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Por Ronaldo Lima LinsBrasil 247

Um carro desgovernado. O motorista salta, olha as vítimas e examina o volume do estrago. Em seguida, dá as costas e vai embora, como se não fosse com ele. Trata-se de um comportamento típico, uma doutrina comum das nossas atitudes humanas. Jair Bolsonaro também agiu assim, durante o seu mandato, por ocasião da epidemia de Covid: “Não sou coveiro”, gritava em altos brados, como se nada tivesse a ver com aquilo. Seguidor do pai, o 01 insiste no estratagema em plena corrida eleitoral, cada vez que o colocam contra a parede. Negociações com Vorcaro? “É coisa do Lula. Não conheço. Já disse”. Rachadinhas?. “Não sei o que significa isso’. Escritório do crime? “Estão me confundindo”.

André Mendonça, com a cara mais deslavada do mundo, como se cumprisse um rosário de orações, vai fazendo das dele em pleno Supremo Tribunal. Na confusão que armou, pretendeu comprometer um colega de bancada. Não se detém diante de nada. Entre as medidas que tomou, libertou irresponsavelmente implicados nas fraudes do INSS, e não se sabe onde vai parar. Imita clichês da história de nossa sociedade, fechando os olhos para crimes e problemas herdados de outros tempos. É preciso dizer que há muito evitamos enfrentar embaraços de outrora, como desigualdades que minam nossos sistemas de equilíbrio. As trombadas do Mendonça talvez não se interrompam. Com a autoridade de um alto magistrado, é capaz de ir adiante, sem medir consequências. Note-se que, na ânsia de ajudar Bolsonaro e a família, atropela os processos em curso para o pleito que se avizinha. Cria constrangimentos para seus colegas. Enquanto isso, a nação, perplexa, aguarda que alguém tome providências, isto é, que Edson Fachin, presidente em exercício do plenário, decida os rumos a serem seguidos por seus pares. As resistências de Mendonça, retendo apenas para si o que guarda dos inquéritos, sem dividir com ninguém, aumentam as desconfianças que pairam sobre ele. Se continuar assim, aos poucos escreverá na própria testa, em letras garrafais, a palavra culpado.

As situações descritas lembram o que aconteceu com Pablo Picasso, quando acabara de pintar o seu grande e desconcertante Guernica. Vivia-se a ocupação alemã em Paris. Um oficial nazista resolveu visitar o seu ateliê e tropeçou na incrível obra em processo de acabamento. “O senhor fez isto?”, perguntou ao artista, indignado. “Não”, respondeu o outro. “Foi o senhor quem fez”.

Enfiar a cabeça na areia, como os avestruzes, não atende à sociedade brasileira, muito menos durante o período eleitoral, quando devemos escolher entre projetos para a nação. Temos problemas gravíssimos que não se resolverão com trombadas contra seus companheiros de toga. Os golpistas do 8 de janeiro se acham na cadeia. Mas há os que permanecem de plantão. Toda vigilância é pouca para eles. A democracia é camarada, mas necessita de rigor.

Fonte: Brasil 247

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