Marina Silva é o principal alvo de ofensas contra candidatas no X

0

Por Jeniffer MendonçaNúcleo Jornalismo

⚠️ Aviso: a reportagem abaixo contém trechos de conteúdo misógino, racista e transfóbico. Optamos por não censurá-los porque achamos importante exemplificar como a violência política contra mulheres se espalha pelas redes. Marina Silva é o principal alvo de ofensas contra candidatas no X

Marina Silva (Rede), que concorre ao Senado por São Paulo, é o principal alvo de ataques e insultos contra candidatas no X, segundo levantamento do MonitorA. Ela concentrou 32% das 1.318 ofensas coletadas pelo projeto na rede social entre 16 e 24.ago.2026. No total, candidatas ao Senado Federal foram alvo de seis em cada 10 comentários ofensivos identificados no período.

📊 MonitorA é o observatório de violência política de gênero nas redes sociais durante as eleições, realizado pelo InternetLab em parceria com o Núcleo Jornalismo e o Instituto Democracia em Xeque. Esta é a quarta edição do projeto, fundado em 2020 com a participação do Instituto AzMina.

Marina Silva é o principal alvo de ofensas contra candidatas no X

O conteúdo ofensivo direcionado à Marina reflete casos de misoginia, sobretudo em ataques à sua aparência, e desumanização, ao associá-la a figuras como “tartaruga”, “ET”, “rata”, “parasita” e “vagabunda”.

Os comentários, tanto em texto quanto em uso de imagens, também se destacam pelo etarismo, com ofensas como “múmia” e “velha”, inferiorização e discriminação regional, como “volta para o Acre” e “o que esta parasita sabe sobre o estado de SP?”, a fim de desqualificar sua presença e legitimidade na disputa pelo cargo por São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

A deputada federal Bia Kicis (PL-DF), que tenta uma vaga no Senado pelo Distrito Federal, aparece em terceiro lugar no ranking geral de ofensas recebidas no X e em segundo entre as candidatas ao cargo, concentrando 11% das interações agressivas. Ela também foi alvo de comentários misóginos, com xingamentos como “vaca”, “louca” e “vagabunda”.

Marina Silva é o principal alvo de ofensas contra candidatas no X

Para a coordenadora do InternetLab, Catharina Vilela, o Senado se tornou mais um espaço de amplificação das ofensas à medida que mais mulheres estão almejando um cargo que é estratégico na disputa eleitoral. “Essa foi a primeira eleição desde 2014 que a gente tem mulheres candidatas ao Senado em todos os estados do Brasil”, explica.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 69 mulheres disputam o cargo nas eleições deste ano, representando um aumento de 19% em relação a 2022, quando esse número foi de 58.

Marina Silva é o principal alvo de ofensas contra candidatas no X

Como o MonitorA analisa os comentários

Para este primeiro levantamento, foram analisados 6.124 comentários publicados nos perfis de 60 candidatas mulheres e 27 candidatos homens no X, no YouTube e no TikTok, publicados entre 16 e 24.ago.2026. Além dos comentários feitos em texto (3.563), a edição de 2026 incluiu a análise de imagens (2.561), como memes, montagens e outros recursos visuais.

A amostra dos perfis se deu em relação àqueles que receberam mais de 100 comentários e que traziam termos potencialmente ofensivos no período.

Para isso, foi coletada uma amostra de 30% dos comentários deixados nas postagens monitoradas. Após a coleta, o conteúdo foi filtrado com base no léxico do MonitorA , uma lista de termos e palavras potencialmente ofensivas construída e aprimorada pela equipe do projeto ao longo de suas diferentes edições. Nesta etapa, o léxico reúne 321 termos.

Não foram incluídos os perfis de presidenciáveis devido ao volume maior de comentários. O MonitorA ainda fará uma avaliação sobre o Instagram.

Outra novidade é que observatório também passou a separar os comentários negativos em duas categorias:

insultos : conteúdos que utilizam linguagem hostil e mais dura do que uma simples crítica, mas que não mobilizam diretamente desigualdades relacionadas a gênero, raça, região, religião ou sexualidade. São ofensas que, em princípio, podem ser direcionadas de forma semelhante a diferentes grupos e, por isso, não são consideradas pelo MonitorA como conteúdos que necessariamente deveriam ser removidos pelas plataformas.

ataques: caracterizam-se pela tentativa de inferiorizar candidatas e candidatos com base em características associadas a grupos historicamente marginalizados. Nesses casos, as ofensas mobilizam marcadores como gênero, raça, orientação sexual, identidade de gênero, deficiência, religião ou outros elementos utilizados para deslegitimar e desmoralizar determinados grupos. Por seu caráter discriminatório, consideramos que esses conteúdos deveriam ser removidos pelas plataformas.

A análise manual, tanto dos comentários em texto quanto das imagens, avaliou: (i) se o conteúdo era negativo; (ii) a quem era adicionado; (iii) caso fosse negativo, se era ofensivo contra a candidata; (iv) se fosse ofensivo, se era insulto ou ataque; e (v) caso fosse ataque, qual tipo. Um mesmo comentário poderia conter mais de uma ofensa.

Todos os comentários coletados foram analisados manualmente por sete pessoas da equipe.

Já entre as postulantes a uma cadeira na Câmara dos Deputados, a deputada federal Erika Hilton (Psol-SP), que busca a reeleição, concentra 23% dos comentários ofensivos no X, dos quais 75% eram de cunho transfóbico. É a candidata que recebeu mais ataques e insultos depois de Marina Silva.

As agressões utilizavam o nome morto da parlamentar e pronomes masculinos para descredibilizar sua identidade de gênero, além de uso de trocadilhos e termos que remetem a órgãos genitais masculinos, como menção a ovos, por exemplo, como forma de chacota e humilhação.

Isso significa que parte dos ataques identificados não depende do uso de palavras explicitamente ofensivas. Vilela aponta que essa pode ser uma estratégia para encontrar brechas na moderação de conteúdo. “É um desafio grande de moderação porque exige uma percepção muito clara do contexto em que aquilo está sendo aplicado”, sinaliza.

O que diz a lei

Em 2025, o Supremo Tribunal Federal declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet e estabeleceu novos parâmetros para a responsabilização das plataformas por conteúdos publicados por terceiros. Entre as mudanças está a introdução do dever de cuidado em situações de falha sistêmica relacionadas a determinados conteúdos ilícitos graves, incluindo crimes de ódio e violência de gênero.

Em 2026, esse processo ganhou um novo capítulo com o decreto nº 12.976 , publicado em maio e em vigor desde 20 de julho, que estabelece diretrizes específicas para a proteção das mulheres na internet e para o enfrentamento da violência contra as mulheres no ambiente digital. A norma detalha os deveres das plataformas relacionados à prevenção, identificação e indisponibilização de conteúdos ilícitos contra mulheres e estabelece parâmetros para sua responsabilização em casos de falha sistêmica.

Em resolução publicada em mar.2026, o TSE proibiu a veiculação de postagens que proliferem  violência política contra a mulher durante nas eleições. Ainda que o uso de deepfakes já fosse vedado na resolução de 2024, o tribunal passou a deixar claro que isso também inclui a criação de deepfakes sexuais e de nudez de candidatos e candidatas e de peças de publicidade geradas por IA que promovam violência política contra a mulher.

O X se destacou entre as plataformas analisadas como o que mais concentrou comentários negativos às candidatas. De acordo com Vilela, a dinâmica de funcionamento da plataforma associada historicamente a uma falta de moderação podem indicar essa hostilidade. “O X tem um pouco mais essa proximidade com quem fez aquela publicação, permite mais troca e atrai pessoas que estão ali para discordar de você para fazer comentários negativos”, afirma.

Isso não significa que as demais plataformas monitoradas sejam mais eficazes na moderação. No YouTube, 71% dos comentários ofensivos dirigidos às mulheres monitoradas tiveram como alvo candidatas ao Senado, com Simone Tebet (PSB) aparecendo como a candidata mais atacada na plataforma. Aparecem trocadilhos com seu sobrenome, como “estepe”, e ofensas de desumanização, como “cobra”. Ela, assim como Marina Silva, disputa uma cadeira por São Paulo.

Termos mais usados em agressões online contra candidatas

vergonha
corrupta/corrupção
mentirosa/mentir
misgendering*
merda
lixo
inútil
velha
ladrão/ladra
hipócrita/hipocrisia
canalha
oportunista
esquerdista/esquerdopata/esquerdalha
tartaruga/tartaruguinha
bosta
vitimismo/vítimista/vitimização
travesti/traveco/travecão
parasita
vagabunda/vagaba
nojenta/nojo
filho da puta/fdp
et
satanás/satanás de saia
bandida
mau caráter
quadrilha
tomar no cu/cu

*O termo misgendering não foi usado diretamente nos comentários. Essa foi a categoria que usamos para classificar casos em que o gênero masculino era usado para se referir a candidatas trans.

Fonte: Levantamento MonitorA. • Período de monitoramento: 16.ago.2026 a 24.ago.2026.

No TikTok, por sua vez, Benedita da Silva (PT), também postulante ao Senado no Rio de Janeiro, foi a mulher que mais recebeu comentários ofensivos entre as candidatas monitoradas. No caso dela, o MonitorA verificou insultos com viés de raça, ou seja, comentários que relativizam a importância das desigualdades raciais ou rejeitam a mobilização da raça por candidatas negras, frequentemente por meio de expressões como “independentemente da cor” ou pela caracterização desse debate como “vitimismo”.

Catharina Vilela, do InternetLab, aponta que essa é uma estratégia semelhante ao do caso da deputada Erika Hilton, em que o conteúdo ofensivo é menos explícito, mas mobiliza a dimensão racial como parte da desqualificação da candidata. Por outro lado, o levantamento também identificou ataques diretos em relação à raça, gênero e idade de Benedita, como “negra filha da puta”, “múmia” e “negra velha”, inclusive com uso de imagens geradas por inteligência artificial, não só no TikTok, mas também nas demais plataformas analisadas.

Com relação aos candidatos homens, o vereador Pedro Rousseff (PT), sobrinho-neto de Dilma Rousseff, e postulante a uma vaga de deputado federal por Minas Gerais, foi o candidato que mais concentrou comentários ofensivos tanto no X (32%) quanto no TikTok (39,6%).

Os conteúdos direcionados a ele foram marcados principalmente por ataques de teor homofóbico e misógino, a exemplo de ofensas como “putinha do PT”, “chupador de rola” e “viadinha nojenta”, além de tentativas de inferiorização e questionamento de sua capacidade intelectual.

Os conteúdos ofensivos também costumam fazer referência ao parentesco com a ex-presidenta a fim de desqualificar sua trajetória, capacidade e legitimidade políticas, como “sobrinha da estocadora de vento”, “como você pode ser tão medíocre? só pode ser genético”, “bosta, arrombando, filhote de puta, sua tia vagabunda fudeu o Brasil”, entre outros.

A pesquisadora destaca como a violência política de gênero extrapola os alvos originais. “A gente está falando de uma pessoa que também escolheu a vida política, mas que é da família dela, e até hoje está sendo atacada. Essa vinculação e por não ser um homem heterossexual são marcadores mobilizados como uma forma de violência”, avalia Vilela.

Reportagem Jeniffer Mendonça
Arte Rodolfo Almeida
Edição Alexandre Orrico

Fonte: Núcleo Jornalismo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *