Em debate na FPA, Ravi Ahuja, historiador indiano, aponta “virada autoritária” e crise do emprego na Índia

0

Por oteroFundação Perseu Abramo

O professor Ravi Ahuja, do Centro de Estudos Indianos Modernos (CeMIS) da Universidade de Göttingen, na Alemanha, foi o convidado da roda de conversa “Passado, presente e futuro da Índia”, promovida pela Fundação Perseu Abramo (FPA). O diálogo aconteceu na terça-feira (15), no auditório Antonio Candido, com mediação de Alexandre Macedo de Oliveira, diretor da fundação.

Historiador do trabalho e especialista em história social da Índia, Ahuja veio ao Brasil a convite de uma conferência de história do trabalho. “Eu tenho trabalhado com historiadores brasileiros há muitos anos. Temos muitos interesses comuns quanto à história do trabalho, à questão do trabalho livre e formal, e também à história da legislação e regulação do trabalho”, explicou. Antes de se tornar acadêmico, foi operário industrial, organizador sindical e ativista político — o que, segundo ele, o faz sentir-se “em casa” em uma fundação partidária.

Doze anos de “virada autoritária”

Ahuja abriu sua exposição com um contraste: a Índia ainda é celebrada como “a maior democracia do mundo”, mas vive, desde 2014, uma “virada autoritária aguda”. “Os atos democráticos foram revertidos, as instituições da democracia parlamentar e a lei foram subvertidas”, afirmou. Para ele, a Índia é “um dos casos mais sérios e desenvolvidos” dessa tendência global, com 12 anos de impulso autoritário ininterrupto.

Em 2014, o Partido Bharatiya Janata (BJP), uma formação hindu-chauvinista de direita, venceu as eleições gerais. Narendra Modi tornou-se primeiro-ministro e foi reeleito em 2019 e, novamente, em 2024. O BJP substituiu o Congresso Nacional Indiano como partido dominante, tanto em votos quanto em recursos. “O BJP é a arma política de uma organização religiosa fascista”, disse o professor, referindo-se à RSS (Rashtriya Swayamsevak Sangh), fundada em 1925 — década em que, segundo ele, várias organizações fascistas paramilitares surgiram no mundo, tomando o fascismo italiano como exemplo.

“A diferença é que a organização ainda existe hoje, é muito influente, tem uma enorme rede de instituições educacionais que oferecem educação gratuita também para crianças pobres, e ainda está organizada de forma paramilitar”, observou. Modi e seu ministro do Interior, Amit Shah, começaram suas carreiras na RSS. Para Ahuja, o BJP é hoje “uma união de um partido de extrema direita, a RSS, com tecnocratas neoliberais autoritários” que antes integravam o Congresso.

Foto: Audiovisual FPA

Esquerda em declínio

Questionado pela plateia sobre a força dos movimentos sociais e a organização popular, o professor reconheceu a fraqueza da esquerda indiana. “A esquerda comunista está em declínio desde a perda catastrófica de sua maior fortaleza, o Bengala Ocidental, um grande estado que governou por 37 anos”, disse. O estado foi perdido em 2011, após o envolvimento do governo local na criação de uma Zona Econômica Especial que derrubou sua credibilidade.

Em abril de 2026, o BJP conseguiu assumir o poder justamente no Bengala Ocidental — algo que “poucas pessoas poderiam ter imaginado”, dada a cultura política do estado. Antes da eleição, 9 milhões de eleitores, ou 12% dos 76 milhões do estado, foram removidos do registro eleitoral. “Isso pode ter influenciado o resultado substancialmente”, afirmou. A remoção, segundo ele, faz parte de uma revisão nacional dos registros: sua estimativa é de que 150 milhões de eleitores tenham sido retirados em todo o país, e em Delhi, cidade comparável a São Paulo, mais de 30% do eleitorado deve ser excluído.

O professor apontou um viés claro nesse processo: muçulmanos, trabalhadores migrantes — cerca de 200 milhões de pessoas, “a população do Brasil” — e inquilinos são os mais atingidos. “Há um viés de comunidade religiosa, mas também um viés de classe muito evidente na exclusão.”

A informalização do trabalho

Especialista no tema, Ahuja dedicou parte da conversa à informalização do trabalho, que considera “um processo importante” e central para entender a Índia. “Convencionalmente, diz-se que apenas cerca de 10% do trabalho é protegido pela lei do trabalho”, explicou. A informalização, em curso desde os anos 1980, fez com que até mesmo a maior parte dos empregados do setor formal se tornasse informal.

Para ele, a informalidade não é um resquício histórico, mas algo “produzido” por políticas, legislação e regulação. “Não é que a informalidade seja um resquício histórico, algo herdado do passado; ela está sendo criada por meios formais”, argumentou. Durante a pandemia de Covid, em 2020, o governo conseguiu consolidar a legislação trabalhista em cinco códigos, retirando direitos judiciais dos trabalhadores — algo que governos anteriores tentaram, sem sucesso, desde o fim dos anos 1970.

O professor lembrou a grande derrota do movimento sindical nos anos 1980, com a greve de 250 mil trabalhadores têxteis em Mumbai, que terminou com a desindustrialização do setor — um marco comparável, disse, ao ABC paulista. “As organizações de trabalhadores têm um desafio muito, muito difícil pela frente e precisam encontrar soluções.”

Foto: Audiovisual FPA

O movimento das “baratas”

O ponto alto da exposição foi o movimento de jovens que emergiu em junho e julho de 2026, os chamados “protestos das baratas”. O nome surgiu de uma fala do chefe da Justiça indiana, um juiz ultraconservador, nomeado pelo governo, que se referiu aos jovens desempregados como “baratas”. “Isso começou como uma espécie de piada: alguém disse ‘então nós também somos baratas’ e recebeu uma resposta totalmente inesperada”, contou.

O estopim, segundo ele, foram os vazamentos de provas de concursos públicos, que exigem anos de preparação e grande investimento por parte das famílias. “Quando as provas são publicadas antes, toda a preparação foi em vão”, explicou. Mas o movimento foi muito além: 65% da população indiana — dois terços de 1,4 bilhão de pessoas — têm menos de 35 anos, e 40% dos graduados estão desempregados. “A solução neoliberal que dizia ‘se você tem boa educação, vai encontrar um bom trabalho’ mostra-se visivelmente prejudicada.”

Para Ahuja, o mais significativo foi o “fim do medo”. “O que havia sido estabelecido por muito tempo era um reino do medo. Modi não podia ser criticado publicamente sem consequências. Agora você encontra garotas de 15 anos que criticam fortemente, até ridicularizam, o primeiro-ministro.” O governo, pela primeira vez, ficou “fora de vista”, porque os manifestantes eram “os filhos de seus próprios eleitores”, não os dissidentes que costumava perseguir.

Mulheres e trabalhadores

O professor destacou o papel das mulheres e dos trabalhadores nas resistências recentes. Em 2020, “muitas mulheres muçulmanas”, lutaram pela proteção dos direitos de cidadania contra o ataque administrativo do governo. Em 2020, 2021 e 2024, agricultores do noroeste protestaram de forma militante contra a privatização da comercialização de produtos. E, em março de 2026, o fechamento do Estreito de Ormuz elevou o custo de vida — sobretudo do gás de cozinha, item crucial para trabalhadores migrantes — e levou às ruas, pela primeira vez, trabalhadores de primeira geração e não sindicalizados.

“Foi significativo que isso tenha rompido a divisão entre formal e informal, que era um grande impedimento para a mobilização democrática vinda de baixo”, avaliou. Ainda assim, ponderou: “permanecerá a fraqueza política e organizacional dos partidos de esquerda, dos três partidos comunistas, da oposição em geral, incluindo o Congresso, e dos sindicatos.”

Foto: Audiovisual FPA

BRICS e o olhar sobre o Brasil

Sobre os BRICS, Ahuja foi direto: “não há muita coesão política, há apenas coesão negativa”. Para ele, o governo indiano atual gostaria de uma aliança com os Estados Unidos, mas não consegue obtê-la, e por isso se vê “forçado, ironicamente, a continuar a política externa” de equilíbrio entre blocos. A única grande mudança, apontou, foi a aproximação com Israel, em contraste com governos anteriores, “muito mais simpáticos à Palestina”.

Ao encerrar, o professor deixou uma avaliação cautelosa sobre o futuro. “Nenhum prognóstico confiável é possível no momento. Mas o que antes parecia um processo concluído de revisão autoritária dos ganhos dos movimentos democráticos e trabalhistas do século 20 parece agora muito menos claro. A enorme centralização do poder nas mãos do primeiro-ministro e de seu círculo parece tê-los tornado vulneráveis.”

A palestra vai estar disponível no YouTube da FPA. Na próxima quarta-feira, dia 23, o Janela Internacional trará uma entrevista exclusiva com o professor.

Fonte: Fundação Perseu Abramo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *