Em encontro com pastores, Lula defende separação entre política e religião: ‘comitê eu faço na rua, não na igreja’
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O presidente Lula (PT) defendeu com firmeza a separação entre a atuação política e o exercício da fé durante um discurso realizado nesta quarta-feira (16), no Palácio do Planalto, em encontro com pastores evangélicos do Brasil — integrantes da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito — e de convidados vindos dos Estados Unidos e de Cuba.
Na reunião, que contou com a presença da primeira-dama Janja Lula da Silva, de autoridades como a senadora Zenaide Maia e de lideranças religiosas, o chefe do Executivo enfatizou o respeito à laicidade do Estado e garantiu que se recusa categoricamente a utilizar recintos religiosos para a promoção de campanhas eleitorais.
“A religião para mim é uma coisa sagrada. Eu me recuso, toda vez que pede alguém para ir numa igreja falar de política, eu não vou. Eu não vou porque eu respeito muito a fé das pessoas, respeito muito o compromisso individual que cada pessoa tem com Deus. Então não me convide para ir numa assembleia fazer um comitê que eu não vou. Não vou nem da católica, nem da evangélica, porque eu respeito a fé das pessoas. Se eu quiser fazer política e comitê, eu faço na rua. Mas na igreja eu não faço, em nenhuma igreja, porque eu acho que cada ser humano tem que ter o seu momento de paz para conversar com Deus”, afirmou o presidente.
Ao abordar o panorama eleitoral do país, o mandatário declarou que o povo brasileiro decidirá de forma soberana o tipo de governo e de democracia que deseja. Ele ressaltou que já alertou o presidente norte-americano Donald Trump a não interferir no pleito nacional e exaltou a lisura do sistema eletrônico de votação. Lula pontuou que sua própria trajetória política — marcada por derrotas no segundo lugar em 1989, 1994 e 1998, e por vitórias em 2002, 2006 e 2022, além dos pleitos vencidos pelo PT em 2010 e 2014 — é a prova mais cabal da segurança das urnas brasileiras.
“E eram eles que estavam no governo, eram os que negam a urna. São os que negam a democracia que dizem que a urna não é válida. Eles estavam no poder e agora estão na cadeia porque tentaram dar um golpe de Estado”, ressaltou, em alusão aos golpistas e à tentativa de subversão democrática.
Liderança humanista, desigualdade e crítica às potências mundiais
Ao longo de sua exposição aos pastores e pastoras, Lula externou profunda preocupação com o cenário geopolítico mundial, destacando o que classificou como uma ausência generalizada de lideranças com sensibilidade humanista e a persistência de assimetrias históricas enfrentadas por populações vulneráveis na América Latina, Ásia e África.
“Governar não é atender o de sempre, governar é atender aquela parte da sociedade que durante séculos foram tidas como invisíveis na sociedade. São aquelas pessoas que são tratadas como números e não como seres humanos, pela cor, pelo berço que nasceu, pela religião que professa e pelo tipo de política que acredita. O mundo não tem mais liderança que a gente possa chamar de liderança humanista”, discursou.
O presidente lembrou que cumpriu seu compromisso de governo ao retirar o Brasil do Mapa da Fome em 2014, meta que voltou a ser priorizada ao reassumir o poder em 2023, quando encontrou 33 milhões de pessoas desnutridas e conseguiu reverter a situação em dois anos e meio de gestão. Todavia, alertou que a injustiça social vai além da escassez de alimentos e abrange disparidades no acesso à educação, saúde, justiça e na atitude perante manifestações de preconceito racial e social.
Lula criticou duramente os crescentes gastos com conflitos bélicos internacionais, citando a guerra entre Rússia e Ucrânia, a invasão militar dos Estados Unidos no Irã e a crise humanitária decorrente do genocídio liderado pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza. O presidente relembrou as consequências econômicas diretas do bloqueio ao estreito de Ormuz — com a elevação dos preços dos combustíveis, da comida e dos fertilizantes — destacando que o custo do bélico sempre recai sobre as populações mais pobres.
“O mundo inteiro gastou, no ano passado, quase US$ 3 trilhões em armas. E quanto se gastou em alimentos? Quanto se gastou em saúde? Quanto se gastou com a educação?”, indagou, defendendo que os recursos deveriam ser destinados ao combate à pobreza global. Ele relatou ter mantido conversas diretas com governantes de potências como Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin, sugerindo o diálogo diplomático direto no lugar da violência armada.
Lula anunciou que utilizará seu pronunciamento na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para cobrar atitudes concretas dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido). Segundo ele, esses países detêm o poder de veto e iniciam ou vendem armas para os conflitos globais em vez de garantir a paz internacional.
Relatos pessoais, conquistas sociais e prioridades futuras
Em um tom reflexivo, Lula compartilhou memórias de sua infância no Nordeste e de sua migração para São Paulo aos sete anos de idade para escapar da miséria. Ele relatou ter comido pão pela primeira vez aos sete anos e que passou boa parte da vida desejando saborear uma maçã, fruta que só pôde consumir quando alcançou a idade adulta e recursos financeiros para comprá-la.
“Se tem um ser humano no mundo que Deus foi muito generoso, fui eu. Se Deus pegou o menino que nasceu no Nordeste brasileiro com possibilidade de morrer de fome até cinco anos de idade, fez ele sobreviver e fez ele chegar à Presidência da República três vezes, não pode ter maior abraço que Deus deu no ser humano do que deu em mim”, declarou.
O chefe do Executivo ressaltou as realizações do Sistema Único de Saúde (SUS), descrevendo-o como um modelo internacional sem equivalentes em países com mais de 100 milhões de habitantes, que garante atendimento gratuito universal e fornece 41 medicamentos de uso contínuo sem distinção de raça, classe social ou nacionalidade.
Como avanço social programado para o próximo ciclo de governo, o presidente revelou que buscará parceria com as igrejas para estruturar uma política pública nacional direcionada ao cuidado da população idosa. O objetivo central do programa será combater a solidão e o isolamento social da terceira idade, criando espaços para convivência, cultura, esporte e reintegração comunitária.
Por fim, ao comentar sobre a evolução e organização das igrejas evangélicas, Lula elogiou a igualdade de condições concedida às mulheres na estrutura eclesial protestante e reafirmou que o compromisso do Estado e das instituições deve ser o exercício da espiritualidade voltado ao respeito e à busca pela paz universal.
Fonte: Brasil 247