As redes sociais são o novo cigarro?
Por Anderson Barcelos Martins — Brasil de Fato
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Filósofo e Professor, Mestre e Doutorando em Educação pela Ufrgs. Pesquisador das relações entre violência, cultura digital e produção de subjetividades.
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Nos últimos dias, viralizou nas redes sociais uma trend que perguntava como seríamos nos anos 1980. A inteligência artificial recriou penteados, roupas, carros, salas de estar, festas e paisagens com aquela estética granulada de álbum de família. Há, porém, uma ausência curiosa nessas imagens: o cigarro.
A ausência é compreensível, afinal, a IA aprendeu a produzir imagens visualmente aceitáveis no contexto atual, mas talvez ainda não tenha aprendido a reproduzir aquilo que era socialmente banal: quase todo mundo fumava, em quase todo lugar. Em 1989, 34,8% dos brasileiros adultos eram fumantes, segundo a Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição. Não é uma impressão de quem viveu aquela época, nem uma memória exagerada de quem nasceu depois, era mais de um em cada três adultos. Em 2003, o índice havia caído para 22,4%; em 2008, para 18,5%; em 2019, chegou a 12,6%, de acordo com a série histórica reunida pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca).
Eu nasci na primeira metade dos anos 1990. Cresci justamente quando o cigarro começava a deixar de ser uma presença natural da vida cotidiana, embora ainda estivesse por toda parte. Cresci ouvindo que era comum fumar em aviões, em salas de aula, em escritórios, em restaurantes, em cinemas e até em hospitais. Hoje, a simples lembrança parece absurda. Como alguém poderia acender um cigarro durante um voo? Como uma professora poderia dar aula em uma sala tomada por fumaça? Como um restaurante poderia servir comida e fumaça no mesmo ambiente?
A resposta, embora incômoda, é simples: porque, durante muito tempo, aquilo foi considerado normal.
A mudança não aconteceu apenas porque as pessoas, individualmente, decidiram ter mais força de vontade. Ela foi resultado de evidências científicas, mobilização social, políticas públicas, restrições à publicidade, advertências sanitárias, aumento da fiscalização e uma mudança cultural profunda.
A Lei nº 9.294, de 1996, restringiu o uso de produtos fumígenos em recintos coletivos. Em 2000, a legislação proibiu a publicidade de produtos de tabaco nos meios de comunicação. Em 2011, a Lei nº 12.546 ampliou a proteção contra a fumaça em ambientes coletivos fechados; a regulamentação nacional foi consolidada pelo Decreto nº 8.262, de 2014, que proibiu fumar em ambientes fechados de uso coletivo, eliminando os antigos “fumódromos”.
O que hoje parece óbvio precisou ser disputado. Antes de ser proibido, o cigarro foi normalizado. Antes de ser tratado como problema coletivo, foi apresentado como estilo de vida, escolha pessoal, sinal de independência, sofisticação ou rebeldia. Antes de a indústria ser responsabilizada, o fumante foi deixado sozinho diante do próprio hábito.
Essa história deveria nos ajudar a olhar para o presente e questionar se, afinal, estamos diante do novo cigarro?
A comparação entre cigarro e redes sociais é tentadora e precisa ser feita com cuidado. Redes sociais não são nicotina. Uma notificação não equivale, farmacologicamente, a uma tragada. O uso problemático de redes sociais não é automaticamente o mesmo diagnóstico clínico que a dependência de nicotina. No entanto, a diferença entre uma substância e uma plataforma não elimina a comparação. Ela a torna mais interessante.
O cigarro entrega uma substância ao organismo. A plataforma entrega um ambiente desenhado para prolongar a permanência. O cigarro depende da repetição do consumo. A plataforma transforma cada gesto em dado e usa esse dado para decidir qual será o próximo estímulo. O cigarro produz fumaça; as redes produzem uma sequência quase inesgotável de recompensas variáveis: uma curtida, uma mensagem, um vídeo, uma notícia alarmante, uma provocação, uma nova validação.
O usuário não sabe quando virá a próxima recompensa. Por isso continua olhando. Não é necessário afirmar que o celular “sequestra a dopamina” — uma fórmula popular, mas simplificadora — para reconhecer o problema. Basta observar mecanismos mais concretos: rolagem infinita, notificações, reprodução automática, recomendações personalizadas, métricas públicas de aprovação e sistemas que aprendem quais conteúdos nos fazem permanecer mais tempo.
O novo cigarro não precisa entrar no pulmão. Ele pode entrar na rotina, no sono, na conversa, na escola, no trabalho e na forma como avaliamos a nós mesmos.
Um relatório da Organização Mundial da Saúde para a Europa, baseado na pesquisa HBSC, mostrou que a proporção de adolescentes classificados como usuários problemáticos de redes sociais subiu de 7% em 2018 para 11% em 2022. Entre meninas, o índice chegou a 13%, contra 9% entre meninos. O levantamento reuniu quase 280 mil adolescentes de 44 países e regiões. E, embora já esteja um pouco defasado, é importante compreender o que esse número mede. Não se trata simplesmente de adolescentes que passam muitas horas diante de uma tela. Uso intenso e uso problemático não são sinônimos. O indicador considera perda de controle, dificuldade de interromper o uso, sintomas semelhantes à abstinência, abandono de outras atividades e consequências negativas no cotidiano.
Ainda assim, a comparação com o tabagismo exige responsabilidade. Em 1989, 34,8% dos adultos brasileiros fumavam. Em 2022, 11% dos adolescentes pesquisados pela OMS apresentavam sinais de uso problemático de redes sociais. São populações, períodos, métodos e fenômenos diferentes. Não se pode transformar os dois percentuais em uma falsa equivalência, mas a proximidade dos números produz uma pergunta legítima: por que tratamos o tabagismo como questão de saúde pública, enquanto o uso compulsivo das plataformas continua sendo descrito, muitas vezes, como falta de disciplina, desatenção dos pais ou fraqueza moral do adolescente?
A comparação não está restrita a colunistas ou pesquisadores preocupados com o mundo digital. Em 2026, a Academy of Medical Royal Colleges (AoMRC), entidade que reúne os principais colégios médicos do Reino Unido, publicou um relatório alertando que redes sociais e uso excessivo de telas representam uma ameaça à saúde de crianças e adolescentes que deve ser tratada com a mesma seriedade dedicada historicamente ao tabagismo. O relatório recomenda que médicos perguntem rotineiramente a crianças e jovens sobre tempo de tela e uso de redes sociais, assim como tradicionalmente perguntam sobre tabaco, álcool e outras exposições de risco.
A formulação correta, porém, é esta: a AoMRC comparou a gravidade da ameaça à saúde pública e defendeu a investigação clínica rotineira. Não afirmou que redes sociais e cigarros produzem a mesma dependência, nem que uma sessão de aplicativo é equivalente ao consumo de nicotina. Essa distinção não enfraquece o alerta, ao contrário: impede que o debate seja descartado como alarmismo.
Durante décadas, a indústria do tabaco ajudou a deslocar a discussão do produto para o indivíduo. O problema seria o fumante, sua escolha, seu autocontrole. Hoje, quando falamos de redes sociais, a resposta mais comum segue a mesma lógica: “desligue as notificações; use menos; estabeleça limites; seja responsável.” Essas medidas podem ajudar. Mas são insuficientes quando o ambiente foi desenhado para dificultar a interrupção.
Dizer a um usuário que ele precisa ter mais autocontrole diante de um sistema construído por equipes de engenheiros, designers comportamentais, especialistas em publicidade e modelos algorítmicos é uma forma elegante de esconder a desigualdade dessa disputa. De um lado, uma pessoa em desenvolvimento. Do outro, empresas que medem em tempo real o que desperta sua ansiedade, sua curiosidade, sua raiva e sua necessidade de aprovação.
O tabaco também foi um produto vendido em um ambiente social cuidadosamente produzido. Havia publicidade, patrocínio cultural, personagens associados ao cigarro e uma linguagem que transformava consumo em personalidade. As plataformas contemporâneas não precisam sequer comprar todos os anúncios, podem fazer com que os próprios usuários produzam, compartilhem e reproduzam a cultura que mantém o produto em circulação, como uma trend dos anos 80s.
A história do tabaco oferece uma lição importante: a normalidade não é prova de segurança. O fato de todo mundo fumar não significava que fumar fosse inofensivo. Do mesmo modo, o fato de quase todo mundo estar conectado não significa que qualquer desenho de plataforma seja socialmente aceitável. Também aprendemos que políticas públicas não precisam esperar uma certeza impossível. O Brasil não esperou que cada fumante desenvolvesse câncer para restringir a fumaça em ambientes coletivos. Não esperou que toda criança exposta à publicidade começasse a fumar para proibir anúncios de cigarros. A política de prevenção considerou risco, evidência, vulnerabilidade e interesse coletivo.
Isso não significa proibir redes sociais nem demonizar a tecnologia, eu mesmo faço um uso diário. Significa fazer perguntas que hoje são tratadas como inconvenientes: por que a rolagem é infinita? Por que a reprodução automática é padrão? Por que adolescentes são expostos a publicidade e conteúdos que exploram inseguranças? Quais dados são usados para recomendar o próximo vídeo? Quem audita os sistemas? Que mecanismos de proteção existem — e quem fiscaliza seu funcionamento?
É possível que, daqui a algumas décadas, alguém veja imagens geradas por inteligência artificial dos anos 2020 e estranhe a ausência das telas. Talvez pergunte por que as pessoas aparecem em restaurantes, ônibus, salas de aula e reuniões familiares com o rosto iluminado pelo celular. Talvez ache impensável que crianças tenham sido deixadas sozinhas diante de sistemas desenhados para capturar sua atenção durante horas.
Talvez essa pessoa diga: “Era comum naquela época?”
E nós teremos de responder: “Sim. Era comum.
O Brasil conseguiu transformar o cigarro de presença banal em produto regulado e socialmente restrito. A queda da prevalência de fumantes adultos — de 34,8% em 1989 para 12,6% em 2019 — mostra que hábitos coletivos podem mudar quando conhecimento, política pública e pressão social se encontram. A pergunta, portanto, não é apenas se as redes sociais são o novo tabaco. A pergunta mais importante é se vamos esperar décadas para reconhecer que uma indústria baseada na captura permanente da atenção também precisa ser regulada.
O cigarro não desapareceu. Mas deixou de ser invisível.
Talvez esteja na hora de fazer o mesmo com o algoritmo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
Instituto Nacional de Câncer — prevalência do tabagismo no Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/gestor-e-profissional-de-saude/observatorio-da-politica-nacional-de-controle-do-tabaco/dados-e-numeros-do-tabagismo/prevalencia-do-tabagismo
Lei nº 9.294/1996 — Planalto – https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9294.htm)
Lei nº 12.546/2011 — Planalto – https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12546.htm
Decreto nº 8.262/2014 — Planalto – https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/decreto/d8262.htm
OMS Europa — Teens, screens and mental health – https://www.who.int/europe/news/item/25-09-2024-teens–screens-and-mental-health
Reuters — social media and smoking comparison by British doctors – https://www.reuters.com/legal/litigation/social-media-bad-children-smoking-british-doctors-say-2026-05-26/
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Fonte: Brasil de Fato