disputa entre direitas explica por que Moro busca pegar emprestada a imagem de Ratinho. Moro lidera todas as pesquisas do ano, em alguns institutos com mais de 20 pontos de vantagem, mas seu discurso de ruptura com a política tradicional perde força justamente entre o eleitorado que hoje sustenta o governo mais aprovado do Paraná em décadas, o de Ratinho Jr., hoje com quase 80% de aprovação.

A tentativa de Moro de se apropriar do nome de Ratinho é sintoma de uma questão estrutural da candidatura antissistema. Ela vive de um paradoxo: para vencer, precisa de um discurso de ruptura com tudo que cheira a máquina, acordo e continuidade administrativa. Mas para crescer além do próprio núcleo, precisa também da legitimidade que só a máquina pode conferir. 

Do lado de Ratinho Jr., a lógica é diferente. Ele chegou ao governo em 2018 surfando a mesma onda anti-establishment que elegeu Bolsonaro, mas não manteve essa retórica ao longo da gestão. O foco de seu grupo ficou nas questões locais, não na cruzada moral, ainda que tenha encampado pautas caras ao bolsonarismo, como a militarização das escolas.

Sandro Alex tenta herdar essa gramática, mas chegou tarde à disputa. Foi escolhido apenas em abril, depois que o primeiro nome cotado por Ratinho caiu numa investigação de fraude em licitação, e passou meses estagnado em torno de 10% nas pesquisas, em um campo fragmentado que perdeu Alexandre Curi para o Republicanos e Rafael Greca para o MDB antes de recuperá-lo como vice.

É por isso que a disputa pelo segundo lugar, mais do que a liderança confortável de Moro, é o indicador mais interessante desta eleição até agora. Os números de setembro mostram uma briga embolada entre Sandro Alex e Requião Filho, com resultados que mudam entre institutos. 

A Real Time Big Data, divulgada em 11 de setembro após uma liminar que atrasou sua publicação, mostra Sandro Alex com 25% contra 21% de Requião Filho. A IRG, do início do mês, já havia colocado Alex à frente pela primeira vez no ano, 27% a 21,8%. Já a Neokemp e a Paraná Pesquisas, no mesmo período, mostram o oposto, com Requião ainda em segundo. 

Das últimas cinco rodadas de pesquisa, Sandro Alex aparece na frente em três, uma diferença grande demais entre institutos para ser só ruído estatístico. O movimento geral, no entanto, é claro: a candidatura governista cresce e disputa de igual para igual um posto que até agosto parecia consolidado nas mãos da oposição de esquerda.

Há ainda a questão da governabilidade de um futuro governo Moro. PL e Novo somados não devem alcançar mais de um quarto das cadeiras na Assembleia Legislativa. Um eventual governo Moro nasceria minoritário, dependente de negociação com uma classe política que ele mesmo recusa a validar.

O episódio da aliança fabricada, por menor que pareça, condensa bem essa tensão: uma candidatura que precisa, ao mesmo tempo, negar e reivindicar a legitimidade da máquina que promete varrer. É a mesma contradição do início. Moro continuará fazendo política, como sempre fez e sempre negou fazer, enquanto o discurso segue dizendo o contrário.

Faltam menos de três semanas para o primeiro turno. Se o padrão dos últimos institutos se confirmar, outubro pode mostrar que a distância entre Moro e seus adversários é menor do que a liderança folgada de hoje sugere. A gramática antissistema segue forte no topo, mas perde fôlego quando tenta se apropriar, sem sucesso, do capital político de quem ela mesma se propõe a substituir. 

Talvez essa tensão importe mais para quem analisa a eleição do que para quem vota nela. Boa parte do eleitorado que aprova Ratinho Jr. também vota em Moro sem se incomodar com as suas contradições. A hipocrisia de uma candidatura antissistema que precisa da máquina para vencer é um problema de coerência discursiva, não um critério que pesa na cabine de votação. Resta saber se, eleito e à frente de um governo, Moro continuará dizendo que não é político.

*Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná, professora e pesquisadora.

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Fonte: Carta Capital

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