Rússia amplia presença no Sahel em meio à reação anticolonial na África
Por Serguei Monin — Brasil de Fato
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A Rússia tem intensificado sua diplomacia com o continente africano. Durante a cúpula do Brics, realizada no último fim de semana na Índia, o presidente Vladimir Putin voltou a destacar o fortalecimento das relações com os países africanos e a preparação para a próxima Cúpula Rússia-África, prevista para outubro, em Moscou.
A movimentação não é por acaso. O continente africano vem ganhando importância na estratégia russa de aproximação com o Sul Global e de fortalecimento dos Brics, que nos últimos anos ampliaram sua presença no cenário internacional. E, dentro desse movimento, a região africana do Sahel ocupa um lugar singular.
O cenário geopolítico do Sahel passou por uma transformação. Os países Burkina Faso, Mali e Níger vêm buscando maior autonomia em relação às antigas potências coloniais e diversificando suas parcerias internacionais.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o ativista Joseph Thiombinao, de Burkina Faso, afirma que os processos que acontecem atualmente na região do Sahel estão ligados a uma reivindicação por maior soberania e pelo “direito dos países do Sahel de fazerem suas próprias escolhas estratégicas”.
“Acredito que o que está acontecendo no Sahel pode ser compreendido, em grande medida, como uma ruptura com certos aspectos da ordem colonial e pós-colonial. […] Durante muitos anos, as relações de segurança, econômicas e diplomáticas na região foram amplamente moldadas por parceiros externos. Hoje, Burkina Faso, Mali e Níger buscam recuperar maior controle sobre essas áreas e redefinir suas relações com o mundo exterior”, argumenta.
Nesse contexto, a Rússia vem se inserindo como um ator relevante na região. O ponto de virada para esta reestruturação geopolítica foi a retirada das forças francesas do Mali, Burkina Faso e Níger.
“O cenário geopolítico do Sahel mudou consideravelmente nos últimos anos. A retirada das forças francesas do Mali, Burkina Faso e Níger marcou o fim de um acordo de segurança que dominou a região por décadas. Ao mesmo tempo, a Rússia se tornou um importante parceiro estratégico para os países do AES, particularmente nas áreas de segurança e técnico-militar.”
A avaliação ajuda a estabelecer uma ponte entre a demanda dos países do Sahel por maior autonomia e o espaço ocupado pela Rússia nesse processo. Para Moscou, a região passou a representar não apenas uma oportunidade de ampliar sua presença no continente, mas também um dos principais pontos de contato com governos africanos que procuram reduzir sua dependência em relação às antigas potências coloniais.
É justamente essa combinação de interesses que, na avaliação do cientista político Vladimir Shapovalov, da Universidade Estatal Pedagógica de Moscou, ajuda a explicar a aproximação entre Rússia e países do Sahel. Em entrevista ao Brasil de Fato, o analista observa que, nos últimos anos, a Rússia conseguiu aumentar significativamente seu “capital social e político” nas relações com os países africanos.
“A região do Sahel é um dos parceiros mais importantes da Rússia, pelo simples motivo de que, por um lado, existe uma necessidade entre os povos da região. As elites políticas que chegaram ao poder nos países da região claramente precisam da ajuda da Rússia para se libertarem da dependência colonial da França e dos Estados Unidos”, afirma.
A aproximação, porém, não se restringe à dimensão política. A cooperação em segurança tornou-se uma das faces mais visíveis da relação, em uma região marcada pela atuação de grupos jihadistas e por uma sucessão de golpes militares que alteraram as alianças externas de Burkina Faso, Mali e Níger. Nesse contexto, a Rússia também questiona a presença militar ocidental e aponta a permanência de formas de influência herdadas do colonialismo.
Processos de golpes que aconteceram em Burkina Faso, Mali e Níger aceleraram essa mudança. Ao romper com a antiga influência francesa, os três países passaram a buscar novos parceiros para enfrentar os desafios de segurança e estabilidade. Nesse sentido, a Rússia vem ocupando um lugar de destaque, ampliando a sua atuação militar por meio da organização militar privada “Afrika Corps”, que passou para o controle do Ministério da Defesa russo após a dissolução do Grupo Wagner.
O Africa Corps foi estruturado pelo Ministério da Defesa russo e passou a concentrar parte das operações e dos contingentes que anteriormente estavam associados ao Grupo Wagner em países africanos. No Sahel, sua atuação está vinculada principalmente à cooperação militar e ao apoio às forças de segurança dos governos locais.
Para Moscou, a presença do contingente russo ocorre a partir de solicitações oficiais dos governos africanos e tem como principal justificativa o combate aos grupos armados que atuam na região. É essa interpretação que o chanceler russo Serguei Lavrov apresentou ao comentar a atuação do Africa Corps em agosto.
“Como você sabe, o Africa Corps, do Ministério da Defesa da Rússia, opera de forma totalmente legal, em resposta a solicitações oficiais de governos africanos legítimos, e executa as tarefas atribuídas às suas unidades por esses governos. Essas tarefas incluem principalmente repelir ataques terroristas, inclusive aqueles planejados por alguns países que não conseguem aceitar a perda de sua influência colonial na África”, declarou.
“Não é segredo que a França está envolvida nisso, trabalhando diretamente com grupos armados ilegais — armando-os, financiando-os e orientando-os. Acima de tudo, ela os orienta na criação de problemas para os países — neste caso, a região do Saara-Sahel — que decidiram romper de forma definitiva, completa e irrevogável com seus antigos colonizadores e seguir consistentemente esse caminho”, acrescentou o chanceler russo.
A declaração sintetiza a narrativa apresentada por Moscou para sua atuação no Sahel, ressaltando uma parceria solicitada pelos próprios governos africanos e voltada principalmente para a segurança, em meio ao processo de ruptura com antigas alianças coloniais.
Mas a presença russa na região não se limita ao campo militar. Ao mesmo tempo em que amplia a cooperação em segurança, Moscou busca aprofundar relações em setores como energia, mineração, agricultura, infraestrutura e formação profissional, inserindo o Sahel em uma estratégia mais ampla de aproximação com o continente africano e com o Sul Global.
Para o ativista Joseph Thiombinao, o desafio é transformar a abertura a novos parceiros em uma estratégia efetiva de autonomia.
“De forma mais ampla, a chegada de novos parceiros pode aumentar a margem de manobra estratégica da região. Os Estados não dependem mais necessariamente de um único parceiro externo de segurança ou geopolítico. Mas há um princípio importante que deve orientar esse processo: a soberania não pode simplesmente significar substituir uma dependência por outra. Se o objetivo é uma autonomia estratégica genuína, o Sahel deve ser capaz de diversificar suas parcerias, negociar com base em seus próprios interesses e manter o controle sobre suas decisões estratégicas”, afirmou.
A mesma preocupação se estende à exploração dos recursos naturais, uma área que também vem ganhando espaço na aproximação entre os países africanos e novos parceiros internacionais. Para o ativista, a presença estrangeira só pode ser considerada vantajosa se contribuir para o desenvolvimento das próprias economias da região.
Na avaliação de Thiombinao, portanto, a crescente presença russa deve ser compreendida dentro de uma mudança mais ampla no equilíbrio geopolítico da região, e não simplesmente como uma nova relação de dependência.
“Portanto, vejo o papel crescente da Rússia como parte de um reequilíbrio geopolítico mais amplo. Ela pode contribuir para uma maior autonomia, mas o objetivo a longo prazo deve ser o de construir capacidades nacionais e regionais mais fortes, em vez de uma dependência permanente de qualquer potência externa.”, completa.
A aproximação entre Rússia e os países do Sahel também faz parte de uma disputa geopolítica que vai além da região. Desde o início da guerra na Ucrânia, Moscou busca ampliar suas relações com países do Sul Global, enquanto acusa as potências ocidentais de tentar preservar sua influência política e econômica na África.
Nesse contexto, a África passou a ocupar também um lugar importante na disputa narrativa em torno da guerra. A Rússia procura apresentar sua aproximação com os países africanos como parte de um processo de construção de uma ordem internacional mais multipolar, enquanto acusa os países ocidentais de utilizarem diferentes instrumentos para manter sua influência sobre o continente.
Além disso, Moscou acusa Kiev de ampliar sua atuação no continente africano e de apoiar grupos armados que combatem governos aliados da Rússia no Sahel.
As acusações ganharam maior repercussão depois de confrontos no Mali, onde grupos armados ligados à insurgência na região entraram em combate com forças malianas e integrantes associados ao contingente russo. O governo russo passou então a acusar a Ucrânia de fornecer apoio a grupos que atuam contra seus parceiros africanos. Kiev, por sua vez, rejeita a caracterização russa de sua atuação e também apresenta sua política africana a partir de uma perspectiva de disputa com Moscou.
Para o cientista político Vladimir Shapovalov, a atuação ucraniana no continente representa uma extensão do conflito para além do território europeu. É nesse contexto que o analista faz o alerta para “operações de grupos armados ilegais a partir do exterior que também estão usando ucranianos, e não mercenários, mas militares”.
“Isso significa que não estamos mais falando de ataques terroristas isolados, mas sim de terrorismo de Estado contra os países do Sahel. Na primavera, houve um ataque grave das milícias ilegais que mencionei, apoiadas pela Ucrânia, contra o Mali”, diz Shapovalov.
A acusação de Moscou coloca o Sahel dentro de uma disputa que ultrapassa as fronteiras africanas. Para a Rússia, o conflito na Ucrânia e a competição por influência no continente fazem parte de uma mesma confrontação geopolítica com as potências ocidentais.
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Fonte: Brasil de Fato