Entre dois Candangos, Julia Lemmertz reencontra A Cor do Seu Destino

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Por Michelle Catarine MachadoBrasil 247

Ao receber o Troféu Candango pelo Conjunto da Obra, na sexta-feira (11), no Cine Brasília, Julia Lemmertz fez questão de dividir a homenagem com as pessoas que estiveram ao seu lado ao longo de mais de 40 anos de carreira.

“A gente não faz nada sozinha nessa vida. Especialmente um trabalho artístico não se faz sozinho”, afirmou.

A premiação também trouxe de volta um momento importante de sua história com o Festival de Brasília. Aos 23 anos, Julia ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante por A Cor do Seu Destino, de Jorge Durán.

Quatro décadas depois, o longa retornou ao festival em versão restaurada, justamente no ano em que a trajetória da atriz foi homenageada.

O filme acompanha uma família de exilados chilenos no Brasil e trata das marcas deixadas pela repressão política na América Latina. Para viver a personagem, Julia precisou aprender espanhol.

Durante a preparação, contou com a ajuda de Gabriel, um chileno exilado no Rio de Janeiro. Entre as conversas, um detalhe permaneceu em sua memória: ele sentia falta das prateleiras e dos objetos cotidianos de sua terra. A saudade aparecia nas coisas mais simples.

Só com o passar dos anos ela percebeu a dimensão do impacto do filme sobre o público. Recentemente, seu filho, de 26 anos, também assistiu ao longa. Para a atriz, a história permanece atual diante das ameaças à democracia na região.

Ao revê-lo no Cine Brasília, resumiu o reencontro: “Foi lindo o giro que a vida fez”.

Encerrada a cerimônia, Julia falou sobre os desafios que a arte enfrenta hoje.

“A experiência coletiva de todo mundo junto em um cinema, vendo um filme, ou assistindo a uma peça de teatro que está acontecendo ali, naquele momento, é insubstituível”, ressaltou.

Cinema, teatro e solidão digital

Celulares e aplicativos ampliaram o acesso a filmes e séries, mas também podem produzir uma falsa sensação de proximidade.

“A grande questão do nosso momento atual é a profunda solidão que as pessoas vivem quando só se conectam com o que é digital”, avaliou.

Para Julia, reconhecer esse problema não significa rejeitar a tecnologia. O caminho é conversar com as novas gerações sem transformar essa relação em uma disputa entre “nós” e “eles”.

Inteligência artificial

Uma das maiores preocupações da atriz é o avanço da inteligência artificial sem regulamentação, sobretudo pela possibilidade de reprodução de rostos e vozes.

“Hoje, qualquer pessoa pode pegar sua cara e sua voz, duplicar você e fazer parecer que fez coisas que nunca faria na vida real. Essa manipulação é muito mais assustadora”, alertou.

O risco não se limita aos artistas. Chega também ao público, que pode ter dificuldade para distinguir um registro real de uma fabricação.

Incentivo à cultura e reflexão

Ao tratar do financiamento público, Julia defendeu políticas permanentes para o setor cultural.

“A gente tem que batalhar para ter mais leis de incentivo. Não temos outra opção para fazer cultura, arte, cinema, teatro ou série sem elas”, afirmou.

Ela também rebateu o discurso de que artistas beneficiados por essas políticas viveriam às custas do Estado. Classificou essa ideia como “uma falácia, uma mentira redonda”.

Segundo a atriz, os ataques à cultura buscam enfraquecer sua capacidade de provocar reflexão. “A arte não controla as pessoas. A gente precisa lutar contra essa mentira e se informar”, observou.

Ao indicar fontes para quem procura informação, citou o Brasil 247, o ICL Notícias e a revista Piauí.

“Se a gente quer cobrar, reclamar e se posicionar na vida, precisa saber do que está falando”, completou.

No fim do discurso, recorreu a A Tempestade, de William Shakespeare: “Somos todos feitos da mesma matéria de que os sonhos são feitos. E a nossa vida breve é circundada por um adormecer”.

Depois, fez um último pedido: “Não deixem de sonhar nunca”.

Fonte: Brasil 247

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