A bravura de Dino e o que se espera de Lula. Por Antonio Martins

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Por Daniel LeviCombate Racismo Ambiental

Em meio à investida da ultradireita, não cabe ao presidente dizer platitudes sobre a “necessidade de investigar a todos”. Seu papel é deixar clara a disputa de projetos, a partir da luta contra a escala 6×1 e pela redução da jornada

Por Antonio Martins, em Outras Palavras

Desde 24 de agosto, quando o ministro André Mendonça aviltou o STF ao afundá-lo na arena eleitoral, o cenário da disputa pela Presidência mudou. Flávio Dino percebeu a mudança com clareza, e por isso destacou-se – tanto na sessão tumultuosa de ontem quanto nas três semanas de luta surda que a antecederam. Lula, ainda não se deu conta. Enquanto não o fizer, sangrará. Corre o risco de continuar repetindo o óbvio, sem perceber como isso favorece a ultradireita; e de perder uma eleição que estava ganha, há menos de dois meses.

Embora nem fosse necessário, o cálculo de Flávio Bolsonaro tornou-se clara nesta terça-feira (15/9), na coluna de Fábio Zanin na Folha. A horas da sessão do Supremo convocada para crucificar Alexandre de Moraes, o candidato contava com um “ganha-ganha”. Se a queda do ministro não se consumasse, ele exploraria a indignação popular, impulsionada pela mídia. Se Alexandre caísse, Flávio surfaria num provável tsunami conservador.

Mas nada disso surgiu por geração espontânea, nem por acaso. Foi armado por Mendonça, que iniciou uma investigação ilegal contra Alexandre de Moraes e tornou públicos seus resultados. Ao fazê-lo, tinha ciência de que giraria o eixo da campanha eleitoral. Num país esgotado, a revelação de que um ministro da Suprema Corte recebeu mimos luxuosos de um banqueiro corrupto ampliaria, é óbvio, o sentimento difuso de indignação. E permitiria a Flávio Bolsonaro “jogar parado” – apenas colhendo os frutos do desgaste de Lula, que a cada dia se deixa identificar um pouco mais com o “sistema”.

A atuação de Flávio Dino na sessão extraordinária do STF é ainda mais notável porque se deu neste ambiente hostil. Ao invés de acuar-se, o ministro partiu para o ataque. Frisou o caráter seletivo do ataque a Alexandre de Moraes. Lembrou que era ética e juridicamente indefensável colocar o ministro na berlinda e poupar André Mendonça, igualmente suspeito de relações promíscuas com o Vorcaro (sabe-se agora que envolvem até mesmo os interesses do banqueiro nos cemitérios privatizados de São Paulo…). Acrescentou: nas poucas horas passadas a partir da quebra do sigilo sobre os pagamentos do Banco Máster, ao menos dois outros ministros já pareciam implicados. Filhos de Luiz Fux e de Kassio Nunes Marques, exatamente como a esposa de Alexandre de Moraes, parecem ter entrado na folha de pagamentos de Vorcaro…

Dino politizou o debate. Não abriu brecha para que se associasse sua fala à defesa de privilégios ou de malfeitos. Ao contrário. Frisou que “nunca se falou tanto em corrupção no Brasil, e nunca ela foi tão vasta”. Referiu-se inclusive à própria compra e venda de sentenças no Judiciário, aludindo a dados do Conselho Nacional de Justiça. Ao mesmo tempo, sabia que precisava preservar Alexandre de Moraes. Se passasse a ser investigado ontem, o ministro pagaria não por seus vícios – que são muitos – mas pela enorme virtude demonstrada no combate à tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. E alguém acredita que, defenestrado Moraes, os fascistas responsáveis por afastá-lo (e por alterar a correlação de forças no STF) passariam republicanamente a investigar a si próprios e a punir seus malfeitos? Chega a ser risível. Infelizmente, o clima de desorientação é tão intenso que até mesmo Maria Cristina Fernandes, provavelmente a melhor analista política na mídia comercial engoliu a narrativa da necessária punição a Moraes.

Ao contrário de Alexandre e de Gilmar Mendes, em nenhum momento Dino altercou-se verbalmente com Luiz Fux ou André Mendonça, os partidários do bolsonarismo no tribunal. Apoiou-se na filosofia e na jurisprudência. Manteve-se entre a cordialidade e a ironia com o presidente do tribunal, Edson Fachin – este também empenhado em fazer da Moraes um bode expiatório. No meio da tarde, quando a sessão avançava, sua lógica e erudição colocaram-no por quase uma hora no centro do debate. Não recusava apartes – atraía-os e os aproveitava para, em resposta, aprofundar seus argumentos. Revelou-se um quadro político de enorme preparo, que será provavelmente necessário em batalhas futuras. Ao final, pediu vistas do processo e provocou o encerramento da sessão, contrariando as expectativas de todos comentarista conservadores. Mesmo estes, porém, foram incapazes de dizer que agia para frustrar o andamento do processo.

* * *

Se Flávio Dino compreendeu o papel que lhe cabe, nas novas condições da disputa pelo poder abertas em 24/8, Lula ainda não se encaixou no seu. O presidente parece perdido, mais respondendo aos fatos do que reunindo capacidade de produzi-los. Entrevistado ontem no Jornal da Record, repetiu platitudes corretas sobre a sessão do STF. “Quem fez, tem de ser julgado e punido”, afirmou.

Parece não perceber que, sobre este tema, não importa o sentido do que diga. Tudo o que falar será capturado pela armadilha armada pela ultradireita, quando arrastou o Supremo para a disputa eleitoral. Qualquer conteúdo – qualquer mensagem que passar por este meio — jogará água no moinho da narrativa segundo a qual as instituições estão corrompidas e o bolsonarismo é o antissistema capaz de repudiá-las.

A arma poderosa que Lula tem em mãos – mas que ainda não se dispôs a utilizar, a despeito do risco crescente que correm ele e o país – é o choque de projetos. E o instrumento mais eficaz, a apenas cinco semanas do segundo turno, é a luta contra a escala 6×1. Pouco importa se o Congresso a aprovará até as eleições ou não, porque ela não pode ser um presente de David Alcolumbre. Precisa ser tema de mobilização, urgente. Pode ser o exemplo emblemático das pautas que interessam às maiorias – e que as elites, a começar do bolsonarismo – bloqueiam. É por meio dela que se desmascara a ultradireita e se resgata a bandeira da justiça social.

Chega a ser espantoso que Lula, em sua sensibilidade política incomum, não tenha agarrado até agora esta oportunidade. Nem apontado, por exemplo, que Flávio Bolsonaro articulou pessoalmente, em 2/9, o esvaziamento do Senado, para que a PEC que levaria à redução da jornada não fosse aprovada.

Não importam, agora, os motivos que por trás desta paralisia. O importante é corrigi-la já. Há, ainda, meios e mote para despertar uma campanha modorrenta. Mas o tempo está contra nós – e corre rápido.

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Fonte: Combate Racismo Ambiental

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