Datafolha: 76% veem poder excessivo em ministros do STF
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – Três em cada quatro brasileiros avaliam que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) têm poder excessivo. A percepção é compartilhada por 76% dos entrevistados pelo Datafolha e convive, ao mesmo tempo, com uma ampla defesa da importância institucional da Corte: 71% afirmam que o Supremo é essencial para a democracia. O levantamento revela ainda outro sinal expressivo do desgaste da imagem do tribunal. Para 77% dos entrevistados, a população acredita menos no STF atualmente do que no passado.
Os indicadores são semelhantes aos registrados pelo Datafolha em abril, quando as mesmas perguntas foram apresentadas aos entrevistados. A estabilidade sugere que, até o momento da realização da pesquisa, a atual turbulência no Supremo não havia provocado uma mudança substancial na percepção dos brasileiros sobre a instituição.
Os números foram divulgados pela Folha de São Paulo, que encomendou o levantamento em parceria com a TV Globo. O Datafolha ouviu 2.002 eleitores em 125 cidades entre terça-feira (8) e quinta-feira (10). A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa está registrada na Justiça Eleitoral sob o código BR-01833/2026.
Crítica aos ministros convive com defesa do Supremo
A combinação dos números revela uma avaliação complexa da Corte. Embora 76% dos entrevistados considerem excessivo o poder exercido pelos ministros, 71% continuam enxergando o STF como instituição essencial ao regime democrático.
Os dados indicam, portanto, que a crítica à concentração de poder nas mãos dos integrantes do Supremo não representa necessariamente uma rejeição ao papel constitucional desempenhado pelo tribunal.
A percepção de perda de confiança, compartilhada por 77% dos entrevistados, mostra, porém, a dimensão do desgaste enfrentado pela instituição.
O cenário ocorre depois de anos de protagonismo do Supremo em questões de grande repercussão política e institucional, incluindo as investigações relacionadas aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e processos envolvendo Jair Bolsonaro (PL).
Eleitores de Flávio Bolsonaro são mais críticos
A divisão dos resultados segundo a preferência eleitoral mostra diferenças importantes entre os grupos que apoiam os principais candidatos à Presidência.
Entre os eleitores do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 85% afirmam que existe excesso de poder no Supremo. Nesse mesmo grupo, 63% consideram a Corte defensora da democracia.
Entre os eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a avaliação é diferente. Para 67%, os ministros possuem poder excessivo, enquanto 81% consideram o STF defensor da democracia.
O levantamento também mostra que a crise institucional ainda teve efeito limitado sobre a disputa presidencial. Em outra rodada de perguntas do Datafolha, 85% disseram que as acusações contra Alexandre de Moraes não alteraram sua preferência eleitoral, enquanto 86% afirmaram o mesmo sobre as acusações envolvendo André Mendonça.
Pesquisa ocorre durante grave crise no STF
O Datafolha foi a campo enquanto o Supremo atravessa uma turbulência provocada pelos desdobramentos das investigações relacionadas ao Banco Master e pelo confronto entre integrantes da própria Corte.
A crise ganhou dimensão pública após André Mendonça divulgar informações de um relatório sigiloso envolvendo Alexandre de Moraes e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Entre os elementos está um contrato de R$ 131 milhões firmado pelo ex-banqueiro com o escritório de advocacia da mulher de Moraes. Também foram reveladas mensagens enviadas por Vorcaro ao ministro nas quais o empresário questionava a conveniência de deixar o país para evitar uma eventual prisão. Segundo a reportagem, não há registro de resposta de Moraes a essa mensagem.
Moraes, por sua vez, passou a questionar a legalidade dos procedimentos adotados por Mendonça. A disputa escalou para uma sucessão de decisões e pedidos envolvendo inclusive a cúpula da Polícia Federal.
Fachin intervém para conter crise
O presidente do STF, Edson Fachin, passou a atuar diretamente para tentar conter o confronto interno.
Em meio à escalada, Fachin suspendeu decisões conflitantes relacionadas ao comando da Polícia Federal, retirou Moraes da relatoria do inquérito das fake news e marcou para terça-feira (15) a análise do caso envolvendo o ministro.
A crise também levou Fachin a cobrar esclarecimentos dos envolvidos e da Procuradoria-Geral da República. Em etapas anteriores da disputa, foram estabelecidos prazos para manifestações de Moraes, Mendonça, da PGR e da direção da PF.
O confronto expôs divisões dentro do próprio tribunal e ampliou o debate sobre os poderes individuais exercidos pelos ministros. Especialistas consultados pela Folha relacionam a crise não apenas aos episódios recentes, mas também a questões estruturais da Corte, incluindo a concentração de poder nos relatores e a crescente politização do Supremo.
Crise chega à disputa presidencial
A turbulência também ganhou dimensão eleitoral. Flávio Bolsonaro assumiu a defesa pública de Mendonça, que foi ministro da Justiça no governo Jair Bolsonaro e indicado pelo então presidente para uma vaga no Supremo.
Alexandre de Moraes, por sua vez, tornou-se nos últimos anos um dos principais alvos políticos do bolsonarismo devido à sua atuação em processos envolvendo Jair Bolsonaro e integrantes de seu grupo político.
As investigações relacionadas ao Banco Master também passaram a alcançar episódios ligados à família Bolsonaro e ao filme “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente.
Na quinta-feira (10), o ministro Flávio Dino autorizou uma operação da Polícia Federal destinada a investigar se recursos provenientes de emendas parlamentares foram direcionados à produção. Flávio Bolsonaro é investigado e nega irregularidades.
Fonte: Brasil 247