Zhao Si constrói pontes entre a poesia chinesa e o mundo

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Por José ReinaldoBrasil 247

247 – Poeta, tradutora, pesquisadora de poética e editora, Zhao Si constrói pontes entre a poesia chinesa e o mundo por meio de uma produção marcada pelo diálogo intercultural. Em longa entrevista aos jornalistas José Reinaldo Carvalho e Dayane Santos, do Brasil 247, a autora aborda sua trajetória, seu processo criativo e o papel da poesia diante das inquietações do presente.

Radicada em Pequim, Zhao Si consolidou uma carreira que articula criação literária, tradução e reflexão acadêmica. Doutora em Literatura pela Academia Chinesa de Ciências Sociais e com pesquisa de pós-doutorado, ela publicou 12 coletâneas de poesia e versões traduzidas de seus trabalhos, alcançando leitores em diferentes países e idiomas.

Sua projeção internacional está diretamente ligada à capacidade de aproximar universos culturais distintos. A poeta combina referências da tradição chinesa com elementos da literatura europeia e norte-americana, explorando temas como o tempo, a memória, o esquecimento, a morte, o corpo e as tensões da vida contemporânea. Em seus poemas, grandes questões filosóficas e científicas convivem com cenas cotidianas e personagens frequentemente ignorados pela sociedade.

Essa atenção simultânea ao particular e ao universal tornou-se uma das características mais reconhecidas de sua escrita. A observação de acontecimentos comuns serve como ponto de partida para reflexões sobre a condição humana, enquanto imagens poéticas atravessam diferentes épocas, territórios, mitologias e tradições literárias. Sua obra cria, assim, um espaço no qual o mundo visível se conecta a dimensões históricas, subjetivas e cosmológicas.

Como tradutora, Zhao Si também desempenha um papel relevante na circulação da poesia internacional na China. Ela traduziu 12 obras, dedicando-se especialmente a nomes centrais da produção contemporânea, entre eles o britânico Ted Hughes, o grego Yannis Ritsos, o esloveno Tomaž Šalamun, o tcheco Vladimír Holan, o poeta judeu-francês Edmond Jabès e o canadense Tim Lilburn.

O trabalho de tradução ocupa uma posição central em sua trajetória intelectual. Mais do que transportar palavras entre idiomas, Zhao Si investiga as possibilidades, os limites e as transformações envolvidas na passagem de uma obra de uma língua para outra. Essa reflexão aparece em seu ensaio O traduzível e o excepcionalmente traduzido, incluído no sexto volume, dedicado à tradução, da coleção História geral da nova poesia chinesa. O estudo integra uma ampla revisão de 120 anos de produção literária e crítica na China.

Outra contribuição relevante de Zhao Si à pesquisa literária é o ensaio Poetas órficos, considerado o primeiro estudo especializado publicado na China sobre essa tradição poética. A pesquisa reforça uma característica presente em toda a sua carreira: o esforço para estabelecer conexões entre diferentes períodos históricos, experiências estéticas e formas de compreender o mundo.

A escritora também mantém presença constante nos principais circuitos internacionais de literatura. Desde 2012, participou de festivais de poesia e encontros literários realizados na Polônia, Eslovênia, Macedônia do Norte, Alemanha, Canadá e Itália. Entre os eventos estão o Festival Internacional de Literatura de Vilenica, as Noites de Poesia de Struga, o Ars Poetica, o Festival Schamrock de Mulheres Poetas, o Festival Internacional de Poesia de Trois-Rivières e o Festival Internacional de Poesia de Gênova.

Entre 2017 e 2018, Zhao Si foi artista visitante da Universidade de Victoria, no Canadá. Em 2024, participou como escritora convidada da 48ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, uma das mais importantes manifestações literárias da América Latina. Sua presença na região foi ampliada com a publicação de livros em espanhol na Argentina e no Peru.

O reconhecimento de sua produção inclui o primeiro prêmio A Mai Ni de Poesia, recebido em 2023, a Medalha Literária Jerzy Sulima-Kamiński, concedida na Polônia em 2020, e a Medalha Alfred Kowalkowski de Tradução, obtida em 2023.

Atualmente, Zhao Si trabalha na revista Poetry Journal. Ela também ocupa o cargo de primeira vice-presidente do Comitê da Medalha Europeia de Poesia e Arte – HOMER e atua como editora-chefe da série dedicada aos vencedores da Medalha Homer.

Na entrevista ao Brasil 247, a poeta apresenta ao público brasileiro as experiências, leituras e inquietações que atravessam sua criação. O diálogo conduzido por José Reinaldo Carvalho e Dayane Santos permite compreender como literatura, tradução e pesquisa se encontram em uma obra voltada à descoberta de novas relações entre culturas, épocas e sensibilidades.

Entre seus livros estão Corvo branco; O catador de ouro na areia; Desaparecendo, recordando; Vá para o Reino de Ye Lang; A árvore da verdade do tempo & poemas selecionados; Zmiznutia a návraty; In a Flash of Lightning; Otra vez ayer; e El árbol de la verdad del tiempo

Brasil 247 – Sua poesia já foi publicada em chinês, esloveno, inglês e espanhol. Quando seus poemas atravessam línguas e tradições literárias tão diferentes, o que muda e o que permanece?

Zhao Si – Antes de responder, preciso falar sobre como me tornei a poeta que sou hoje — e, ao longo desse caminho, uma poeta cosmopolita.

Meu primeiro leitor realmente importante foi o esloveno Tomaž Šalamun, um dos grandes nomes da poesia do Leste Europeu. Sua obra reunia experimentação, vanguarda, rebeldia cultural, surrealismo e uma dimensão mística. Ele também estudava a tradição da Cabala e mestres como Abraham Abulafia.

Na época, eu traduzia seus poemas a partir do inglês. Šalamun era muito reconhecido nos Estados Unidos, quase como um “poeta americano honorário”, e já havia publicado mais de dez coletâneas em inglês. Escolhi apresentá-lo aos leitores chineses não porque sentisse uma afinidade imediata com sua obra, mas por curiosidade. A China praticamente não possuía uma tradição de poesia de vanguarda, e eu queria conhecer de perto essa vertente europeia.

Ao traduzi-lo, ele se tornou uma espécie de professor para mim. Não aprendi com ele um estilo específico, mas algo mais importante: como me libertar. Para se tornar poeta ou artista, é preciso desmontar os próprios mecanismos de defesa. A educação baseada na razão nos ensina a construí-los desde cedo, até que se tornem uma segunda natureza. Escrever um poema verdadeiro exige sair da zona de conforto e entrar em uma área de risco. Para mim, a verdadeira beleza sempre contém algum perigo.

Em 2012, quando me preparava para participar de um festival internacional de poesia na Polônia, traduzi dez poemas meus para o inglês e os enviei a Šalamun. Pouco mais de cinco horas depois, ele respondeu:

“Sua carta é um grande, um grande presente para mim. Até agora, eu apenas intuía que você deveria ser uma excelente poeta, mas agora estou lendo você. É uma sensação incrível.”

Ele acrescentou:

“Seus poemas têm clareza e graça. A paz paira sobre suas paisagens e sua luz. Há serenidade e calma. Eu gostaria de ter esse talento.”

Šalamun também escreveu que minha poesia vinha de “uma tradição imensa e de um espaço muito amplo”, mas era, ao mesmo tempo, “completamente do nosso tempo”. Por fim, recomendou que eu enviasse os dez poemas às melhores revistas literárias dos Estados Unidos e da Inglaterra. Esse reconhecimento, vindo de um poeta tão importante, fortaleceu profundamente minha confiança.

Quando um poema atravessa idiomas, porém, sua circulação depende de várias etapas. Encontrar o tradutor adequado é uma das mais importantes. Durante uma fase da minha trajetória, escrevi poemas mais experimentais, influenciada em parte pelo espírito de Šalamun. Eles foram reunidos principalmente em Desaparecendo, recordando. Mais tarde, em A árvore da verdade do tempo & 20 anos de poesia, mantive apenas dois deles: “Bilhete da Terra” e “O arco”.

Esses poemas revelaram um elevado grau de “intraduzibilidade”, sobretudo em inglês, idioma que valoriza muito a clareza e a concretude. Bruce Meyer, responsável pela versão final da minha coletânea em inglês, retirou nove textos que considerava confusos nessa língua. O livro, inicialmente planejado com 63 poemas, foi publicado com 54 sob o título In a Flash of Lightning: 54 Poems of Cosmic Vision.

O ensaísta Liu Guopeng escreveu que esse tipo de poesia exige capacidade de combinar tradições culturais, incorporar materiais diversos, dominar as palavras e perceber a musicalidade da linguagem. Cada poema seria como uma pequena ópera: uma obra feita de palavras, mas dotada de volume, aroma e textura. As imagens e os versos se sobrepõem como paredes ou degraus em direção ao céu. Sua força, no entanto, não vem da aparência, mas da energia artística da linguagem.

Minha poesia experimental acabou pressionada por dois lados: na China, havia pouco espaço para ela; em inglês, era difícil assimilá-la. Ainda assim, isso também depende do leitor. Tim Lilburn, conhecido pelo caráter aventureiro de sua poesia, leu os nove poemas excluídos e não encontrou dificuldade. Para que uma obra circule, porém, às vezes é necessário buscar certo equilíbrio.

Sou grata a Bruce Meyer. Sua experiência editorial e seu domínio do inglês deram unidade à voz do livro, preservaram características essenciais da minha poesia e facilitaram sua chegada a novos leitores. A edição teve boa recepção e também serviu de base para que poetas que não falam chinês traduzissem meus textos para o espanhol.

A experimentação linguística pertenceu a uma fase específica, mas nunca foi a base da minha obra. Com o tempo, escolhi seguir uma “poesia da experiência”, marcada por uma dimensão transcendente. Por isso, não lamento ter deixado parte daqueles poemas para trás.

Brasil 247 – Em um mundo marcado por guerras, crises e tantas outras turbulências, qual é o papel da poesia? Como essa realidade influencia sua criação e que diferença um poema pode fazer na vida das pessoas?

Zhao Si – Quando as turbulências do mundo encontram os sentimentos e a experiência do poeta, elas podem dar origem a poemas muito bons. O problema surge quando o poeta tenta falar em nome do mundo ou transformar a poesia em uma resposta direta às circunstâncias. Nesse caso, o resultado nem sempre é um bom poema.

Alguns textos deste livro dialogam com acontecimentos concretos. Um exemplo é o poema “Construir um monumento de flores para você”. Nele, afirmo que devemos erguer um monumento feito de flores para aqueles que foram atingidos pela tragédia.

Entre os leitores chineses, o poema teve uma recepção muito positiva e foi interpretado como uma reação à guerra na Ucrânia. Ele mostra como a poesia pode responder às turbulências do presente sem se limitar a explicar os acontecimentos. Ao transformar a realidade em experiência sensível, o poema permite que as pessoas se aproximem da dor humana de outra maneira.

Brasil 247 – Como você vê o papel da literatura chinesa, especialmente da sua poesia, na aproximação entre diferentes civilizações?

Zhao Si – A literatura, sobretudo a poesia, consegue transmitir dilemas e desejos compartilhados por todos os seres humanos. A poesia também registra a história da alma individual. Uma coletânea pode ser entendida como uma pequena narrativa descentralizada da vida social.

Mesmo ao abordar grandes questões civilizatórias, o poeta precisa assimilá-las por meio de sua sensibilidade e de sua maneira particular de compreender o mundo. Deve absorver inclusive os aspectos mais duros e frios de uma civilização. Ao passar pela experiência do poeta, tudo isso adquire uma tonalidade emocional e uma luz própria. É essa combinação que pode produzir ressonância entre diferentes pessoas.

A poesia tem uma missão especial no diálogo entre civilizações, mas não deve ser tratada apenas como um produto cultural. Ao ler meus poemas, talvez um brasileiro não encontre uma explicação direta sobre a China. Em “Xiaoduo”, contudo, poderá reconhecer uma atitude de resistência e uma tentativa de salvar a si mesmo diante de um mundo cada vez mais acelerado. Poderá sentir a respiração ofegante provocada por uma ansiedade que hoje compartilhamos.

Essa comunicação poética, anterior às próprias fronteiras culturais, ajuda a reduzir as barreiras entre as civilizações.

A verdadeira poesia também possui uma força criadora. Quando um leitor estrangeiro encontra ressonância em um poema chinês, a relação não se limita à ideia de que ele compreendeu minha cultura. É como se disséssemos: “Chegamos juntos a um lugar onde ninguém esteve antes.”

Esse lugar não tem nome e não pertence ao Oriente nem ao Ocidente. Ele só existe no instante da leitura, quando somos verdadeiramente tocados pelo poema. Esse espaço compartilhado, criado a partir do encontro, talvez seja o presente mais valioso do diálogo entre civilizações. Não estamos apenas explicando uma cultura à outra; estamos criando algo novo em conjunto.

Brasil 247 – O que os prêmios representam em sua trajetória?

Zhao Si – Significam que uma parte do mundo me recebeu com boa vontade e amizade. Não significam muito mais do que isso.

No fundo, eu preferiria um mundo sem prêmios, mas com grandes mestres, capazes de fazer da poesia uma espécie de rainha sem coroa da cultura humana. A poesia não deveria permanecer aprisionada aos prêmios.

As premiações são uma alternativa quando não encontramos uma forma melhor de reconhecer aquilo que permanece oculto. Infelizmente, em muitos casos, a multiplicação dos prêmios também pode contribuir para esconder obras e autores.

Brasil 247 – Em 2005, você publicou O corvo branco e O catador de areia. Que elementos desses livros já indicavam o caminho que sua poesia seguiria?

Zhao Si – O corvo branco recebeu o nome de um poema que ocupa um lugar especial na minha vida. Considero-o, em essência, meu primeiro poema. Escrevi seus 59 versos entre 17 e 19 de maio de 1993.

Nos meses anteriores, influenciada por colegas interessados em literatura e arte, eu havia descoberto a força da linguagem. Até então, pertencia ao grupo de pessoas que consideravam a poesia uma espécie de lamento artificial e exagerado, um jogo de palavras carregado de emoção. Depois de escrever cerca de dez textos em versos, ainda muito imaturos, entrei de maneira intensa no estado de criação poética durante aqueles três dias.

Senti como se minha alma tivesse sido despertada pelas palavras. Foi uma viagem de retorno à origem. As imagens profundas surgidas naquela experiência se assemelhavam às de uma jornada de iniciação xamânica. Dentro de mim, encontrei uma espécie de ave sagrada, semelhante a um cristal branco, uma “matéria espiritual” que até então jamais havia aparecido em minha consciência.

Talvez muitos poetas verdadeiros possuam uma estrutura espiritual na qual poesia e xamanismo compartilham a mesma origem. Pouco depois de começar a escrever, descobri que minha poesia nascia de uma escavação interior, e não da busca por temas no mundo exterior. Percebi também que minha respiração poética flui naturalmente em textos de aproximadamente 60 versos.

O catador de areia, por sua vez, reúne dezenas de pequenos relatos, fábulas e histórias escritos em apenas dois meses. Talvez não fossem totalmente maduros, mas sempre os considerei um presente do céu. Como eu não sabia de onde vinham, minhas pesquisas posteriores sobre os poetas órficos e a escrita de A árvore da verdade do tempo tornaram-se tentativas de compreender o mistério daquela inspiração recebida no verão de 2003.

Hoje percebo que aqueles textos surgiram de uma forma espontânea de pensamento, próxima do modo como os órficos compreendiam o mundo. A palavra “teoria”, como a usamos atualmente, tem origem em um conceito ligado ao orfismo e designava uma contemplação apaixonada, associada à revelação e ao êxtase.

Os poetas-mestres órficos pensavam por imagens — sobretudo imagens dos deuses —, contavam histórias e atribuíam nomes poéticos às coisas. Ao mesmo tempo, empregavam a inteligência para tocar os mistérios da natureza. Nesse sentido, O corvo branco e O catador de areia estão na origem tanto da minha poesia quanto de meus estudos de poética.

Brasil 247 – Como a estrutura que atravessa diferentes tempos e espaços, semelhante a uma montagem cinematográfica, cria uma realidade poética?

Zhao Si – O tempo e o espaço cotidianos são organizados para serem compreendidos pela visão e pela razão. Os acontecimentos seguem uma ordem, e as relações de causa e efeito parecem claras. Na poesia, porém, imagens podem ser sobrepostas ou colocadas lado a lado, obrigando o leitor a buscar vínculos mais profundos.

No poema “A criança”, por exemplo, as ondas do mar aparecem ao lado do “tempo que é levado embora”. Seu movimento se mistura aos cabelos e ao sorriso de uma criança, cuja essência é associada à dos anjos. As asas dos anjos, por sua vez, se sobrepõem às ondas quânticas da física contemporânea. Quando a lógica cotidiana já não basta, o leitor deixa de apenas “compreender” e passa a “sentir”.

Em “Xiaoduo”, a personagem é tão pequena que poderia ser um grão de poeira na ponta de uma agulha, mas se move em um cenário descrito como um “grandioso e terrível medo de nove níveis de profundidade”. Ela atravessa “nove milímetros de luzes como pequenas lâmpadas”. A escala oscila entre o minúsculo e o imenso, enquanto a leitura avança quase sem fôlego, reproduzindo o ritmo de uma fuga desesperada.

O leitor pode sentir vertigem diante dessas mudanças. Essa vertigem corresponde à experiência de ser perseguido pela destruição sem encontrar abrigo. Nesse caso, a forma do poema já é o seu conteúdo.

A montagem de diferentes espaços e tempos reúne realidades físicas, históricas, míticas e interiores. Surge, assim, uma realidade poética que não explica simplesmente “o que aconteceu”, mas permite sentir o peso do acontecimento.

Brasil 247 – Como você equilibra a riqueza da imaginação e a economia da linguagem?

Zhao Si – Paul Valéry disse: “Os deuses nos dão gentilmente o primeiro verso. Cabe a nós escrever o segundo.” Para estar à altura desse primeiro verso, precisamos empregar toda a nossa experiência e inteligência.

Um poema muitas vezes começa com uma palavra ou um verso recebido como um presente. Ele já traz sua própria energia e aponta uma direção. A partir daí, o trabalho não consiste em usar a imaginação para preencher a linguagem nem em empregar a linguagem para comprimir a imaginação. É preciso permitir que as palavras se movimentem e se desenvolvam.

Durante esse processo, ajustamos continuamente o sentido, o ritmo e a estrutura. A linguagem encontra uma forma para a emoção e a imaginação, enquanto a imaginação se revela aos poucos no movimento das palavras. As duas são faces do mesmo processo criativo.

A economia da linguagem não resulta de uma redução planejada com antecedência. Ela nasce das escolhas feitas enquanto a forma se constrói. Palavras desnecessárias interrompem a precisão desse percurso. A riqueza imaginativa não depende da quantidade de palavras, mas da concentração das imagens. Uma única imagem pode abrir um mundo inteiro.

Escrever poesia, portanto, não significa pensar tudo primeiro e registrar depois. É permitir que o próprio movimento da escrita faça a seleção. A economia da linguagem é o resultado, não o ponto de partida. A forma é encontrada, não imposta.

Bruno Schulz escreveu que a vida de uma palavra está em sua tendência de se ligar a outras. Comparou-a à serpente lendária que, depois de cortada em pedaços, faz cada parte procurar as demais no escuro. A palavra se estende e se contrai diante de milhares de combinações possíveis até encontrar, por si mesma, a palavra seguinte.

Brasil 247 – Em “Ir ao Reino de Yelang”, a viagem ultrapassa o deslocamento geográfico e assume dimensões histórica, mítica e interior. O que Yelang representa em sua poética?

Zhao Si – O primeiro verso do poema é: “Todos os antigos reinos perdidos são minha casa.” Foi a primeira frase que surgiu em minha mente — aquilo que Valéry chamaria de “o primeiro verso que os deuses nos dão gentilmente”.

Esse verso também tocou outras pessoas. Os organizadores de um seminário sobre poemas premiados o escolheram como tema do encontro. Um dos estudiosos presentes observou que aquela provavelmente havia sido a primeira frase escrita e que, a partir dela, toda a viagem ao Reino de Yelang se abrira.

Em minha poética, Yelang representa sobretudo um mecanismo de preservação da criatividade. Falei sobre isso no discurso “Ir ao Reino de Yelang — Uma viagem de surpresa”, apresentado durante uma cerimônia de premiação.

A surpresa é a mãe da criação e um dos momentos mais fecundos da inspiração. Hoje existe uma enorme quantidade de textos escritos em versos que não surpreendem nem o autor nem o leitor. Sem surpresa, dificilmente se experimenta a verdadeira força da poesia.

Desde meu primeiro contato com Amai Ni, encontrei surpresas por toda parte. Em sua concepção poética, baseada no conhecimento e em uma visão ampla segundo a qual “a poesia fala da astronomia e conta a geografia”, percebi que a consciência literária de seu povo, existente há mais de 1.500 anos, possui uma dimensão universal.

Nem tudo o que pertence a uma nação é necessariamente universal. Mas aquilo que, dentro de uma tradição nacional, adquire caráter universal também passa a pertencer ao mundo. Por isso, Amai Ni pertence ao mundo.

Encontrei ainda o mito de criação do povo Yi, o mito de Aibu, que descreve a união entre Yin e Yang e a formação do céu e da terra com impressionante complexidade e precisão. É quase uma “física de Aibu” ou uma “física do Yin e Yang”. Eu conhecia a imagem de um tear do mundo em mitos de povos indígenas das Américas e descobri que os Yi talvez possuíssem uma versão ainda mais antiga dessa concepção.

Também compreendi que o culto ao bambu em Yelang podia ser visto como uma forma vegetal do culto ao dragão. Os tambores e caldeirões de bronze de Kele estavam associados à crença de que seus sons permitiam a comunicação com os deuses. A plataforma onde o rei de Yelang reunia seus generais era, na realidade, uma montanha.

Por fim, vi as pontes e estradas da atual província de Guizhou. As vias expressas erguidas sobre imensos viadutos foram a maior surpresa de toda a viagem. Este é o melhor período da história de Guizhou, porque os descendentes de Yelang reabriram, por meio de suas pontes e estradas, as portas da criação.

“Ir ao Reino de Yelang” é, portanto, uma viagem marcada pela surpresa, da Antiguidade aos nossos dias.

Brasil 247 – Como tradições como as mitologias grega e nórdica e as referências aos lugares por onde você passou dialogam com a memória cultural chinesa e a experiência contemporânea?

Zhao Si – Na fase atual da minha obra, a poesia funciona como um “evento de conhecimento” que começa por uma espécie de alquimia ampla e livre das palavras. A linguagem continua importante, mas já não é utilizada apenas como campo de experimentação. O objetivo central é procurar a origem da transcendência em um ambiente intelectual marcado pelo pensamento pós-moderno e pela desconstrução, fazendo isso com coragem e responsabilidade moral.

Essa poesia emprega uma linguagem simples, mas preserva características de antigos encantamentos, pequenas fábulas e narrativas arquetípicas. O tempo torna-se um elemento estrutural. Os poemas exploram semelhanças e diferenças acumuladas ao longo de milhares de anos nas emoções, nas energias psicológicas, no pensamento por imagens e na maneira de dar nomes às coisas.

Também recorrem ao paradoxo e ao jogo para avançar. Desse modo, constroem uma visão do universo na qual ciência e psicologia se encontram. A poesia deixa de ser apenas um objeto artístico feito de palavras e passa a ser também uma forma de pensamento filosófico.

As tradições mitológicas não aparecem em minha obra como simples comparações culturais. O diálogo ocorre em três níveis.

Primeiro, o mito funciona como uma gramática viva. A história de Atena, nascida da cabeça de Zeus, encontra a experiência do corpo feminino e é transformada. Torna-se um instrumento para a criação de um novo “eu”. 

Segundo, diferentes mitologias enfrentam uma pergunta comum: depois da partida dos antigos deuses, qual deve ser a medida do ser humano moderno? Essas tradições não precisam se tornar iguais. Ao serem colocadas lado a lado, seus diferentes destinos criam um espaço de tensão.

Terceiro, a experiência contemporânea oferece um novo corpo aos mitos. Isso ocorre em “O Cubo de Água”, poema que coloca em diálogo a Grécia Antiga e a China atual. Os pitagóricos nomeavam o mundo pela matemática: Apolo, o Sol, era a unidade; Ártemis, a Lua, a dualidade; Atena, o número sete; e Poseidon, o mar, o primeiro cubo.

Em Pequim, em 2008, o Centro Aquático Nacional — conhecido como Cubo de Água — permitiu que os chineses tocassem, através de 2.500 anos de distância, aquela mesma água simbólica.

Todos esses encontros acontecem dentro do ato de escrever em minha língua materna. Quando Atenas, Babilônia ou a Ponte do Arco-Íris entram em uma frase chinesa, passam a integrar a história de como a memória cultural da China recebe, transforma e acolhe imagens vindas de outros mundos.

Fonte: Brasil 247

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