Há seis anos trabalhando no mesmo terminal, motorista encontra novamente o cachorro que costumava esperar seu ônibus no ponto final antes de desaparecer por oito meses, mas o animal retorna mais velho, com uma orelha machucada, e volta a dormir todas as noites debaixo do banco onde os dois dividiam biscoitos
Por Carlos Emanoel Freires dos Santos — Catraca Livre
Durante quase três anos, seu Roberto terminou o expediente sempre do mesmo jeito: estacionava o ônibus no ponto final, descia com um pacote de biscoitos simples no bolso e dividia alguns pedaços com um cachorro sem dono que costumava esperar debaixo de um banco. Até que, numa semana de janeiro, o animal desapareceu. Roberto perguntou aos funcionários, procurou pelas ruas próximas e continuou levando os biscoitos por algum tempo. Oito meses depois, já sem esperar encontrá-lo novamente, viu um cachorro mais magro, com pelos grisalhos e uma orelha machucada atravessando lentamente a plataforma em sua direção.
O cachorro começou a esperar o ônibus quando Roberto ainda fazia outra linha
Roberto trabalha como motorista há seis anos no mesmo terminal. Quando conheceu o cachorro, ainda cumpria uma linha que chegava ao ponto final pouco depois das 22h. O animal aparecia quase todas as noites, sempre sozinho, e se deitava debaixo do banco mais próximo da plataforma onde o ônibus parava.
No começo, Roberto apenas deixava um pouco de água. Depois percebeu que o cachorro aceitava comida de sua mão e passou a levar alguns biscoitos sem recheio. Com o tempo, bastava o ônibus dobrar a entrada do terminal para o animal levantar e caminhar até a porta.
Os dois criaram um ritual que durou anos
O motorista passou a chamá-lo de Chico. Ninguém sabia de onde ele vinha ou onde passava o restante do dia. Alguns funcionários diziam vê-lo perto de uma oficina, outros garantiam que ele dormia atrás de um mercado.
À noite, porém, o lugar era sempre o mesmo.
- Chico chegava pouco antes das 22h;
- esperava o ônibus encostado perto do banco;
- comia alguns biscoitos da mão de Roberto;
- bebia água em um pote improvisado;
- depois se deitava debaixo do banco até o terminal esvaziar.
“Eu brincava que ele conhecia meu horário melhor do que alguns passageiros”, lembra Roberto.
Até que uma noite Chico simplesmente não apareceu
No primeiro dia, Roberto achou que o cachorro estivesse em outra parte do terminal. No segundo, perguntou aos seguranças. No terceiro, caminhou pelas ruas próximas depois do expediente.
Uma semana virou duas. Depois um mês. Ninguém tinha visto Chico.
Roberto continuou carregando biscoitos no bolso durante algum tempo por hábito. Às vezes ainda olhava debaixo do banco ao estacionar o ônibus, mesmo sabendo que provavelmente não encontraria ninguém ali.
O reencontro aconteceu oito meses depois
Era começo da noite quando Roberto viu um cachorro parado perto da entrada dos ônibus. De longe, parecia apenas outro animal de rua. O pelo estava mais ralo, o corpo mais magro e uma das orelhas tinha uma cicatriz grande na ponta.
Quando Roberto desceu do ônibus, o cachorro começou a andar lentamente em sua direção. Parou alguns metros antes e balançou a cauda.
“Eu reconheci primeiro o jeito de olhar. Depois vi a mancha branca perto do peito e tive certeza”, conta.
Chico estava mais velho e não deixou ninguém tocar na orelha
O cachorro aceitou água e comida, mas recuou quando Roberto tentou examinar a orelha machucada. Nos dias seguintes, ele passou a chegar mais cedo ao terminal para ganhar confiança novamente.
Com ajuda de uma funcionária, conseguiram levá-lo a uma clínica veterinária. A lesão já estava cicatrizada e parecia antiga. Chico também apresentava sinais de desgaste nas patas e tinha perdido peso.
Ninguém conseguiu descobrir onde ele havia passado aqueles oito meses.
Na primeira noite de volta, ele escolheu exatamente o mesmo lugar
Depois de comer, Chico caminhou até o banco de sempre, deu uma volta curta e se deitou embaixo dele. Roberto ficou observando por alguns minutos antes de voltar ao ônibus.
Na noite seguinte aconteceu a mesma coisa. E na outra também.
O motorista voltou a levar os biscoitos, agora em um pequeno pote. Também deixou uma manta dobrada sob o banco nos dias mais frios, mas Chico quase sempre preferia deitar com a cabeça para fora, de onde conseguia ver a plataforma.
Roberto tentou levá-lo para casa, mas Chico ainda escolheu o terminal
Algumas semanas depois, Roberto levou o cachorro para passar uma noite em sua garagem. Chico comeu, descansou e ficou tranquilo, mas pela manhã começou a andar inquieto perto do portão.
Quando o motorista foi trabalhar, levou o cachorro junto. Assim que chegaram ao terminal, Chico desceu e caminhou diretamente até o banco.
Roberto decidiu não forçar a mudança. Passou a cuidar dele ali, providenciando alimentação, vacinação e acompanhamento veterinário.
Hoje os dois continuam dividindo biscoitos no fim do expediente
Chico já não corre quando o ônibus chega. Levanta devagar, alonga as patas e espera Roberto se aproximar. A orelha machucada continua torta e o focinho ganhou mais pelos brancos, mas o ritual quase não mudou.
Depois de oito meses desaparecido, Chico voltou exatamente para o lugar onde sabia que alguém ainda o reconheceria. Todas as noites, quando o último movimento do terminal diminui, ele se deita novamente debaixo do mesmo banco. E Roberto, antes de ir embora, ainda guarda alguns minutos para sentar ao lado e dividir os biscoitos que nunca deixou completamente de carregar.
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Fonte: Catraca Livre