‘Quando Raoni mudou a vida de meu pai, o rei Leopoldo 3o’

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Por Flavia CoimbraSUMAÚMA

Uma pausa para desesquecer que esquece do milagre

Qual o remédio para quem tem febre de exploração?
Qual o médico que trata a dor de desmatamento?
Quem pega urbanização sente o quê?

Depois de ‘mandar à merda esta vida de merda’, o autor de ‘Macunaíma’ navegou os rios Amazonas e Madeira ‘até dizer chega’. No diário de viagem transformado em livro, o sentimento transborda e a Natureza arrebata

Depois de abdicar, Leopoldo se dedicou a promover a ciência e a conservação da Natureza. Foto: Leopold III Fund for Nature Exploration and Conservation

A princesa Esmeralda da Bélgica, ambientalista e ativista pelos direitos humanos, dá seu testemunho sobre o encontro transformador entre dois líderes de mundos distintos

Encontrei Raoni pela primeira vez quando era criança, na década de 1960. Embora não tenha sido pessoalmente, ouvi muito falar dele e vi seus retratos quando meu pai voltou da Amazônia com uma vasta coleção de fotografias.

Meu pai, o rei Leopoldo 3 o , sempre sonhou em conhecer as florestas tropicais do mundo. Durante sua primeira viagem ao Brasil com seus pais, em 1920, aos 19 anos, ele teve um vislumbre inicial da Amazônia e prometeu a si mesmo que um dia retornaria. Precisou esperar mais de 40 anos para cumprir essa promessa.

Depois de sua abdicação do trono, dedicou a vida a promover a pesquisa científica e a conservação da Natureza. Em 1964, enquanto liderava uma expedição científica no Brasil, conheceu os irmãos Villas Bôas, que o convidaram a visitar o recém-criado Parque Nacional do Xingu, no estado de Mato Grosso. Aquela viagem mudaria sua vida.

Vivendo vários meses em comunidades indígenas – comendo, caçando e pescando com elas, dormindo em redes e compartilhando seu cotidiano –, ele descobriu sua cultura e seu profundo conhecimento da Natureza.

Na época, Raoni era jovem. Por meio de longas conversas – Raoni tinha conhecimentos básicos de português – meu pai passou a conhecê-lo bem. Tirou muitas fotografias, que acredito estarem entre as primeiras imagens do grande líder.

O cacique Raoni em 1964 durante viagem de Leopoldo 3o pela Floresta Amazônica. Foto: Leopold III Fund for Nature Exploration and Conservation

Desde a década de 1930, meu pai alertava, em discursos e textos, que éramos a primeira geração a testemunhar o impacto destrutivo da atividade humana sobre o mundo natural e que preservar a biodiversidade era essencial para a sobrevivência da nossa própria espécie e de inúmeras outras. Por intermédio de Raoni e de outros chefes amazônicos, ele conheceu comunidades que viviam em profunda harmonia com a Natureza. Elas lhe ensinaram que todos fazemos parte dela. Compartilhavam uma espiritualidade profunda e uma visão cósmica que conecta seres humanos, outros animais, plantas, rios e montanhas, lembrando-nos de que somos seus guardiões, e não seus senhores.

Ao retornar à Europa, meu pai publicou um livro intitulado Indian Enchantment [Encantamento indígena, na tradução livre], em que descreveu a riqueza das culturas e dos valores indígenas. Continuou apoiando os esforços dos irmãos Villas Bôas para proteger as comunidades indígenas, assim como o trabalho de cientistas e médicos que buscavam protegê-las das doenças trazidas pelo contato com o mundo exterior.

Em 1972, criou uma fundação dedicada à exploração científica, à conservação da Natureza e à proteção de seus guardiões. Desde sua morte, em 1983, tenho tido a honra de presidi-la.

Finalmente conheci Raoni em Milão, durante sua turnê mundial com Sting, em 1989. Foi um momento especialmente emocionante para mim, pois ele imediatamente me reconheceu como filha daquele que chamou de “um bom homem branco”, distinguindo meu pai daqueles “homens brancos que querem destruir as terras e os direitos indígenas”.

Nos anos seguintes, encontrei-o várias vezes enquanto ele viajava incansavelmente pelo mundo, conscientizando as pessoas sobre as ameaças que pairam sobre as florestas tropicais e os Territórios Indígenas.

No entanto, foi apenas em 2022, quando viajei pela primeira vez à Amazônia para codirigir e coproduzir o filme Amazonia, the Heart of Mother Earth (Amazônia, Coração da Mãe Terra), com Gert-Peter Bruch, fundador da ONG francesa Planète Amazone, que realmente tive a oportunidade de passar um tempo com Raoni em sua aldeia.

A equipe do filme dirigido pelo cineasta Gert-Peter Bruch (de boné) e pela princesa Esmeralda (de chapéu) posa com Raoni durante as filmagens, em 2022. Foto: Planète Amazone

Foi profundamente comovente descobrir o cotidiano de um homem que havia se encontrado com chefes de Estado, reis e celebridades internacionais. Ele dormia em uma rede numa casa compartilhada com membros de sua família. Não possuía luxo algum e tinha poucos bens materiais além de uma televisão.

Observei-o conversar com as crianças e os jovens de sua comunidade – uma atividade da qual gostava muito. Sentados em círculo, eles ouviam atentamente suas histórias e demonstravam clara inspiração por suas palavras. Também o vi presidir reuniões com os anciãos, discutindo estratégias e a luta contínua pela demarcação de todos os Territórios Indígenas – uma promessa feita na Constituição brasileira de 1988 que permanece apenas parcialmente cumprida e que se tornou a grande missão de sua vida.

Embora tivesse cerca de 90 anos, sua presença continuava poderosa e sua mente, extraordinariamente lúcida. Igualmente impressionante era sua habilidade meticulosa na confecção de cocares de penas, trabalhando pacientemente com mãos firmes que pareciam jamais tremer.

Certa noite, na casa dos homens, no centro da aldeia, organizamos uma exibição de fotografias tiradas por meu pai durante sua expedição de 1964. Sentei-me ao lado de Raoni na primeira fila enquanto ele se alegrava ao ver imagens de familiares e amigos – alguns já falecidos muito tempo antes, outros ainda vivendo na aldeia.

Naquela noite, Raoni segurou minha mão e me deu o nome indígena de sua mãe. Foi uma honra profundamente emocionante e extraordinária.

Raoni e a princesa Esmeralda na aldeia em Mato Grosso durante a projeção das fotos de Leopoldo 3 o feitas na viagem de 1964. Foto: Planète Amazone

Nos anos seguintes, voltei a encontrá-lo no Acampamento Terra Livre, em Brasília, e mais tarde em Londres. Durante uma visita ao meu apartamento, mostrei-lhe as plantas da minha varanda. Ele imediatamente quis saber seus nomes e características. Fiquei novamente tocada por sua curiosidade inesgotável sobre o mundo natural e pela profundidade do conhecimento transmitido de geração em geração.

Certa vez, o cientista brasileiro Carlos Nobre me disse que ficava impressionado com a forma intuitiva com que Raoni compreendia o funcionamento do ciclo das águas da Amazônia, apesar de jamais tê-lo estudado formalmente.

O legado de Raoni é inestimável. Ele inspirou e mobilizou gerações de lideranças indígenas no Brasil e além de suas fronteiras. Também despertou consciência global sobre a importância vital de proteger a Amazônia e defender os direitos e os Territórios Indígenas.

Tenho imensa admiração por sua coragem, sua visão e dedicação inabaláveis ao seu povo e à Mãe Terra. Sinto-me profundamente privilegiada por ter compartilhado momentos da minha vida com ele e guardarei essas lembranças para sempre.

‘[Os Indígenas] compartilhavam uma espiritualidade profunda […] lembrando-nos de que somos cuidadores e não donos [da Natureza].’ Foto: Fundo Leopoldo 3 o para Exploração e Conservação da Natureza

A princesa Esmeralda da Bélgica é jornalista, produtora de documentários, autora e ativista. Defensora de causas ambientais e de direitos humanos, especialmente dos direitos das mulheres e dos povos indígenas, ela preside o Fundo Leopoldo 3 o para Exploração e Conservação da Natureza, criado em 1972 por seu pai, que esteve entre os primeiros visitantes do Parque Nacional do Xingu, no Brasil, em 1964. Também é presidenta da Friendship Belgium, ONG que atua em Bangladesh com populações em situação de vulnerabilidade por meio de programas de educação, saúde, empoderamento feminino e adaptação climática; presidenta honorária da Care Belgium; embaixadora do WWF Reino Unido e do WWF Bélgica; da Stop Ecocide International; e campeã [de Alto Nível] da Iniciativa pelo Tratado de Não Proliferação dos Combustíveis Fósseis.

Texto: Princesa Esmeralda da Bélgica
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Meritxell Almarza
Tradução para o português: Talita Bedinelli
Edição em inglês: Jonathan Watts
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum

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Fonte: SUMAÚMA

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