‘O cacique Raoni me ensinou que resistir é estar vivo’
Por Flavia Coimbra — SUMAÚMA
Uma pausa para desesquecer que esquece do milagre
Qual o remédio para quem tem febre de exploração?
Qual o médico que trata a dor de desmatamento?
Quem pega urbanização sente o quê?
Depois de ‘mandar à merda esta vida de merda’, o autor de ‘Macunaíma’ navegou os rios Amazonas e Madeira ‘até dizer chega’. No diário de viagem transformado em livro, o sentimento transborda e a Natureza arrebata
O cacique Raoni e o cineasta Gert-Peter Bruch no Rio Xingu, em 2012, pouco antes de viajarem juntos para a Europa numa campanha pela Amazônia. Foto: John Van Hasselt
Impactado aos 18 anos por uma entrevista de Raoni na França, o ambientalista Gert-Peter Bruch criou uma ONG a pedido do cacique e participou ativamente das turnês europeias do líder brasileiro
Conheci o cacique Raoni quando tinha 18 anos. No momento em que escrevo estas linhas, quase quatro décadas depois, continuo fascinado pela influência imensa que ele teve sobre a minha própria vida. Bastou um encontro breve mas poderoso, em Paris, para que eu decidisse me engajar em sua luta, sem jamais abandoná-la.
Para compreender o que esse encontro representou para mim e para muitos outros, é preciso voltar ao contexto do fim dos anos 1980. Na Europa, a consciência da luta pela Amazônia começava a emergir. O desmatamento já era conhecido, mas a luta de Chico Mendes acabava de ser identificada por uma parte do mundo. Seu assassinato, em dezembro de 1988, provocara um choque imenso. De repente, a Amazônia em perigo já não era apenas uma ideia distante. Ela tinha um rosto, um nome, mártires, povos ameaçados.
Pouco depois, o cantor Sting, que tinha conhecido o cacique Raoni durante uma viagem à Amazônia e o havia apresentado ao mundo em uma reportagem de grande repercussão, anunciou que faria com ele uma turnê mundial de sensibilização. Esse anúncio foi feito diante de jornalistas vindos do mundo inteiro, reunidos em torno de um acontecimento histórico: o encontro de Altamira, onde caciques Kayapó haviam chamado lideranças indígenas e aliados de todo o mundo a se mobilizarem contra um projeto de barragem que ameaçava seus territórios – anos depois, ela seria construída com o nome de Belo Monte.
Os caciques Raoni e Megaron (à dir.), seu sobrinho, marcham em Brasília junto a outros líderes Kayapó, em 2014. Foto: Gert-Peter Bruch/Planète Amazone
Eu era então estudante, era o ano do baccalauréat, o exame final do ensino médio francês. No entanto, algo ressoou tão forte dentro de mim que tomei uma decisão que podia parecer louca: pausar meus estudos para responder a essa causa que acabava de surgir em minha vida como uma certeza. Concretamente, deixei de ir às aulas e decidi, a partir daquele momento, dedicar meus dias e algumas de minhas noites a investigar, a ler, a buscar tudo o que eu podia compreender sobre o povo Kayapó, sobre a situação da Amazônia, sobre o desmatamento, sobre as barragens, sobre essa luta que eu já sentia que se tornaria a minha.
Preparei, então, um dossiê que consegui entregar ao cantor Sting pouco antes da chegada do cacique Raoni ao solo francês. Sting me parabenizou e, com a ousadia da minha juventude, soube criar a oportunidade de viver um momento com o cacique Raoni. Nossa troca foi intensa. Ele pousou sua mão sobre meus ombros e eu abracei sua causa.
Anos mais tarde, em 2000, participei ativamente da segunda grande viagem do cacique Raoni à Europa. Ele voltou, então, a Paris, onde foi recebido pelo presidente Jacques Chirac. Já não era, para mim, a descoberta arrebatadora de 1989, mas o início de um aprendizado e de uma caminhada mais profunda, mais concreta, mais próxima de sua pessoa e de sua luta.
Megaron, Jacques Chirac, ex-presidente da França, e Raoni durante campanha em defesa da Floresta Amazônica. Foto: Gert-Peter Bruch/Planète Amazone
Depois disso, coordenei a comunicação de muitas viagens do cacique Raoni à França e à Europa. Em seguida, a partir de 2012, com a ONG Planète Amazone, que eu havia fundado a seu pedido, tive a honra de organizar durante vários anos turnês internacionais para ele. Tenho orgulho de ter reunido ao seu lado povos indígenas e aliados do mundo inteiro em torno de uma grande e magnífica aliança lançada na COP21 de Paris. Fui seu intérprete quando nos aproximamos de Paul Watson [defensor da vida marinha], de Jane Goodall [primatóloga britânica] e de muitos outros. Também realizei dois longas-metragens documentários nos quais ele é o protagonista central. Dessa história iniciada em Paris quando eu tinha 18 anos nasceu um vínculo muito forte. Ele me considera um de seus filhos, e eu o considero um segundo pai.
É a partir dessa história pessoal tão rica, dos momentos incríveis que ele me fez viver, que posso dizer o que o cacique Raoni representa para mim. Não falo apenas de uma figura histórica ou de um grande símbolo da defesa da Amazônia. Falo de um homem que acredito conhecer intimamente e cuja vida inteira é uma grande lição para toda a humanidade, e certamente será uma inspiração para as gerações que virão.
Quando o cacique Raoni apareceu, no fim dos anos 1980, em particular para nós, europeus ainda profundamente impregnados pelo imaginário dos faroestes norte-americanos, foi um choque imenso. Ver surgir esse homem extraordinário, com seu cocar de plumas, esse magnífico adorno que fazia seu rosto parecer um sol, seu botoque labial pintado com o vermelho vivo do urucum e seus olhos penetrantes de jaguar, transformou os olhares. Na França, muitos de nós fomos conquistados quase instantaneamente por sua primeira aparição televisiva. Ele se tornou popular da noite para o dia, e, em todos os lugares por onde passou depois, no mundo inteiro, o mesmo assombro se repetiu.
Na aldeia Mẽtyktire, Raoni faz uma pausa durante a gravação de suas memórias e histórias. Julho de 2014. Foto: Gert-Peter Bruch/Planète Amazone
Não se pode pensar que tal aparição tenha sido fruto do acaso. A sincronicidade era perturbadora. O cacique Raoni surgia no momento exato em que o futuro do planeta começava a se impor às consciências, em que a Cúpula da Terra de 1992, a Rio-92, já se preparava, e em que ia se compreendendo pouco a pouco que a destruição da Natureza podia se tornar uma ameaça para toda forma de vida.
Mas, nesse grande debate nascente, uma ausência permanecia imensa: a dos povos indígenas. Falava-se do futuro da Terra sem se consultar aqueles que, havia gerações, protegiam as florestas, os rios, os territórios e os ecossistemas vivos. Ou seja, aqueles que melhor a representavam, já que dela faziam parte integrante. Ainda não se havia compreendido que eles não estavam à margem dos debates, mas no próprio coração deles.
O cacique Raoni veio recordar uma evidência esquecida: os povos indígenas ainda existem. Eles estão vivos. Suas culturas permanecem poderosas. Eles não são vestígios do passado. Por sua presença, sua voz e sua luta, ele os impôs no debate mundial com uma grande simplicidade e uma mensagem clara: “Nós devemos ser incluídos nesta discussão; vocês precisam da nossa contribuição”.
Isso teve uma força considerável. Quando os povos indígenas se reuniram em grande número na Cúpula da Terra de 1992, foi também porque precursores como ele haviam aberto o caminho. Ele havia mostrado que os guardiões da floresta não eram testemunhas relegadas às margens da história, mas vozes essenciais para o futuro da humanidade.
A luta de toda a sua vida continua a inspirar porque encarna uma passagem que se acreditava quase impossível: aquela que liga este mundo que se proclamara a si mesmo civilizado aos povos que ainda vivem em contato direto com seus territórios naturais. O encontro histórico entre esses dois universos havia sido, até então, sobretudo uma história de genocídio, de morte, de sangue, de dominação e de espoliação. Como imaginar, depois disso, que uma palavra pudesse novamente ser trocada?
E, no entanto, o cacique Raoni abriu esse caminho. Ele vinha de um povo guerreiro, de um povo que tinha todas as razões para não baixar as armas, para não confiar no mundo dos brancos, para não acreditar no diálogo. Mas ele iniciou um caminho de reconciliação, primeiro entre os seus, entre aqueles que não queriam parar de combater, depois muito além. Essa é uma das mensagens mais poderosas de sua existência.
Raoni observa a cidade de Paris de um dos mirantes da Torre Eiffel. Julho de 2014. Foto: Gert-Peter Bruch/Planète Amazone
Seu percurso é único. Durante sua infância, sua adolescência e sua iniciação à vida adulta, ele não esteve em contato direto com o mundo dos brancos. Não foi contaminado por ele. Raoni nunca foi um homem vivendo ou sobrevivendo na floresta: ele É a floresta, que vibra, que floresce, que jorra, como a vida.
Ele atravessou todas as etapas de um percurso de iniciação de dureza extrema, daqueles que fariam muitos treinamentos militares parecerem uma prova leve, para se tornar um dos guerreiros mais temidos de seu povo. Mas o que me fascina ainda mais é que esse guerreiro consumado tenha escolhido se tornar um homem de paz. Ele não renegou a força do combatente: transformou-a em força de proteção, de diálogo e de reconciliação. E, paralelamente, o que é muito mais raro ainda, seguiu uma iniciação espiritual. Ele carrega, portanto, em si a força do combatente, a sabedoria do homem de paz, a visão do pajé e a profundidade do guardião da memória.
O cacique Raoni também me concedeu a honra de permitir que eu recolhesse uma grande parte de sua história e de suas mensagens. Realizei com ele mais de 50 horas de entrevistas. Ele ainda tinha um vigor excepcional. O que me perturbou profundamente foi a maneira como fixava o olho na câmera com uma potência quase sobrenatural, como se não se dirigisse apenas a mim, nem mesmo àqueles que o escutariam em vida, mas já às gerações de seu povo e de todos os outros povos que descobririam sua palavra depois de sua morte. Ele sempre teve consciência de que sua mensagem deveria sobreviver ao desaparecimento de seu invólucro terrestre, e pude, por um tempo, viver o privilégio de ser um de seus escribas.
Raoni e Gert-Peter em entrevista para o filme Amazônia, Coração da Mãe Terra. Maio de 2022. Foto: Baptiste Ozenne/Planète Amazone
Com os ensinamentos dos anciãos e da tradição, com sua convivência, desde muito jovem, com os povos do Alto Xingu e com os irmãos Villas Bôas, com seu conhecimento íntimo do mundo vivo e sua conexão com os espíritos do mundo invisível, o cacique Raoni tornou-se um embaixador extraordinário da floresta, como talvez nenhum outro antes dele. Desde o fim dos anos 1950, muito antes de estar no Palácio do Eliseu com Sting diante do presidente francês François Mitterrand, ele encontrou presidentes brasileiros e grandes figuras do Brasil, entre as quais o marechal Rondon. Figura histórica complexa, ligada tanto à abertura de linhas telegráficas rumo à Amazônia quanto à criação do Serviço de Proteção ao Índio, antecessor da Funai, Rondon acabou profundamente marcado pelos efeitos devastadores do contato sobre os povos indígenas.
E da mesma forma marcou o cacique Raoni, que nunca deixou de recordar o ensinamento que Rondon lhe havia transmitido: permanecer de pé por sua terra e por seu povo.
Isso também é o cacique Raoni: um homem que carregava consigo não só toda a força de seus ancestrais, como a daqueles que, em diferentes momentos de sua vida, o haviam guiado, fossem eles indígenas, brancos ou vindos de outros horizontes.
É por isso que vejo o cacique Raoni não apenas como um mensageiro, mas como uma ponte. Ele liga duas margens que a história havia separado pelo sangue, pelo genocídio e pela espoliação. E porque quis reunir, reconciliar, tornou-se também aquele que faz a travessia ser possível: abre o caminho sem jamais aceitar que um mundo absorva ou destrua o outro.
Ele abriu uma via para que muitos outros povos indígenas pudessem, depois dele, fazer ouvir suas vozes em nosso mundo. Hoje, quando representantes da Amazônia se expressam nas Nações Unidas, participam de negociações internacionais, organizam turnês de sensibilização, lançam campanhas mundiais e alertam diretamente as opiniões públicas, é também porque pioneiros como ele tornaram essa passagem possível.
Raoni, os sobrinhos Megaron (no centro) e Bemoro Metuktire, e Gert-Peter com François Hollande, então presidente da França. Novembro de 2012. Foto: John Van Hasselt/Planète Amazone
Sua turnê mundial de sensibilização com Sting, em 1989, teve um impacto imenso. Ela contribuiu para criar uma nova forma de relação entre os povos indígenas e o restante da humanidade. Essa relação continua difícil, imperfeita. Os povos indígenas ainda não têm acesso suficiente aos espaços onde se decide o futuro de suas terras, de suas florestas e do planeta. Mas ela existe. E o cacique Raoni foi um daqueles que a tornaram irreversível.
Há também sua obra visível. O fruto do combate do cacique Raoni pode literalmente ser visto do espaço.
Desde 1989, sua mensagem cabia em poucas palavras: “Meu território está em perigo. Eu devo protegê-lo. Suas fronteiras devem ser reconhecidas”. Mas, por trás desse pedido de demarcação, ele já carregava um alerta muito mais vasto. Com palavras que então ressoavam como proféticas, ele nos dizia: “Se vocês continuarem destruindo a minha floresta, os grandes ventos se levantarão, a terra queimará, os desertos substituirão as florestas, e os filhos dos seus filhos sofrerão”.
Raoni comenta um mapa da Terra Indígena Kapôt Nhinore durante campanha pela Amazônia na Europa. Dezembro de 2012. Foto: John Van Hasselt/Planète Amazone
Naquele momento, ainda não era a linguagem das conferências climáticas, dos relatórios científicos ou das negociações internacionais. Era a voz de um cacique indígena, de um guerreiro e de um pajé falando a partir da Floresta para advertir que a destruição da Amazônia não permaneceria uma tragédia local. Ela se tornaria planetária. Anos mais tarde, a ciência se juntaria a esta mensagem: proteger os territórios indígenas é indissociável da luta contra os desequilíbrios climáticos.
E, mais uma vez, a sincronicidade é impressionante. O cacique Raoni surge na cena mundial poucos meses depois da adoção da Constituição brasileira de 5 de outubro de 1988, que reconhecia os direitos dos povos indígenas sobre suas terras tradicionais e previa sua demarcação no prazo de cinco anos. Essa vitória imensa, à qual ele havia dado tanto de si, abria uma janela histórica. Sua turnê internacional começou no início do mês de abril de 1989, apenas seis meses depois.
As aparições nos estúdios de televisão, os programas populares, os encontros com o grande público tinham sua razão de ser: era preciso tocar os corações, fazer nascer um impulso em torno desse homem que o mundo descobria de repente. Mas, por trás dessas aparições solares, o cacique Raoni já carregava uma vontade muito precisa. Ele não havia vindo pedir caridade. As poucas vozes maldosas que, mais tarde, diriam o contrário nada compreenderam de sua nobreza nem de sua grandeza de visão.
O cacique Raoni havia atravessado o Oceano Atlântico com um mapa enrolado. Esse mapa, ele o desenrolou pela primeira vez diante de François Mitterrand, primeiro chefe de Estado a recebê-lo na cena internacional. No papel, outro oceano aparecia, verde desta vez: a Amazônia de seu povo. No coração dessa imensidão, uma forma estranha traçada com marcador preto, quase um cogumelo, desenhada por ele com seu povo.
O então presidente francês François Mitterrand conversa com o cacique Raoni e o cantor Sting no Palácio do Eliseu, em Paris. Abril de 1989. Foto: Yves Sieur/AFP
Para muitos, esse traçado podia parecer abstrato, quase simbólico. Para ele, era a fronteira de uma terra viva a proteger, uma parte do mundo que ele se recusava a ver desaparecer. Ele vinha fazer reconhecer o território de seu povo com uma determinação tal que logo nos convenceria de que esse território era também importante para toda a humanidade.
O mais extraordinário é que essa forma não ficou no papel. Desde os anos 2000, e ainda mais hoje, ela aparece vista do céu. O cogumelo existe. Nós o vemos. Essa silhueta sublinha a tragédia do desmatamento. Ao redor, a floresta recuou sob os campos de soja, a pecuária bovina, as estradas, as minas… Mas o território pelo qual ele lutou permanece ali, como uma ilha verde no meio da destruição.
Hoje, o mundo pode contemplar a visão do cacique Raoni: um engajamento transformado em geografia. Essa imagem diz mais do que muitos discursos: aqui, um povo resistiu; aqui, uma floresta ainda está de pé porque povos indígenas a defenderam. Sua obra é, portanto, ao mesmo tempo interior e concreta. Ele despertou consciências, transformou olhares, deslocou fronteiras mentais. Mas também protegeu terras, rios, florestas, animais, as gerações futuras e o próprio clima.
Porque ele veio até nós, não podemos mais agir como se os povos indígenas não existissem. Ainda podemos nos recusar a escutá-los, mas não podemos mais fingir que não sabemos. Se ignoramos sua voz, se afastamos a mão estendida, se rejeitamos o convite para trabalhar juntos, então carregamos plenamente essa responsabilidade. Tornamo-nos cúmplices de um ecocídio incomensurável que, caso se torne incontrolável, carrega em si os germes de nossa própria perda.
Eu teria desejado tanto que o papel incomensurável que o cacique Raoni desempenhou para os povos indígenas, mas também para aqueles que se tornaram seus aliados, seus amigos, seus irmãos, sua família, se desdobrasse em escala ainda mais vasta. Se o mundo tivesse realmente escutado o que ele carregava, se tivéssemos sabido acolher essa mão estendida com a gravidade que ela merecia, talvez não estivéssemos onde estamos hoje.
Mas mantenho a esperança. Quero acreditar que, como era seu desejo e sua visão, sua mensagem continuará a crescer quando ele tiver concluído seu percurso terrestre para juntar-se à grande casa que o espera no céu, como ele próprio dizia. Ali reencontrará sua esposa, Bekwyjkà, seus ancestrais e todos os espíritos da floresta. Entrará então plenamente no mundo invisível, esse mundo que sempre o acompanhou, e do qual terá sido, entre nós, um dos maiores mensageiros.
Creio que ele permanecerá na história como uma das grandes figuras da transição entre o segundo e o terceiro milênio. Graças a ele, já não vemos os povos indígenas tradicionais apenas como vítimas a defender, mas antes de tudo como nossos aliados, nossos irmãos mais velhos. Eles são nossas raízes, nosso futuro e uma esperança para a nossa humanidade desorientada, enquanto as grandes convulsões já começaram.
No plano pessoal, ter caminhado ao seu lado durante uma parte de sua vida tão longa foi uma revelação. O cacique Raoni me transmitiu uma energia fundamental que penso utilizar todos os dias, quase a cada instante. Sua mais bela lição? É que, no meio da dor e da tragédia, resistir é estar vivo.
E talvez seja isso, no fundo, o que o cacique Raoni nos deixa de mais precioso: continuar quando tudo nos empurra a renunciar; estender a mão quando a história ergueu muros; proteger a floresta quando ela está sendo devorada; e abrir, até o último sopro, uma passagem para a vida.
Obrigado, meu Grande cacique. Que tua mensagem continue a se propagar, para além das fronteiras e do tempo.
Raoni saúda as crianças da Living School, em Paris, durante a ‘Urgência Amazônia’, campanha em defesa da Floresta levada à Europa. Dezembro de 2012. Foto: John Van Hasselt/Planète Amazone
Gert-Peter Bruch é cineasta, fundador da organização ambiental Planète Amazone e cofundador da Aliança dos Guardiões da Mãe Natureza. Engajou-se ainda no ensino médio na causa dos povos indígenas da Amazônia brasileira e, a partir desse momento, organizou ou contribuiu para oito campanhas internacionais do cacique Raoni Mẽtyktire. Também ajudou diversas lideranças e comunidades indígenas a ampliar suas vozes no cenário internacional. É diretor e produtor de dois longas-metragens documentários, Terra Libre e Amazônia, o Coração da Mãe Terra – este último em colaboração com a princesa Esmeralda da Bélgica –, que retratam a luta dos povos indígenas pela proteção da Amazônia e de outros ecossistemas vitais do planeta. Participa regularmente de atividades em escolas e cúpulas internacionais para formar uma nova geração de Guardiões da Terra, defendendo a necessidade de estabelecer cooperações com povos indígenas e comunidades tradicionais.
Reportagem e texto: Gert-Peter Bruch
Edição: Talita Bedinelli
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: Sarah J. Johnson
Edição em inglês: Jonathan Watts
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum
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Fonte: SUMAÚMA
