Brasil se mantém na 72ª posição do ranking global de igualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O Brasil estagnou no ranking global de igualdade de gênero organizado pelo Fórum Econômico Mundial e manteve-se na 72ª posição entre 145 economias analisadas no mundo. De acordo com o levantamento divulgado nesta quarta-feira (16), o país registrou uma leve oscilação negativa de 0,4 ponto percentual em relação ao ranking do ano passado, atingindo uma pontuação de 71,5%.
O índice do Fórum Econômico Mundial varia de 0 a 100% e mensura a distância que cada nação precisa percorrer para alcançar a paridade plena entre homens e mulheres.
Apesar de estabilizado na classificação geral, o Brasil destaca-se como uma das nações que mais avançaram no pilar de empoderamento político no longo prazo. Desde 2006, quando a pesquisa começou a ser realizada, o país subiu 15,8 pontos percentuais nesse quesito, registrando a maior evolução entre os quatro eixos centrais do estudo, que incluem também realização educacional, saúde e sobrevivência, e participação e oportunidade econômica.
No período de 20 anos analisado, a participação das mulheres no Poder Legislativo brasileiro mais do que dobrou, passando de 9,4% para 20,7%. Essa métrica considera a proporção entre homens e mulheres eleitos, e não a fatia bruta de cadeiras nas casas legislativas. Já a presença feminina no comando dos ministérios triplicou no país, saltando de 12,9% para 40,9%. Contudo, na comparação direta com a pesquisa do ano anterior, essa mesma dimensão de empoderamento político apresentou um recuo de 2,1 pontos no Brasil.
Em relação à realização educacional, o país manteve a paridade completa entre os gêneros pelo segundo ano consecutivo. O levantamento indica que a taxa de matrícula no ensino básico entre as mulheres evoluiu de 94% em 2006 para 100% neste ano. O desempenho é semelhante no pilar de saúde e sobrevivência, no qual o Brasil alcançou um índice de paridade de 97,7%.
No pilar de participação e oportunidade econômica — que avalia indicadores de emprego, renda e ocupação de cargos de liderança —, o Brasil atingiu 66,6%. O patamar ficou equivalente ao registrado no ano anterior, porém mantém-se 6,2 pontos acima da pontuação obtida em 2006. O avanço econômico nas últimas duas décadas foi impulsionado pela renda estimada das mulheres (atualmente em 62,2% de paridade) e pelo crescimento da presença feminina nos cargos de legisladoras, altas funcionárias e gerentes nas esferas pública e privada, que subiu de 58,7% para 66%.
Projeção mundial e os gargalos na política e nas empresas
O relatório deste ano marca duas décadas de monitoramento da paridade de gênero no planeta e revela um progresso global ainda lento. O Fórum Econômico Mundial estima que, se o ritmo atual for mantido, a paridade global entre homens e mulheres levará 120 anos para ser alcançada.
O ponto de maior alerta da entidade é o próprio empoderamento político. Apesar de ter sido o pilar com maior ganho absoluto no mundo desde 2006, a dimensão vem apresentando sinais de reversão. A proporção de países liderados por mulheres como chefes de Estado ou de governo atingiu o pico de 27% em 2022 — o patamar mais alto em meio século —, mas regrediu nos últimos anos aos níveis observados em 2016. Além disso, nos gabinetes ministeriais ao redor do mundo, apenas um em cada dez postos ocupados por mulheres é considerado de alta influência, como as pastas de finanças, defesa ou relações exteriores.
A liderança corporativa e o setor de tecnologia também permanecem como áreas de extrema fragilidade. No cenário global, as mulheres ocupam apenas 19,1% dos cargos de diretora-executiva (CEO). Nas posições de diretoria financeira (CFO) e diretoria de operações (COO) — consideradas as principais vias de acesso ao topo corporativo —, as mulheres somam apenas um quarto dos postos, enquanto ocupam dois terços das vagas na área de recursos humanos.
Na área de tecnologia da informação, a presença feminina desce para menos de 20% nos cargos de diretora de tecnologia da informação (CIO) e fica abaixo de 10% nas posições de diretora de tecnologia (CTO). Com base em dados tabulados em parceria com a rede profissional LinkedIn, o relatório destaca que a participação feminina no mercado de trabalho geral é de 41,8%, mas sofre um funil acentuado: cai para 29,6% em posições de alta gestão e despenca pela metade entre as posições de entrada na carreira (46%) e os cargos executivos de alta liderança (23%).
“A paridade de gênero não é um aspecto periférico aos desafios que temos pela frente. Ela é fundamental para o desenvolvimento humano e para liberar o talento, a inovação, a criatividade e a resiliência de que as economias precisarão para navegar nesta nova era”, declarou a diretora-gerente do Fórum Econômico Mundial, Saadia Zahidi.
“Os últimos 20 anos demonstraram que as disparidades de gênero podem ser reduzidas. O desafio para os próximos 20 anos é acelerar esse processo. À medida que uma nova era econômica ganha forma, temos a oportunidade de garantir que suas instituições, tecnologias e fontes de crescimento aproveitem o talento de todas as pessoas”, completou Zahidi.
Panorama global e a América Latina
No topo do ranking mundial, a Islândia figura como o único país a ultrapassar 90% de paridade total, liderando o levantamento pelo 17º ano consecutivo. O grupo das dez nações mais bem colocadas é composto por:
- 1º Islândia: 93,5% (mais de 90%)
- 2º Finlândia: 87,2%
- 3º Noruega: 85,7%
- 4º Namíbia: 84,5%
- 5º Reino Unido: 84,2%
- 6º Nova Zelândia: 82,8%
- 7º Suécia: 82,3%
- 8º Austrália: 81,9%
- 9º Alemanha: 81,7%
- 10º Irlanda: 81,4%
Na outra extremidade, as últimas posições da lista são ocupadas por Argélia (61,8%), República Democrática do Congo (59,5%), Paquistão (59,5%), Irã (58,5%) e Chade (57,8%).
Na análise por regiões, a América Latina e o Caribe aparecem em terceiro lugar no mundo, registrando 74,5% de paridade média e ficando atrás apenas da Europa (75,7%) e da América do Norte (75,2%). A região latino-americana lidera globalmente os índices de saúde e sobrevivência (97,7%) e apresenta o ritmo de evolução de longo prazo mais célere entre os blocos continentais. No entanto, na velocidade atual, a região ainda precisará de 60 anos para fechar totalmente a lacuna de gênero.
Fonte: Brasil 247