3ª Guerra Mundial vira principal preocupação entre 28 riscos analisados pela ONU; entenda quais são as ameaças
Por Bruna Ariadne — Jornal Opção

A possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial passou a ocupar o centro das preocupações de especialistas sobre o futuro do planeta. Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira, 15, mostra que o risco de um conflito em larga escala foi o que mais avançou entre as 28 ameaças globais analisadas, com uma escalada de 16 posições em comparação com 2024.
O levantamento mostra uma mudança significativa na percepção dos riscos internacionais em apenas dois anos. Questões ambientais, desinformação e pandemias, que anteriormente ocupavam espaço de destaque, agora dividem a atenção com o agravamento das tensões geopolíticas, conflitos armados e ameaças à estabilidade institucional.
Cerca de 1,3 mil pessoas participaram da pesquisa, entre representantes de governos, organizações internacionais, empresas, universidades e entidades da sociedade civil. Os entrevistados avaliaram ameaças de diferentes naturezas, incluindo questões políticas, econômicas, ambientais, sociais e tecnológicas.
Os números ajudam a dimensionar o temor. Para 36% dos participantes, um conflito em larga escala tem potencial para afetar uma parcela significativa da humanidade no prazo de apenas um ano. Quando a análise considera os próximos sete anos, esse percentual chega a 76%.
Ou seja, aproximadamente três em cada quatro especialistas consultados enxergam a possibilidade de consequências relevantes de um grande conflito internacional dentro desse horizonte.
Guerra avança 16 posições em dois anos
Entre os 28 riscos avaliados, nenhum apresentou crescimento tão expressivo quanto o de uma guerra em larga escala.
Além de subir 16 colocações, a ameaça foi a única a aparecer entre as seis primeiras posições em todos os critérios usados pelos pesquisadores. O estudo levou em consideração não apenas a importância atribuída a cada risco, mas também a proximidade de seus possíveis efeitos, a conexão com outras ameaças e o grau de preparação das instituições para enfrentá-lo.
A combinação desses fatores ajuda a explicar por que a guerra ganhou tanto espaço. Um conflito de grandes proporções não produziria consequências apenas no campo militar. Dependendo da extensão, poderia afetar o comércio internacional, o abastecimento de alimentos e energia, as cadeias produtivas, os mercados financeiros, os fluxos migratórios e as relações diplomáticas.
O cenário representa uma mudança em relação ao retrato observado em 2024. Naquele momento, preocupações ambientais, disseminação de informações falsas e riscos sanitários tinham maior presença entre as ameaças consideradas prioritárias.
Agora, questões relacionadas a conflitos, rivalidades geopolíticas e enfraquecimento do Estado de Direito passaram a ocupar posição mais central.
Temor se espalha por todas as regiões
Outro ponto destacado pelo levantamento é que a preocupação com guerras não está restrita às regiões diretamente envolvidas nos principais conflitos atuais.
A ameaça de uma guerra em larga escala e as tensões geopolíticas aparecem entre os dez principais riscos em todas as sete regiões analisadas pela ONU. Em seis delas, os dois temas já figuram entre os cinco primeiros.
A comparação com 2024 reforça a mudança. Há dois anos, guerra e tensões geopolíticas apareciam simultaneamente entre as cinco maiores preocupações em apenas uma região.
Isso indica que os efeitos de um eventual agravamento das disputas internacionais são percebidos como um problema capaz de ultrapassar fronteiras e atingir países que não estejam diretamente envolvidos em um conflito.
Armas de destruição em massa entram no radar
O aumento das tensões internacionais também fez crescer a preocupação com armas de destruição em massa.
Esse risco passou a aparecer entre os dez principais na Ásia Central e Meridional, na África Subsaariana e na Oceania.
A presença do tema entre as maiores preocupações amplia a dimensão do alerta relacionado aos conflitos. O temor não envolve apenas o surgimento de novas guerras, mas também a possibilidade de escaladas militares capazes de envolver armamentos com consequências de grande alcance.
Inteligência artificial preocupa especialistas
Os conflitos armados não são, porém, a única fonte de preocupação crescente. A transformação tecnológica também ganhou espaço no mapa dos riscos globais.
Na Ásia Oriental e no Sudeste Asiático, aumentaram as preocupações relacionadas aos efeitos da inteligência artificial, ao poder concentrado nas grandes empresas de tecnologia e a uma eventual crise financeira mundial.
Riscos tecnológicos também passaram a integrar o grupo das dez maiores ameaças percebidas na Europa e na América do Norte.
O levantamento chama atenção ainda para a capacidade de resposta. Entre os participantes, há a percepção de que o sistema multilateral está pouco preparado para lidar com ameaças associadas às novas tecnologias.
O desafio envolve desde os efeitos econômicos e sociais da inteligência artificial até questões relacionadas à concentração de poder tecnológico, segurança e capacidade dos governos de acompanhar a velocidade das transformações.
Mudanças climáticas continuam entre maiores riscos
Apesar da ascensão das ameaças geopolíticas, as mudanças climáticas não deixaram de ocupar posição de destaque.
Quando os participantes foram questionados especificamente sobre a importância das ameaças, a falta de ações suficientes para enfrentar o aquecimento global apareceu como o risco considerado mais relevante.
O resultado mostra que o avanço das preocupações com guerras não substituiu o temor relacionado ao clima. Na prática, o cenário internacional passou a reunir diferentes riscos capazes de ocorrer simultaneamente e até de potencializar uns aos outros.
Eventos climáticos extremos, por exemplo, podem afetar a produção de alimentos, provocar deslocamentos populacionais e aumentar disputas por recursos. Da mesma forma, conflitos podem dificultar acordos internacionais e retirar recursos de políticas ambientais.
Pandemias perdem espaço
Se guerras e tecnologia avançaram, pandemias e riscos biológicos perderam posições na percepção dos especialistas.
Essas ameaças deixaram de figurar entre as dez principais em todas as regiões analisadas, uma mudança relevante em comparação com os anos posteriores à pandemia de Covid-19.
Isso não significa que o risco de uma nova emergência sanitária tenha desaparecido. O levantamento mostra apenas que, diante do cenário atual, outras ameaças passaram a ser consideradas mais urgentes pelos participantes.
A mudança também evidencia como a percepção dos riscos globais pode variar rapidamente. Uma ameaça considerada prioritária em determinado momento pode perder espaço diante do surgimento ou agravamento de outras crises.
Os 28 riscos vão além das guerras
A pesquisa da ONU trabalha com 28 ameaças de diferentes áreas, e não apenas com a possibilidade de conflitos militares.
O conjunto analisado reúne riscos relacionados a geopolítica, economia, meio ambiente, sociedade, saúde e tecnologia. Entre os temas que ganharam destaque no novo levantamento estão guerra em larga escala, tensões geopolíticas, armas de destruição em massa, mudanças climáticas, crise financeira, inteligência artificial e concentração de poder nas empresas de tecnologia.
A posição de cada ameaça também varia conforme a região e o critério considerado. Por isso, o fato de a guerra ter se tornado a maior preocupação geral não significa que seja considerada o principal problema em todas as análises individuais.
No caso do clima, por exemplo, a falta de ação contra o aquecimento global continua sendo apontada como a ameaça de maior importância quando esse aspecto é considerado isoladamente.
Riscos podem estar conectados
Um dos pontos centrais do levantamento é justamente a relação entre diferentes ameaças.
Uma guerra de grandes proporções, por exemplo, pode desencadear problemas econômicos, humanitários e sociais. Uma crise financeira pode aumentar a instabilidade política. Eventos climáticos extremos podem pressionar sistemas alimentares e provocar deslocamentos populacionais. Já novas tecnologias podem interferir na economia, na circulação de informações e até nas relações entre países.
Dessa forma, os riscos não são avaliados necessariamente como acontecimentos isolados. A preocupação também está na possibilidade de uma crise alimentar outra e provocar efeitos em cadeia.
Essa interdependência ajuda a explicar por que a capacidade de cooperação entre governos aparece como uma questão relevante no relatório.
Mundo estaria pouco preparado
Apesar do aumento da percepção sobre as ameaças, a maioria dos especialistas avalia que os recursos disponíveis para preveni-las ainda são insuficientes.
Segundo o levantamento, 86% dos entrevistados consideram inadequados os recursos destinados atualmente à redução dos riscos globais.
A cooperação entre governos foi apontada como uma das principais formas de evitar que ameaças se transformem em crises de grandes proporções.
O desafio está justamente em ampliar essa cooperação em um momento no qual as tensões entre países aparecem entre os problemas que mais preocupam os próprios especialistas.
Relatório não prevê Terceira Guerra Mundial
Apesar do destaque dado à possibilidade de um conflito em larga escala, o levantamento não significa que a ONU esteja prevendo uma Terceira Guerra Mundial.
O estudo é baseado na percepção dos especialistas consultados e busca identificar quais ameaças são vistas como mais relevantes, próximas e capazes de produzir impactos sobre uma parcela significativa da população mundial.
O avanço de 16 posições indica, portanto, uma mudança na avaliação do risco, e não uma previsão de que uma guerra mundial ocorrerá.
Ainda assim, o salto registrado em apenas dois anos chama atenção para uma transformação no cenário internacional. Se, no passado recente, pandemias, desinformação e mudanças climáticas dominavam parte do debate sobre ameaças globais, o risco de uma guerra de grandes proporções passou a dividir — e, em alguns critérios, superar — essas preocupações.
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Fonte: Jornal Opção