Por Chico AlvesICL Notícias

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Há vinte e cinco anos, o terrorismo destruiu vidas e edifícios. Três dias depois, quando a América ainda contava os mortos, a Câmara dos Representantes votou a autorização para ir para a guerra. O resultado foi 420 votos a favor e um contra. O voto solitário pertenceu a Barbara Lee, congressista democrata da Califórnia. Bem entendido, não votou contra porque ignorasse o horror ou a dimensão do crime cometido. Votou contra porque percebeu que naquele momento de aflição as democracias devem ter medo daquilo que fazem quando têm medo. Antes da votação, recordou o discurso que ouvira horas antes numa cerimónia religiosa: “que as nossas ações não nos transformem no mal que hoje deploramos”.

Esse mal veio a galope. Depois da catástrofe, nova catástrofe. Em nome da nossa defesa, aceitamos a tortura — começando por lhe mudar o nome: “enhanced interrogation techniques. Aceitámos prisões onde homens podiam permanecer anos sem julgamento. Aceitámos entregas clandestinas de prisioneiros a países onde seriam interrogados por métodos que não queríamos praticar à vista de todos. Aceitámos Abu Ghraib. Aceitámos Guantánamo. Aceitámos a vigilância em massa e uma extraordinária expansão dos poderes do Estado. Fizemos guerras preventivas com justificações fabricadas. E transformámos as execuções sumárias, executadas a milhares de quilómetros de distância por uma máquina pilotada remotamente, num instrumento normal da política de segurança de uma democracia. Tudo isto, disseram, em nome do nosso “modo de vida”. Visto à distância de vinte e cinco anos, talvez tenha começado aqui a falência moral do Ocidente, cujo “modo de vida” convive hoje com a tragédia de Gaza e o extermínio do povo palestiniano.  Tal com escreveu Yehuda Elkana , o imperativo ocidental pós nazismo de “nunca mais” transformou se num “nunca mais — a nós”.

E, por favor, sejamos lúcidos. Não procuremos desculpas ridículas para o que se passou A tortura, não foi praticada clandestinamente – foi discutida e juridicamente justificada por uma grande democracia que sempre se reclamou como exemplo moral e republicano para o mundo. A guerra do Iraque foi baseada numa horrível mentira e a guerra global ao terror trouxe as extraordinary renditions, os black sites, a vigilância em massa, os drones e os assassinatos-alvo. O campo de batalha alargou-se e as guerras do Ocidente tornaram-se as “forever wars”.

O terrorismo não obrigou a América a fazer nada disto. Foram escolhas políticas conscientes. O mundo lembra hoje, com tristeza, o horror do 11 de setembro. Lembra o mal que foi feito. Mas lembra também o mal que fizémos para combater o mal que nos fizeram. A história destes vinte e cinco anos não é apenas a história da luta das democracias contra o terrorismo, é também a história daquilo que as democracias fizeram a si próprias durante essa luta.

O terrorismo pretende que uma sociedade livre tenha medo. Mas a sua vitória mais profunda só acontece quando convence uma democracia a abandonar, voluntariamente, os princípios que dizia distinguirem-na daqueles que a atacaram. Escreveu o filosofo canadiano Michael Ignatieff (a este, julgo eu, mas já nada posso garantir, ninguém acusará de comunista ou de simpatia com ditaduras): “O terrorismo (…) tem conduzido a governos mais secretos, mais poderes policias e aumento dos poderes executivos(…) em todos estes aspetos, é a resposta ao terrorismo, mais do que o terrorismo ele próprio, que tem feito pior à democracia”. Talvez por isso a pergunta mais incómoda, vinte e cinco anos depois do 11 de Setembro, é perguntarmo-nos o que é que, em nome do combate ao terrorismo, fizemos a nós próprios. Barbara Lee tinha razão em ter medo: “que as nossas ações não nos transformem no mal que hoje deploramos “. Devíamos ter escutado melhor.


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11 de setembrojosé sócrates

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Fonte: ICL Notícias

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