BRICS denuncia bloqueio dos EUA e reforça apoio a Cuba
Por José Reinaldo — Brasil 247
247 – A Declaração de Nova Déli reforçou o apoio do BRICS a Cuba ao denunciar o impacto humanitário do bloqueio dos Estados Unidos sobre a população, a economia e o abastecimento energético da ilha. Durante a 18ª Cúpula de Líderes do grupo, o governo cubano também reiterou seu interesse em passar da condição de país parceiro à de membro pleno do bloco.
As posições foram divulgadas pelo jornal cubano Granma, que destacou o pronunciamento do ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, chefe da delegação do país na reunião realizada na Índia. O chanceler afirmou que o cerco econômico foi intensificado e passou a incluir ameaças de sanções secundárias contra empresas e países envolvidos no fornecimento de energia à ilha.
A declaração aprovada pelos integrantes do BRICS manifesta “profunda preocupação com a situação em Cuba” diante do endurecimento das medidas impostas por Washington. O documento cita os danos à economia cubana, as restrições no fornecimento energético e as consequências humanitárias para a população.
O texto também reitera a necessidade de eliminar as medidas econômicas, comerciais e financeiras adotadas contra a ilha. A referência ao tema representa um respaldo diplomático a Havana em um fórum que reúne algumas das maiores economias emergentes e amplia sua articulação com países do Sul Global.
Chanceler denuncia interrupção das cadeias de abastecimento
Em discurso na sessão aberta “BRICS: construindo para a resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade”, Rodríguez Parrilla afirmou que o bloqueio norte-americano alcançou um nível sem precedentes, agravado pelas restrições energéticas e pelo risco de punições a terceiros.
“Isso interrompeu violentamente as cadeias de abastecimento do país”, declarou o ministro. Segundo ele, as medidas impostas pelos Estados Unidos configuram “um genocídio silencioso que está ceifando vidas”.
Rodríguez Parrilla sustentou que as restrições atingem indistintamente a sociedade cubana e integram uma estratégia para provocar uma alteração do sistema político do país.
“Trata-se de um ato de punição coletiva contra todo o povo cubano. Seus efeitos indiscriminados e humanitários são incalculáveis e causam grande sofrimento às famílias cubanas. É o instrumento escolhido para alcançar a ‘mudança de regime’”, afirmou.
O chanceler relacionou essa política à permanência de Cuba na lista elaborada por Washington de países que supostamente patrocinam o terrorismo. Havana considera a inclusão injustificada e afirma que a medida amplia obstáculos a operações bancárias, investimentos, comércio exterior e acesso a serviços financeiros internacionais.
“Se o governo dos Estados Unidos tivesse permissão para destruir uma pequena nação com o objetivo de mudar seu sistema político, ou por qualquer outro motivo, o mundo se tornaria ainda mais perigoso do que já é. O que aconteceria depois, quem seria o próximo?”, questionou Rodríguez Parrilla.
Cuba reivindica entrada definitiva no BRICS
Além de agradecer as manifestações contrárias ao bloqueio e às restrições energéticas, o ministro apresentou Cuba como um país disposto a ampliar sua participação nas iniciativas do BRICS. A ilha compareceu pelo segundo ano consecutivo à cúpula na condição de parceira do mecanismo.
Cuba “é um país de paz. Não somos uma ameaça para ninguém”, afirmou Rodríguez Parrilla. O chanceler acrescentou que o governo cubano está pronto “para contribuir, com nossas modestas experiências, para o fortalecimento deste agrupamento Brics cada vez mais importante, ao qual aspiramos integrar-nos como membros plenos”.
Na avaliação do representante cubano, o bloco pode atuar como um instrumento de promoção da paz, da segurança, do desenvolvimento e da justiça internacional. Ele defendeu que o BRICS ajude a construir uma ordem multilateral baseada na soberania dos Estados, na igualdade entre os países e no respeito ao Direito Internacional.
A entrada como membro pleno ampliaria o espaço diplomático e econômico de Cuba dentro de uma articulação que busca aprofundar a cooperação entre economias emergentes. Atualmente, a participação como país parceiro permite à ilha acompanhar debates e manter interlocução política com os integrantes, mas não lhe garante as mesmas atribuições reservadas aos membros permanentes.
Reuniões com Brasil, Índia, Irã e Vietnã
À margem da cúpula, Rodríguez Parrilla manteve reuniões de trabalho com representantes de diferentes países. Entre os encontros mencionados pelo Granma estão conversas com o chanceler brasileiro, Mauro Vieira; com o ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar; e com o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi.
O ministro cubano também se reuniu com o primeiro-ministro do Vietnã, Le Minh Hung. Os encontros ocorreram em meio à tentativa de Havana de aprofundar parcerias políticas, comerciais e tecnológicas capazes de reduzir os efeitos do isolamento financeiro promovido pelos Estados Unidos.
A presença cubana na cúpula evidencia a aproximação do país com uma plataforma que ampliou sua composição nos últimos anos e procura fortalecer mecanismos próprios de cooperação. Para Havana, a articulação com o Brics também abre canais de diálogo com governos que defendem reformas nas instituições multilaterais e maior participação das economias em desenvolvimento nas decisões internacionais.
Cooperação tecnológica entra na agenda
A cúpula também abordou propostas para ampliar a atuação prática do BRICS. O presidente da China, Xi Jinping, defendeu a implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, o fortalecimento da governança internacional de segurança e a criação de mecanismos de cooperação nas áreas climática e de inteligência artificial.
Xi afirmou que o Brics ampliado precisa consolidar suas bases por meio da abertura econômica, do benefício mútuo e da estabilidade das cadeias industriais e de fornecimento. O dirigente chinês apresentou cinco iniciativas voltadas à cooperação em inteligência artificial, comércio e investimentos, indústrias digitais, manufatura inteligente e formação científica e tecnológica.
Participaram das sessões o presidente da Rússia, Vladimir Putin; o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa; o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi; e dirigentes ou representantes de Irã, Egito, Indonésia e outros integrantes e parceiros do bloco. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também esteve presente.
Ao incluir uma condenação expressa às restrições contra Cuba em sua declaração final, o BRICS incorporou a situação da ilha à agenda política da cúpula e reforçou a defesa do fim de medidas unilaterais com efeitos econômicos e humanitários sobre países do Sul Global.
Fonte: Brasil 247