O vinho de Drama
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
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Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
A reinvenção do vinho grego na taça
Em 1979, Costas Lazaridis mandou abrir um punhado de fileiras numa encosta de Drama, no extremo nordeste da Macedônia grega. Pegou o gosto pelo vinho na Alemanha, onde passava temporadas cuidando do negócio de mármore da família. Com as fileiras abertas, plantou videiras de Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon e Assyrtiko. A escolha não foi aleatória. Variedades internacionais permitiriam compreender o potencial dos solos e do clima da região por meio de castas plantadas da África do sul aos Estados Unidos. Já o cultivo de Assyrtiko possibilitaria saber se uma casta grega podia render frutos naquele lugar.
O chão de Drama não era inóspito para vinhas. Num estudo publicado em 2024 na revista Tourism and Hospitality, pesquisadores relatam que no começo do século XX toda a área montanhosa da região estava plantada com vinha, e que a produção entrou em colapso a partir dos anos 1950, com a onda de emigração para a Europa central. Na Antiguidade, aquelas montanhas foram um dos centros do culto a Dioniso, deus grego do vinho, das festas, do teatro.
Quase meio século depois, a região mudou de patamar. O experimento virou negócio para um punhado de famílias: Drama planta 1,5% da área de videira da Grécia e responde por cerca de 5,5% do volume de vinho que o país exporta. Pelos arquivos de 2022 da Direção de Economia Agrícola da Unidade Regional de Drama, reproduzidos no estudo, o Sauvignon Blanc responde por 20,8% do que se planta na região; o Cabernet Sauvignon, por 13,9%; o Merlot, por 13,7%. O Assyrtiko fica em 7,6% e o Agiorgitiko, em 3,8%.
A uns cem quilômetros a leste, na Macedônia Oriental, passou-se uma das cenas do Canto IX da Odisseia, que recentemente chegou às telas de cinema em filme de Christopher Nolan. Odisseu relata que, ao aportar em Ísmaro, poupou a vida de Máron, sacerdote de Apolo, e de sua família. Como gratidão, Máron presenteou o herói com doze jarras de um vinho extremamente aromático e divino que vinha lacrado e era guardado em segredo absoluto. A potência alcoólica e a concentração daquela bebida seriam usadas por Odisseu para embriagar o ciclope. Na adaptação de Christopher Nolan, o vinho não aparece. Presos por dias na caverna com Ciclope, ele é cegado dormindo, sem ter bebido.
A história tem peso sobre o que se bebe na taça? “O vinho grego antigo é uma parte extraordinária do nosso patrimônio cultural, mas devemos ter cuidado para não apresentar o vinho grego moderno como continuação direta do que se bebia há milhares de anos. Os vinhos dos textos antigos pertenciam a outro mundo de viticultura, vinificação, conservação e consumo”, afirma Antonis Papadopoulos, gerente comercial da Costa Lazaridi para o Brasil, que participou de uma aula virtual sobre os rótulos da vinícola de Drama, importados pela GRK Vinhos.
A herança de milênios de história funciona como porta de entrada e como armadilha. “Durante muitos anos, parte do nosso trabalho nos mercados de exportação foi tirar a conversa de que a Grécia faz vinho há milhares de anos para levá-la para que as pessoas olhem o que a Grécia está produzindo hoje.”
Ele vai além: “Para nós, a herança antiga é o início da história, e não a definição do vinho. Quando apresentamos nossos outros vinhos no exterior, queremos que eles sejam julgados, em última análise, pelo que está na taça: sua origem, suas castas, sua qualidade e sua capacidade de expressar os vinhedos de Drama hoje. Nesse sentido, nossa história pode abrir a porta, mas o próprio vinho precisa mantê-la aberta”.
Drama tem indicação geográfica desde 1995 e nenhuma denominação de origem. A ausência costuma ser lida como atraso, mas Papadopoulos discorda da leitura: uma denominação é antes de tudo um recorte geográfico e produtivo mais estreito, com regras sobre castas, rendimentos e vinificação, e não um degrau automático de qualidade. “Drama é um exemplo interessante porque a ausência de uma denominação de origem de produto não deve ser interpretada como ausência de identidade regional.”
A pergunta que interessa a Drama, diz ele, é o que essa denominação deveria representar. O processo está em curso — uma união de produtores da região pleiteia o reconhecimento desde 2016. Pode ocorrer em dois a três anos. Os dois vinhos que a inaugurariam seriam um branco de Sauvignon Blanc com Assyrtiko e um tinto de Cabernet Sauvignon com casta grega, possivelmente Agiorgitiko. A denominação que vai consagrar a identidade da região é, em metade da taça, francesa.
A história do vinho de Drama está só começando.
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Fonte: Carta Capital