China inaugura Canal Pinglu e cria atalho fluvial histórico para impulsionar comércio com o Sudeste Asiático

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Por Guilherme LevoratoBrasil 247

247 – A China inaugurou o Canal Pinglu, infraestrutura fluvial e marítima que concede ao sudoeste do país, uma região sem saída para o mar, um atalho direto para a costa e para os mercados internacionais — sobretudo para a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), que se consolida como o maior parceiro comercial da nação asiática, informa a agência de notícias Xinhua.

Construído a um custo de 72,7 bilhões de yuanes (aproximadamente US$ 10,75 bilhões, ou R$ 55,4 bilhões), o canal possui 134,2 quilômetros de extensão. Ele liga a cidade de Hengzhou, situada na Região Autônoma Zhuang de Guangxi, no sul chinês, ao Golfo de Beibu, o ponto de acesso marítimo mais próximo para a maior parte do sudoeste da China. A rota integra o Novo Corredor Internacional de Comércio Terra-Mar, uma diretriz estratégica projetada para interligar o interior chinês à Asean e a outras redes globais de suprimentos. O projeto se destaca como o primeiro canal de integração rio-mar planejado e coordenado em nível nacional desde a fundação da República Popular da China, em 1949.

Projetado para comportar embarcações de até 5 mil toneladas, o Canal Pinglu reduz o trajeto de navegação interior do sudoeste até o oceano em mais de 560 quilômetros quando comparado às rotas tradicionais que passam pelos portos da província de Guangdong. A expectativa das autoridades é que a hidrovia reduza os custos logísticos globais entre 18% e 30%, gerando uma economia anual superior a 5 bilhões de yuanes em transporte.

Lu Xinning, vice-presidente do governo regional de Guangxi, destacou que o canal estabelece uma nova ponte de integração entre o mercado interno chinês, composto por 1,4 bilhão de pessoas, e os quase 700 milhões de consumidores do bloco da Asean. Segundo a autoridade, o impacto da infraestrutura vai além do simples fluxo de mercadorias, devendo estimular investimentos transfronteiriços e aprofundar a integração das cadeias de suprimento regionais.

A construção do empreendimento durou mais de quatro anos. A maior parte do trajeto aproveitou o alargamento, o aprofundamento e o retocamento de cursos de água já existentes, enquanto uma pequena seção exigiu escavações complexas em terreno seco e mountainous. Cheng Yaofei, presidente da empresa responsável pela obra, a Guangxi Pinglu Canal Construction Co., Ltd., ressaltou que a equipe enfrentou desafios inéditos, sem modelos estabelecidos ou precedentes prontos para seguir.

Entre os maiores desafios de engenharia esteve a superação de um desnível de água de 65 metros — o equivalente à altura de um edifício de mais de 20 andares. Para solucionar a questão, foram construídos três grandes complexos de navegação equipados com eclusas duplas. Os engenheiros projetaram um sistema de reciclagem de água nesses complexos, permitindo ao canal economizar mais de 1 bilhão de metros cúbicos de água por ano.

A preservação ambiental também integrou as prioridades do projeto. Mais de 98% dos cerca de 315 milhões de metros cúbicos de terra e rocha escavados foram reutilizados na própria obra. O canal conta ainda com uma passagem para peixes de mais de 480 metros de extensão e um trecho exclusivo para a travessia terrestre de animais selvagens, como gatos-maracajá e esquilos.

A inauguração ocorre no ano inicial do 15º Plano Quinquenal da China (2026-2030), momento em que a segunda maior economia do mundo busca impulsionar um desenvolvimento regional mais equilibrado e expandir a abertura de alto padrão. A nova artéria logística possui relevância crítica para o sudoeste chinês, histórico polo que esteve atrás do litoral leste em termos de desenvolvimento e enfrentava custos elevados para escoar sua produção. Carvão, minérios, grãos, materiais para transição energética e peças automotivas passam a contar com um trajeto direto para o exterior.

A curto prazo, o canal deve reorganizar o fluxo de cargas, migrando volumes do transporte rodoviário e ferroviário para o modal hidroviário, além de redirecionar o tráfego do Estuário do Rio das Pérolas para o Golfo de Beibu, analisa Meng Shuang, professora associada da Universidade Central de Finanças e Economia. A longo prazo, a redução nos custos de acesso ao mar promete atrair novos investimentos para o interior e reconfigurar a geografia industrial ao longo da rota.

No âmbito do comércio internacional, o volume de trocas entre a China e a Asean ultrapassou a marca de 1 trilhão de dólares pela primeira vez no último ano. Nos primeiros sete meses de 2026, o comércio bilateral atingiu US$ 744,41 bilhões — um crescimento de 24,7% em comparação ao mesmo período do ano anterior, representando 21,8% de todo o comércio exterior chinês no intervalo.

Representantes do setor produtivo e acadêmico da região celebraram o avanço. BeBe Zhao, presidente da Singapore-China Integrated Developments (Guangxi) Pte. Ltd., apontou que produtos da Asean entrarão com mais eficiência no oeste da China, ao passo que manufaturados chineses alcançarão o mercado global por meio de centros regionais como Singapura. Já Boonsub Panichakarn, da Faculdade de Logística e Cadeia de Suprimentos Digital da Universidade Naresuan, na Tailândia, ponderou que o valor real da obra vai além da distância economizada, residindo na redução substancial de custos, tempos de viagem e incertezas em toda a cadeia de suprimentos entre o Sudeste Asiático e o sudoeste chinês.

Fonte: Brasil 247

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