Para vencer as eleições, o governo Lula deve ser sua própria oposição

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Por Rodrigo MartinsCarta Capital

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Filósofo, psicanalista, professor da USP, músico e ativista

Com o debate público contaminado por escândalos, o presidente precisará fazer algo bem diferente do que tem feito até agora

Estamos a pouco menos de três semanas das eleições, em meio a esta que entrará para a história como a campanha mais apática e despolitizada que temos notícia. Sem debates diretos entre os principais concorrentes, sem proposições de governo a serem discutidas, sem grandes manifestações de rua, o que temos agora e possivelmente até o final é uma campanha judicializada baseada na tentativa de empurrar o mesmo escândalo de corrupção para as mãos do governo ou da oposição.

Assim, o Supremo Tribunal Federal se tornou a verdadeira arena eleitoral. O que ocupa nossas discussões políticas são ministros procurando claramente interferir em resultados eleitorais ao explicitar, em momento calculado, as relações incestuosas de outros ministros com banqueiros candidatos a Jeffrey Epstein dos trópicos. Isso mostra duas coisas catastróficas.

A primeira é esse péssimo hábito nacional de produzir escândalos de corrupção que tocam tanto governo quanto oposição. O que evidencia como o verdadeiro problema é a democracia brasileira. Ela só funciona assim, com presidentes de Senado, que infernizam a vida dos brasileiros e brasileiras com pautas moralistas medievais, perguntando avidamente se as novinhas vão estar na festa no Madame Satã mais tarde.

Trata-se, portanto, de um sistema político que permite uma proximidade tão orgânica entre banqueiros e classe política, entre sistema financeiro e gestores do governo, que acaba por colocar todos dentro de uma orgia no chá das cinco do Dani Vorcaro regada a milhões de reais distribuídos generosamente entre convivas. Uma verdadeira indignação se voltaria contra o sistema financeiro e seus delinquentes.

A segunda coisa catastrófica que tudo isso mostra é que, se quiser vencer, o governo Lula precisará fazer algo bem diferente do que tem feito até agora. As pesquisas mostram não apenas a recuperação do candidato-bomba Bolsonaro 2. Elas mostram que qualquer outro candidato teria praticamente a mesma quantidade de votos que Bolsonaro baby no segundo turno.

A eleição presidencial é, na verdade, Lula contra Lula, quem apoia o presidente contra quem o rechaça, preferindo qualquer outra coisa a ele. E esses são praticamente metade do eleitorado brasileiro.

Há um dado que dificulta ainda mais essa eleição para o governo. A saber, é muito raro alguém ganhar uma eleição presidencial quatro vezes. Nas democracias liberais só conhecemos o caso de Franklin Delano Roosevelt, que teve a colaboração da Segunda Guerra. O desgaste de alguém que pleiteia um quarto mandato é natural. A falta de construção de alternativas na esquerda é algo cujo preço sentimos claramente agora.

Acrescenta-se a isso o fato de o governo Lula 3 estar longe de ser auspicioso. Ele não pode colocar na balança a criação de programas como o Bolsa Família, Fome Zero, Prouni, o aumento real do salário mínimo em até 50%, a ascensão do que chamamos um dia de “nova classe média”, entre outros. Isso são criações de outros mandatos, não deste.

Na atual gestão, as inovações políticas são quase zero, tendo como principal bandeira a defesa do fim da escala de trabalho 6X1, que se tornou bandeira de governo Lula no último minuto de seu mandato.

O medo é que as forças governistas acreditem que vão conseguir ganhar repetindo a estratégia derrotada dos democratas nas últimas eleições. Estes acreditaram que os bons números da economia iriam, em algum momento, acabar por falar mais alto, como o baixo desemprego, hoje em torno de 5,3%.

No entanto, vale a pena lembrar que ter um emprego não significa mais bem-estar social. A qualidade degradada do emprego, principalmente depois da Reforma Temer, faz com que tais números percam muito de seu sentido de 20 anos atrás. Como lembra bem a socióloga argentina Veronica Gago, não temos mais crises de desemprego, mas crises de pluriemprego.

Os trabalhadores precisam ter dois a três empregos não para sobreviver, mas para simplesmente conseguir financiar seu endividamento. Entender isso nos ajudaria a compreender por que uma população que observa a melhora de vários números da economia não vota maciçamente no governo. É que a luta pelo bem-estar social exige outras formas de medidas e de políticas.

Em um contexto como esse, só resta ao governo ser sua própria oposição, em uma espécie de maoísmo de combate. Fazer uma ruptura consigo mesmo, como quem afirma que não teve as condições para fazer o que gostaria de ter feito, mas que agora usará toda a força do seu último mandato, de sua última oportunidade, para avançar em um projeto real de criação de serviços robustos de proteção social, de investimentos chineses em educação, de regulação estatal da economia, de emergência climática e de impulsionamento da igualdade econômica. Ou seja, o governo deveria pautar o debate eleitoral com medidas pelas quais ele se engajaria em lutar em um próximo mandato. Algo que simplesmente não vimos até agora.

Alguém deveria lembrar, de uma vez por todas, que não é candidato quem ganha eleição. Muito menos profissional de marketing ou alianças, principalmente quando estamos falando da esquerda. Quem ganha eleição é o eleitor. É ele, quando portado pelo entusiasmo, que bate na porta do vizinho, pergunta se ele já tem candidato, organiza-se espontaneamente, sente-se imbuído de uma tarefa importante e gloriosa. É ele quem vira voto.

Mas para tudo isso é necessário que ele seja, como disse, portado pelo entusiasmo de quem sente a história sendo empurrada pelas suas mãos. E esse entusiasmo não é criado por jingles ou belos vídeos. Ele é criado pelo engajamento real dos candidatos no horizonte de transformação estrutural que merece o nome de “esquerda”. Na falta disso, acabamos por ser obrigado a mobilizar o medo como fundamento de nossas campanhas e discursos. E o medo, bem, o medo não é nosso horizonte natural.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Vladimir Safatle

Filósofo, psicanalista, professor da USP, músico e ativista

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Fonte: Carta Capital

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