Raoni tem câncer e recebe assistência médica e espiritual
Por Viviane Zandonadi — SUMAÚMA
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O cacique, fotografado na edição de 2026 do Acampamento Terra Livre, em Brasília: ‘Bem cuidado e próximo da família e de seu povo’. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA
O maior líder indígena brasileiro é atendido por uma equipe de saúde e por pajés de sua confiança na casa em Peixoto de Azevedo, Mato Grosso, a cidade mais perto de sua terra, a Capoto/Jarina, onde é amparado também pelo afeto de sua família
O cacique Raoni Mẽtyktire tem um câncer no aparelho digestivo e está sob cuidados paliativos, informa o instituto que leva seu nome. Com cerca de 90 anos, idade estimada por seus familiares, está numa casa da família em Peixoto de Azevedo, cidade de 34 mil habitantes em Mato Grosso – trata-se da cidade mais próxima da Terra Indígena Capoto/Jarina, onde Raoni nasceu e passou boa parte da vida.
“É importante esclarecer que cuidados paliativos não significam abandono de tratamento e tampouco que ‘não há mais nada a fazer’”, afirma nota divulgada pelo Instituto Raoni. A equipe que acompanha a grande liderança indígena brasileira prioriza, agora, controlar a dor e outros sintomas e preservar a melhor qualidade de vida possível.
“No caso de Raoni, essa decisão também considera a importância de permanecer próximo de sua família e de seu povo”, diz a nota. “A possibilidade de estar em casa, cercado por parentes, falando sua língua, recebendo a presença de pessoas próximas e mantendo suas referências culturais faz parte do cuidado.”
Raoni é pajé de seu povo, os Mẽbêngôkre – também conhecidos como Kayapó. Por isso, a dimensão espiritual ocupa um “lugar fundamental” nos cuidados. Ele é assistido por pajés de sua confiança, além de espíritos da mata e de ancestrais, com quem tem contato permanente, lembra o instituto. Tais cuidados foram decisivos para a capacidade de recuperação e estabilidade clínica “em períodos em que seu estado de saúde apresentou riscos importantes à sua vida”, diz a nota do Instituto Raoni.
Raoni tem um adenocarcinoma pouco diferenciado, um tipo de câncer de comportamento agressivo, na região do duodeno. O tumor causou a obstrução intestinal que levou o cacique a ser transferido para São Paulo, em 19 de junho. No Hospital São Paulo, vinculado à Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, o cacique foi submetido a uma cirurgia pelo médico Franz Robert Apodaca Torrez, professor da Escola Paulista de Medicina. Após a abertura de uma nova passagem para a alimentação, um exame de biópsia confirmou o tipo de câncer.
No fim de julho, já de volta a Mato Grosso, Raoni teve uma hemorragia digestiva, controlada no Hospital Regional de Peixoto de Azevedo – com a ajuda dos “cuidados dos pajés de confiança do cacique”, lembra o instituto.
O médico Douglas Rodrigues, do Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas do Hospital São Paulo, acompanha a saúde de Raoni há décadas, viajou com ele a Peixoto de Azevedo após a alta do Hospital São Paulo e ajuda a coordenar a equipe que cuida do cacique. Raoni retornou ao Mato Grosso acompanhado por quatro técnicos de enfermagem, uma fisioterapeuta, o apoio de uma nutricionista e supervisão de enfermagem da Casa de Saúde Indígena de Peixoto de Azevedo, vinculada ao Distrito Sanitário Especial Indígena Kaiapó de Mato Grosso. O Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas da Unifesp também oferece suporte por telessaúde e equipes do Hospital Regional e da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Peixoto de Azevedo – além do Hospital Dois Pinheiros, em Sinop, maior cidade da região – permaneceram informadas sobre a eventual necessidade de uma nova internação.
A estrutura é custosa. Para ajudar a mantê-la, o Instituto Raoni está recebendo doações pelo “Fundo de Legado do Cacique Raoni”, criado para dar continuidade aos projetos idealizados por ele e sua família. As doações recebidas vão ajudar a custear os gastos com os tratamentos de saúde e proteger o território pelo qual Raoni lutou, o fortalecimento da cultura Mẽbêngôkre e a formação de novas lideranças.
Além do câncer no aparelho digestivo, o cacique sofre de doença pulmonar obstrutiva crônica, possivelmente causada pelo hábito de fumar, uma hérnia no diafragma decorrente de um trauma antigo, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca e usa um marcapasso no coração para corrigir um bloqueio atrioventricular. “Neste momento, nossa prioridade é que o cacique Raoni esteja bem cuidado, confortável e próximo de sua família e de seu povo”, afirma o instituto. “Queremos compartilhar essas informações com transparência, mas também pedimos respeito à sua privacidade, ao seu descanso e às decisões de sua família.”
No último domingo, dia 13 de setembro, SUMAÚMA publicou um tributo a Raoni. A série de artigos, artes, fotografias e quadrinhos documenta a dimensão deste grande protagonista da história do Brasil e do legado que é sua vida. Veja todos os conteúdos aqui.
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Fonte: SUMAÚMA