Existem apenas duas classes sociais: a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem

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Por Valéria Guerra ReiterBrasil 247

O brasileiro parece ter entrado numa eterna Noite da Agonia. Sobre as cabeças nacionais existe uma trovoada de breaking news. O nosso cotidiano pré-eleitoral vem sendo chamuscado por notícias comprometedoras para a República.

A cada dia, uma nova informação. Uma nova denúncia. Uma nova decisão. Uma nova crise. O cidadão mal consegue assimilar a notícia que acaba de chegar e já é atingido por outra, como se estivéssemos permanentemente sob uma tempestade de acontecimentos. STF, Executivo, Legislativo, investigações, disputas políticas, decisões judiciais e seus inevitáveis desdobramentos compõem um cenário em que a própria República parece respirar sobressaltada.

E talvez seja justamente nesse ponto que uma frase de Milton Santos, geógrafo e pensador brasileiro, adquira uma atualidade incômoda:

“Existem apenas duas classes sociais: s dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem”

A frase nos remete imediatamente à desigualdade, mas também ao medo. Não apenas à fome material daqueles que vivem submetidos às dificuldades concretas da existência, mas ao temor daqueles que observam as tensões sociais e políticas e percebem que nenhuma estrutura de poder é eternamente imune às pressões que vêm de baixo.

O Brasil já conheceu outras noites em que o poder parecia concentrar-se enquanto a sociedade observava, inquieta, os acontecimentos.

Em 1823, jornais como O Tamoyo e A Sentinela da Liberdade à Beira do Mar da Praia Grande acompanhavam e, ao mesmo tempo, alimentavam o intenso debate político que atravessava o Primeiro Reinado. O Tamoyo, lançado em agosto daquele ano e ligado aos irmãos Andradas, havia se transformado em uma das principais vozes da oposição ao governo de D. Pedro I.

A imprensa não estava à margem da crise. Ela era parte dela.

A Sentinela da Liberdade, por sua vez, esteve diretamente envolvida no episódio que elevaria ainda mais a temperatura política. Um texto publicado no periódico provocou a reação de oficiais portugueses, que agrediram o boticário Davi Pamplona Corte Real, identificado por eles como possível autor do texto. O episódio chegou à Assembleia Constituinte e desencadeou novos confrontos entre deputados, governo e militares.

Naqueles dias, portanto, a palavra impressa não era mero registro dos acontecimentos. Era uma arma política.

E o calendário daquele novembro de 1823 parece ter sido escrito para a história.

No dia 11 de novembro, a Assembleia já tinha conhecimento de que um golpe contra ela estava sendo preparado. Na mesma data, o governo voltou sua atenção contra os periódicos considerados “incendiários”. Entre eles estavam justamente O Tamoyo e A Sentinela da Liberdade. O Tamoyo publicou naquele dia seu número 35, o último de sua primeira existência. No dia seguinte, 12 de novembro, viria a Noite da Agonia.

Não é possível afirmar simplesmente que o jornal foi formalmente fechado por uma ordem imperial específica. Mas é impossível ignorar a coincidência histórica: O Tamoyo foi silenciado exatamente quando a crise política chegava ao seu ponto de ruptura.

No dia 12, tropas cercaram a Assembleia Constituinte. A tensão acumulada explodiu. A Assembleia foi dissolvida por D. Pedro I, e diversos deputados foram presos. Entre eles estavam Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, Martim Francisco Ribeiro de Andrada, Belchior Pinheiro de Oliveira, José Fernandes Pinheiro, José Joaquim da Rocha e Francisco Gê Acaiaba de Montezuma. José Bonifácio foi preso em sua residência. Alguns dos deputados acabariam enviados ao exílio.

A chamada Noite da Agonia não foi, portanto, apenas uma noite de conflito entre homens públicos. Foi uma ruptura entre o poder constituinte e o poder imperial.

E a crise não desapareceu com o fechamento da Assembleia.

No ano seguinte, em 1824, a Confederação do Equador expressaria, em outra escala e em outras circunstâncias, a insatisfação com a centralização do poder imperial e com o novo arranjo político que se consolidava. Não se deve confundir os acontecimentos nem transformar a história em uma repetição mecânica, mas é impossível ignorar a continuidade das tensões que atravessaram aquele período.

Mais de dois séculos depois, o Brasil parece novamente atravessar uma sucessão de acontecimentos que desafiam a capacidade de compreensão do cidadão comum.

A diferença é que hoje não precisamos esperar que um jornal seja impresso no dia seguinte para saber que alguma coisa aconteceu.

A notícia chega instantaneamente.

Chega pelo celular, pela televisão, pelas redes sociais, pelos portais, pelos aplicativos. Chega em forma de alerta. Chega como urgência. Chega como escândalo. E, antes que a sociedade consiga compreender o acontecimento anterior, outro já ocupa o lugar dele.

É a nossa trovoada de breaking news.

Em 1823, a imprensa era uma das arenas da disputa pelo poder. Em 2026, a arena se multiplicou. Mas permanece uma pergunta fundamental: quem controla a narrativa dos acontecimentos e quem paga o preço quando as estruturas políticas entram em crise?

Quando a Noite da Agonia do povo brasileiro terminará?

A agonia da fome. A agonia de um salário mínimo vergonhoso diante de tantas noitadas de prazer, dentro e fora do país, regadas a uísques caros e charutos divinais. Enquanto isso, os poderosos determinam sua própria existência de júbilo e poder, e a escravidão impera sob todos os matizes dentro de um país feito de gente miserável.

Fonte: Brasil 247

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