O diploma diz autoridade. O preconceito diz: “não parece”
Por Otávio Rosso — Brasil 247
Na noite de sábado (12), em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, uma ocorrência que começou com uma reclamação sobre o volume do som de um veículo terminou com uma mulher derrubada durante uma abordagem da Polícia Militar, atingida por chutes e por disparos de bala de borracha. Fernanda Klitzke, advogada e segunda suplente na chapa de Décio Lima ao Senado, aparece nas imagens do episódio sendo imobilizada por policiais. A Corregedoria da PM deverá apurar as circunstâncias da ocorrência.
Não cabe a uma coluna antecipar responsabilidades que precisam ser investigadas. Mas as imagens permitem formular uma pergunta que ultrapassa aquele epis-Ódio (como trago em meu livro de 2026) o que acontece quando uma mulher ocupa uma posição de autoridade, mas sua autoridade não é reconhecida por quem está diante dela?
Fernanda estava ali como advogada e também como uma mulher que ocupa um lugar político institucional. Essa dimensão importa porque existe uma diferença profunda entre possuir uma prerrogativa e ter sua prerrogativa reconhecida.
É nessa fissura que a desigualdade aparece. Durante séculos, nossas instituições foram organizadas a partir de um sujeito imaginado como naturalmente autorizado a saber, decidir, representar e comandar, homem, branco, cisgênero e pertencente às elites. Outros corpos puderam, progressivamente, entrar nesses espaços. O que ainda não foi plenamente superado é a resistência em reconhecê-los como autoridades quando efetivamente ocupam esses lugares.
Uma coisa é chegar ao poder, outra é ser reconhecida como alguém que pode exercê-lo – principalmente pelos sujeitos que usufruem desse espaço e dizendo defender, a democracia, as instituições, pessoas como nós…
Angela Davis, ao analisar as relações entre raça, gênero e classe, demonstra que as opressões não funcionam isoladamente. Patricia Hill Collins amplia essa compreensão com a ideia de matriz de dominação, mostrando como diferentes sistemas de poder se articulam.
Quando uma mulher negra, uma pessoa trans ou qualquer sujeito historicamente subalternizado chega a uma posição de autoridade, portanto, não está apenas realizando uma conquista individual. Seu deslocamento também movimenta a estrutura.
Quando a base da pirâmide sobe, a pirâmide inteira se desloca.
Uma mulher que afirma “sou médica”, uma parlamentar que afirma “este é o meu mandato” ou uma juíza que determina “esta é a decisão” pode estar dizendo muito mais do que parece. Em determinados contextos, essas frases confrontam uma expectativa social antiga sobre quem deveria cuidar, obedecer, ser atendido, ser representado e quem deveria, de fato, decidir.
É aqui que Miranda Fricker oferece uma chave fundamental. Ao formular o conceito de injustiça epistêmica, especialmente a injustiça testemunhal, a filósofa demonstra como preconceitos podem interferir na credibilidade atribuída à fala de alguém.
O problema não é necessariamente o que a pessoa diz, é o fato de sua palavra chegar ao interlocutor já acompanhada de um desconto de credibilidade.
Alguns corpos precisam provar que sabem. Outros são considerados competentes até que se prove o contrário.
É uma diferença aparentemente pequena, mas politicamente enorme.
Pierre Bourdieu ajuda a compreender outra camada desse mecanismo. Um diploma, um mandato ou uma posição profissional constituem formas de capital institucional. Mas o capital formal não funciona sozinho: ele depende de reconhecimento social.
É por isso que uma pessoa pode ter o diploma e ainda ser confundida com alguém que trabalha para a profissional que realmente ocupa aquele lugar. Pode ter um mandato e ser tratada como intrusa. Pode ser professora universitária e precisar demonstrar competência que seus pares jamais são obrigados a demonstrar.
O cargo existe. O que se disputa é o direito simbólico de ocupá-lo.
Gayatri Spivak acrescenta uma questão decisiva ao discutir a condição do sujeito subalternizado: quem é reconhecido como alguém cuja fala merece ser ouvida?
“Quem você pensa que é?” parece uma pergunta banal. Mas, quando dirigida reiteradamente aos mesmos corpos, transforma-se em uma pergunta política:
quem autorizou você a falar daqui?
Quem autorizou a mulher negra a comandar? Quem autorizou a travesti a produzir teoria? Quem autorizou a pessoa periférica a decidir? Quem autorizou aquele corpo a não apenas entrar na instituição, mas a exercer plenamente a autoridade que conquistou?
A violência epistêmica opera muitas vezes dessa maneira: não impede necessariamente a entrada. Permite que o sujeito entre, mas tenta limitar sua capacidade de falar, decidir e ser reconhecido como produtor legítimo de conhecimento e autoridade.
É por isso que o episódio de Santa Catarina merece ser observado para além de suas circunstâncias específicas e da investigação que ainda precisa ser realizada. Ele nos lembra que a autoridade não está apenas na lei, no diploma, no cargo ou no mandato. Ela também depende de um pacto social sobre quem acreditamos ter o direito de exercê-la.
E esse pacto ainda é profundamente desigual, por isso tenho me debruçado nos estudos sobre os pactos, as alianças e os contratos.
Não basta perguntar quem está chegando aos espaços de poder, precisamos perguntar o que acontece quando chega alguém que não corresponde ao corpo historicamente imaginado para aquele lugar.
Porque, quando a base da pirâmide começa a ocupar o topo, a disputa deixa de ser apenas por mobilidade social. Passa a ser uma disputa sobre a própria arquitetura do poder. Alguns corpos não incomodam porque chegaram ao poder, incomodam porque, uma vez lá, já não aceitam voltar para o lugar que a sociedade havia reservado para eles.
Fonte: Brasil 247