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Por Paulo Antônio Pereira PintoBrasil 247

As celebrações anuais de Ganesha, que vem a ser a entidade preferida pelos hinduístas em Mumbai, têm início nos primeiros dias de setembro. Ao mesmo tempo, as mesquitas da cidade se encontram repletas, no final da tarde, de muçulmanos cumprindo os rituais do Ramadã.

A cada domingo, durante o mesmo mês, centenas de milhares de católicos fazem peregrinações em louvor a “Nossa Senhora do Monte Mary”, consagrada em um subúrbio da cidade. Os zoroastristas, em suas poucas dezenas de milhares ainda sobreviventes aqui, terão comemorado seu próprio Ano-Novo, enquanto se preocupam com a extinção dos abutres desta área, essenciais para os funerais de seus seguidores, cujos corpos são devorados pelas aves de rapina ao serem expostos na “Torre do Silênci o”.

A festa principal, no entanto, é sempre a de Ganesha — durante dez dias. Nem nos estados mais festivos do Brasil o Carnaval é celebrado por tanto tempo!

A referida entidade “emergiu” quando sua mãe, a deusa Parvati, consorte do Senhor Shiva, resolveu ter um filho de “produção própria”, feito de barro, diante das prolongadas ausências do cônjuge, que saía para meditar por períodos de até 12 anos.

Indignado, ao retornar ao lar e encontrar o menino que não reconhecia, Shiva lhe cortou a cabeça. Arrependido, após explicações da companheira, decapitou o primeiro mamífero que lhe passou pelo caminho: um elefante. Em seguida, colou a cabeça do animal no pescoço da criança. Surgiu, então, Ganesha.

Em sua configuração atual, a Ganesha são atribuídas virtudes múltiplas. Suas grandes orelhas significam que se deve ouvir muito antes de tomar decisões. Os pequenos olhos indicam que se deve manter visão crítica. O grande estômago representa a necessidade de digerir bem as coisas boas e ruins. Um dente quebrado e outro inteiro suger em que a fé deve ser maior do que o conhecimento. Quatro mãos propõem que a paciência deve prevalecer sobre a paixão e o vício. Boca pequena, para falar pouco. Pés pequenos, para não fazer nada com pressa. Finalmente, o rato que o acompanh a e lhe transmite as preces recebidas simboliza a necessidade de manter o ego sob controle.

Há, no entanto, conteúdo político nas celebrações públicas, na medida em que milhões de pessoas congestionam, ainda mais, o trânsito já caótico desta maior metrópole indiana. Tais manifestações tiveram início com os movimentos de independência, no final do século XIX, na medida em que propunham reivindicar a consciência nacional, em oposição à opressão cultural colonizadora.

Hoje, partidos políticos fazem vultosos investimentos, com objetivos eleitorais, nos mandalis — locais onde gigantescas imagens de Ganesha são construídas, em meio a festividades, e depois colocadas sobre carros al egóricos, s eguidos de músicos e dançarinos, como se faz na Bahia, atrás do trio elétrico. O objetivo final é jogar a imagem no mar, após procissões sucessivas e imprevisíveis que não levam em conta, absolutamente, a necessidade de carros trafegarem pelas ruas principais.

Assim, a cada setembro, nas ruas de Mumbai, há carros alegóricos com dançarinos e simpatizantes ganeshianos, enquanto os muçulmanos encerram o jejum diário nas mesquitas, os cristãos peregrinam e os abutres sobrevoam tudo, a serviço dos zoroastristas.

Neste período, participamos das pujas — reuniões sociais para a consagração de imagens de Ganesha em residências locais. Aproveitamos, também, para, com o término das monções e o clima auspicioso entre as pessoas — pois este é o “deus da renovação” —, reiniciar obras e reparos de infiltrações, repintar paredes e renovar o controle de cupins na Chancelaria e em nossas residências.

Fonte: Brasil 247

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