O STF em meio a uma “batalha espiritual”
Por Daniel Levi — Combate Racismo Ambiental
Tentativa de sacralizar Mendonça ameaça as instituições democráticas. Religião não pode valer como indício de culpa, tampouco como presunção de inocência. Democracia não requer negação da fé, mas exige que nenhuma doutrina reivindique o monopólio da justiça
Por Carmen Leitão, em Outras Palavras
Na manhã de 7 de setembro de 2026, antes do ato bolsonarista programado na Avenida Paulista, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas participaram de um culto na Igreja Mundial do Poder de Deus. Tarcísio falou do púlpito; Flávio fez uma oração pela “nação”. O apóstolo Valdemiro Santiago exibiu aos fiéis um vídeo de André Mendonça, gravado em março, apresentando-o como mensagem para aquela ocasião. Na avenida, apareceram camisetas com as frases “Força, Mendonça!” e “Oramos por você!”.
O ministro não havia produzido aquele vídeo para a campanha. É justamente por isso que sua recontextualização diz tanto para uma parcela da sociedade: em poucos dias, uma controvérsia sobre condutas, relatórios e limites institucionais no Supremo Tribunal Federal (STF) havia sido convertida em uma cena religiosa e eleitoral 1 . Menos de 24 horas após essa cena ritual, Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal e do diretor de Inteligência da corporação. A crise deixava de ser apenas um embate entre gabinetes do Supremo, o que já era extremamente grave, e alcançava a cadeia de comando de uma instituição de Estado.
Há um aspecto particularmente sensível nos próprios autos. Um dos relatórios, tal como reproduzido na decisão, mencionou a ‘matriz religiosa comum’ de Mendonça e Messias e o apoio de igrejas às suas indicações como possível chave para interpretar a ausência de recurso da AGU. Mendonça chamou essa associação de ‘abjeta e leviana’ 2 . Se a fé compartilhada foi usada como atalho inferencial sem evidência de conduta, há discriminação e abuso analítico a apurar. O reconhecimento desse problema, contudo, não autoriza a operação inversa: transformar toda investigação do ministro em perseguição aos evangélicos ou sua reação institucional em ato de um ‘ungido’ acima de qualquer questionamento. É precisamente porque a religião não pode valer como indício de culpa que tampouco pode valer como presunção de inocência ou como fonte extraconstitucional de poder.
Na arena política, porém, a pergunta começou a mudar. Em vez de “o que cada autoridade fez e como pode demonstrá-lo?”, passou-se a perguntar “de que lado está o povo de Deus?”. Mendonça foi apresentado como pastor perseguido, “mártir” e contraponto moral a Moraes. Michelle Bolsonaro chamou-o de “escolhido e ungido do Senhor” 3 . Pedidos de esclarecimento passaram a ser apresentados como agressões contra uma comunidade religiosa. Essa mudança de linguagem não é um mero detalhe retórico. É a operação que busca transformar a identidade confessional de um agente público em um escudo contra a responsabilização institucional.
Nas diferentes dimensões e perspectivas que essa mobilização faz circular, o conflito institucional ganha papéis teológicos: Mendonça aparece como o Ministro que encarna o ‘bem’; Moraes, como a face do ‘mal’; e a Polícia Federal, quando contraria aquele que se apresenta como o escolhido de Deus, pode ser recodificada como instrumento de perseguição. Essa moralização radicaliza uma operação típica do populismo: o adversário deixa de ser um ator legítimo, cujos atos devem ser criticados e controlados, e torna-se um inimigo a ser derrotado. O problema não está em cidadãos(ãs) fazerem juízos morais, mas em atos públicos serem previamente absolvidos ou condenados pela identidade dos protagonistas, antes da prova, do procedimento e da deliberação colegiada.
O problema democrático não está na oração, na fé de um ministro ou na presença de cidadãos e cidadãs religiosos na vida pública. O Estado laico é aquele que protege todas as crenças e o direito de não crer, sem conferir a nenhuma delas autoridade sobre a Constituição. O risco surge quando a condição religiosa passa a funcionar como uma jurisdição paralela.
Há uma promessa institucional especialmente relevante. Na sabatina de 2021, Mendonça afirmou: “Na vida, a Bíblia; no Supremo, a Constituição”. Comprometeu-se a defender o Estado laico e afirmou que não há espaço para manifestações religiosas nas sessões da Corte. A fórmula não lhe exigia abandonar a fé, mas sim separar os fundamentos da devoção pessoal dos da decisão pública. A crise atual testa essa fronteira. Em vídeo divulgado em 4 de setembro, o ministro agradeceu a “irmãos e irmãs” pelas orações, sem enfrentar ali as questões factuais levantadas contra sua atuação. Ao mesmo tempo, a própria Igreja Presbiteriana de Pinheiros afirmou que suas pregações não se confundem com seu trabalho no STF e retirou do ar vídeos que estavam sendo editados fora de contexto 4 .
A infraestrutura da mobilização tornou-se visível. Um levantamento da Agência Pública identificou mais de vinte anúncios patrocinados no Instagram® e no Facebook® com pedidos de oração por Mendonça. A maioria havia sido paga por campanhas de candidatos(as) bolsonaristas. Duas publicações tinham alcance estimado superior a 1 milhão de usuários(as) cada uma, e um abaixo-assinado reuniu mais de 14 mil adesões nas primeiras horas 5 . Púlpito, aplicativo de mensagens, cantor gospel, liderança política e publicidade digital formam uma cadeia de confiança potente, capaz de transportar uma controvérsia jurídica para dentro da campanha eleitoral.
A pesquisa comparada reforça essa cautela que demarcamos. Amy Erica Smith 6 mostrou que as consequências democráticas da política religiosa no Brasil são mistas: a maioria das congregações transmite normas cívicas, enquanto a atuação político-partidária centrada no clero pode ampliar a polarização afetiva e reduzir a tolerância a quem pensa de forma diferente. Líderes religiosos influenciam candidaturas e prioridades, mas não controlam todas as preferências de seus(suas) fiéis. O problema central está na instrumentalização da fé. No atual cenário, o apelo religioso tem o efeito político de deslocar o foco do caso Master e das condutas a serem reconhecidas e detalhadas para a narrativa do Ministro apresentado como vítima.
O risco adicional é de natureza institucional. Quando um ministro do Supremo passa a ser tratado como delegado de uma comunidade religiosa, qualquer decisão sobre impedimento, investigação ou responsabilidade pode ser apresentada como uma forma de violência contra milhões de fiéis. O tribunal converte-se em um campo de disputa entre protetores de identidades. Essa personalização corrói a imparcialidade esperada e torna a prestação de contas politicamente explosiva.
O campo conservador chega a essa disputa com redes, lideranças e uma narrativa bem testada. O campo progressista, porém, não está ausente do universo evangélico. Em agosto, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, formada por pastores(as) e teólogos(as), declarou apoio à reeleição de Lula e associou sua escolha à defesa da paz, dos direitos e das instituições. Pesquisas sobre as eleições de 2020 e 2022 registram o crescimento de coletivos como a Bancada Evangélica Popular e Cristãos Contra o Fascismo, ligados à laicidade, à justiça social e ao combate à desigualdade. São movimentos menores do que as máquinas conservadoras, mas desmentem a pretensão de falar em nome de toda a fé evangélica 7 .
A democracia não requer a negação da fé pela sociedade, mas exige que nenhuma religião reivindique o monopólio da verdade pública. Por princípio, a fé de cidadãos e cidadãs não deveria ser instrumento para substituir a exigência de provas ou influenciar escolhas eleitorais em uma crise que agora atinge instituições centrais à garantia de direitos, à realização da justiça e à preservação da ordem democrática.
Notas
1 UOL, “Pastor resgata vídeo de Mendonça e o exibe em culto com Flávio e Tarcísio”, 7 set. 2026; UOL, “Tarcísio ‘prega’ e Flávio ora em culto na igreja do apóstolo Valdemiro”, 7 set. 2026; Brasil 247, “Ricardo Nunes leva camisetas em apoio a Mendonça a ato pró-Flávio Bolsonaro”, 7 set. 2026.
2 STF, Petição 16.662/DF, decisão de 8 set. 2026, especialmente a reprodução do item X.4 do relatório e a resposta do relator; UOL, ‘Mendonça cita religião em decisão que afastou diretor da PF’, 8 set. 2026.
3 Congresso em Foco, ‘Michelle recorda indicação de Mendonça e o chama de ungido do Senhor’, 6 set. 2026; Folha de S.Paulo, Juliano Spyer, ‘Alexandre de Moraes acordou evangélicos de direita para a eleição’, 5 set. 2026; Agência Pública, reportagem de 4 set. 2026 citada acima. A caracterização de ‘bem’ e ‘mal’ descreve o enquadramento produzido por atores da mobilização; não é atribuída ao próprio Mendonça.
4 UOL, “Mendonça defende Estado laico, ataca delações e evita críticas a Bolsonaro”, 1º dez. 2021; Folha de S.Paulo, “Igreja de André Mendonça cita cortes fora de contexto e exclui vídeos”, 4 set. 2026; Folha de S.Paulo, “Michelle Bolsonaro chama Mendonça de ‘ungido do Senhor’ em meio a crise no STF”, 6 set. 2026.
5 Agência Pública, ‘André Mendonça mobiliza orações e se torna ícone do 7 de Setembro bolsonarista’, 4 set. 2026, https://apublica.org/2026/09/andre-mendonca-mobiliza-oracoes-e-se-torna-icone-do-7-de-setembro-bolsonarista/. O alcance dos anúncios é estimativa da Biblioteca de Anúncios da Meta, não contagem de pessoas persuadidas.
6 Amy Erica Smith, Religion and Brazilian Democracy: Mobilizing the People of God, Cambridge: Cambridge University Press, 2019, https://www.cambridge.org/core/books/religion-and-brazilian-democracy/D9B7921525E8C676CFE11AEDC5C4102D.
7 CNN Brasil, “Lula recebe apoio de grupo evangélico e tenta reduzir vantagem de Flávio”, 26 ago. 2026; Christina Vital da Cunha e João Moura, “Evangélicos à Esquerda diante da Alvorada Bolsonarista”, Mediações, v. 29, n. 3, 2024, DOI 10.5433/2176-6665.2024v29n3e51038.
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Fonte: Combate Racismo Ambiental