Governo Lula deu resposta firme às “exigências” dos EUA para as eleições
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O governo do presidente Lula (PT) rejeitou sumariamente incluir nas negociações comerciais com os Estados Unidos uma exigência formulada pela gestão de Donald Trump referente à participação de supostos “dissidentes políticos” nas eleições presidenciais brasileiras deste ano, informa o jornal O Globo. A tentativa de ingerência norte-americana constava de um documento entregue a representantes diplomáticos do Brasil em outubro de 2025, reunindo 21 demandas em meio aos diálogos sobre o tarifaço imposto contra os produtos nacionais.
A lista de exigências foi apresentada após Washington aplicar uma sobretaxa de 50% sobre bens de exportação brasileiros. Um dos pontos do documento estabelecia que o Brasil deveria se comprometer formalmente a realizar eleições presidenciais “livres e justas”, além de não deter, prender ou limitar “arbitrariamente” a atuação e a disputa eleitoral de “dissidentes políticos”.
A posição adotada pelas autoridades brasileiras foi a de recusar integralmente que assuntos de ordem política, soberana e institucional interna fizessem parte de tratativas comerciais entre as duas nações. Em virtude dessa postura firme, o texto norte-americano não foi acolhido e nem incorporado às negociações oficiais conduzidas pelos governos.
Ao anunciar a imposição do tarifaço em julho do ano passado, Trump havia associado publicamente a decisão ao tratamento dado pela Justiça brasileira a Jair Bolsonaro (PL), seu aliado, que na época respondia a uma ação penal por tentativa de golpe de Estado. Bolsonaro foi condenado em setembro pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Embora o documento de 21 pontos não citasse nominalmente o ex-mandatário, o teor da exigência dialogava diretamente com a sua situação política.
Além das menções ao processo eleitoral, o relatório do governo Trump apresentava exigências sobre a liberdade de expressão e sobre as decisões da Justiça brasileira que envolvia a atuação de plataformas digitais. O texto trazia também condicionantes relacionadas ao cumprimento de sanções financeiras impostas unilateralmente pelos Estados Unidos. Uma dessas cláusulas previa que o Brasil não aplicasse punições a instituições financeiras nacionais que acatassem medidas restritivas norte-americanas, no âmbito das discussões sobre a legislação extraterritorial conhecida como Lei Magnitsky.
Durante o período de apresentação do documento, Washington vinculava abertamente as tarifas impostas ao Brasil aos desdobramentos judiciais envolvendo Bolsonaro e às ordens do STF dirigidas às empresas de tecnologia dos EUA. Em contrapartida, o governo Lula acusava publicamente as autoridades norte-americanas de interferir nos assuntos internos do país e de instrumentalizar medidas de comércio internacional como mecanismo de coerção e pressão política.
Sem a incorporação das demandas políticas impostas pelos Estados Unidos, as negociações bilaterais prosseguiram. Em novembro, o Brasil encaminhou a Washington uma contraproposta delimitando exclusivamente os temas econômicos que aceitava discutir. Os dois países seguem em tratativas, havendo a previsão de uma nova rodada de conversas para o fim deste mês, à margem da reunião do G20.
A sobretaxa original que motivou o impasse consistia em uma alíquota adicional de 40% anunciada por Trump em julho do ano passado que, somada à taxa de 10% então em vigor, elevou para 50% a cobrança sobre parte das exportações brasileiras. Embora a medida tenha sido derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos em fevereiro deste ano, Washington voltou a aplicar novas sobretaxas ao Brasil meses depois, justificando a decisão com alegações ligadas a práticas comerciais consideradas desleais, a questões ambientais e à atuação do país no combate ao crime organizado.
Fonte: Brasil 247